Mostrando postagens com marcador Other people's words. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Other people's words. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de maio de 2019

Flores, de Afonso Cruz



"Uma coisa são lágrimas de cebola e outra são lágrimas do coração."

*

"Cada homem é um universo, se não fosse não caberia tanto sofrimento dentro da cabeça de cada um."

*

"Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela (já morreu), às conversas com o diretor da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no teto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama."

*

"Nunca é fácil ser criança e esse tempo só é bom para os psicólogos ganharem dinheiro."

*

"Gostava que a vida fosse assim e nos presenteasse com vários ângulos ao mesmo tempo. Poderíamos ser crianças e adultos na mesma frase. Poderíamos ser viciosos e virtuosos no mesmo gesto de pousar a chávena do pequeno-almoço. Mas se calhar já é assim, e as pessoas treinadas conseguem ver a vida como se olha para um carrinho de lata vermelho, vêem o condutor de frente e de lado, tal como sabem que uma pessoa pode ser viciosa e virtuosa no mesmo gesto de pousar."

*

"Se um dia vier a acreditar em Deus, não quero relâmpagos e trovões, quero um sorriso delicado como aquele que aparecia no teu rosto. O mundo, quer-me parecer, é muito mais um sorriso ou uma flor a abanar ao vento do que um terramoto, um monumento de pedra ou um grand canyon."

*

"Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas. [...] a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros."

*

"Vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém."

*

"As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso, trata-a bem."

*

"Houve um tempo em que cosi as minhas artérias ao teu corpo e todo o sangue que bombeava era na tua direção."

*

"Era a vida a provar-me que não tinha acabado tudo, que a vida é um constante recomeço, que nos pisa e nos massacra apenas para ter adubo para se recriar, num círculo nietzschiano, exibindo uma falta de consideração, tato e educação, como se não tivesse sentimentos. A vida dá cabo de nós para logo de seguida ir ao café beber uma milnovivinte e brindar ao início de uma nova tragédia, que acabou de nascer."

*

"Em certa medida, somos todos homens artificiais, de barro ou pedra ou madeira, uns pinóquios que precisam de despertar para uma vida de carne e osso. O somatório dos horrores deveria ser capaz de provocar esse despertar."

*

"A solidão deve ser a única emoção que não conseguimos partilhar, se o fizermos ela desaparece."

*

"Olho para as formigas e são tão pequenas debaixo dos meus pés descalços na relva, e sinto este poder imenso de as esmagar, e imagino Deus, com os mesmos pés, a olhar para nós como seres insignificantes. E Ele, com os seus pés de unhas endurecidas a pisá-las, sem se aperceber da riqueza que cada formiga tem dentro dela. E tenho vontade de gritar quem sou, fazer ver que não mereço ser pisada por um pé incauto, mas é a vida, ser formiga de Deus, ser pisada, ser uma pessoa que passeia os seus cães nos jardins com um saco de plástico para recolher a merda."

*

"Não há tradutores de arte. O que faria um tradutor de arte? É muito simples, traduziria a arte para outras linguagens: olhava para os girassóis do Van Gogh e traduzia-os para as leis da Física, e assim ficava explicado o Universo. Mas esse é um trabalho que ninguém faz, todos têm medo de o fazer, somos uns cobardes a olhar para a arte, Kevin, temos medo de que aquilo nos dê uma resposta cabal e deixe de haver motivo para viver porque passámos a saber tudo. Somos uns poltrões que andam pelos museus a olhar para obras-primas para depois dizer: Maravilhoso. Maravilhoso, o caralho, aquilo é muito mais do que isso. Que digam que o Grand Canyon é maravilhoso, que as cataratas de Iguaçu são maravilhosas, está bem, mas de um quadro do Van Gogh? É só isso que têm a dizer? Maravilhoso? São uns cobardes. UNS COBARDES!"

*

"Um rio, Kevin, está ao mesmo tempo na nascente e na foz. A vida também é assim, mas nós imaginamos que é um barco a descer o rio, um humilde pescador que por vezes tenta remar contra a corrente, mas é impossível vencê-la. Porém, nós somos o rio, que imagem tão gasta, Kevin, mas deve ser isso que somos. Ao mesmo tempo na nascente e na foz, moribundos e nascituros ao mesmo tempo, no útero e enterrados ao mesmo tempo, e no entanto sempre diferentes de nós mesmos, porque a água é sempre outra, a nascente está sempre a mudar, a foz está sempre a mudar, o nosso passado também, o nosso destino também, somos esta imagem tão gasta pelos poetas, pelos cantores, é isso mesmo, Kevin, uma alegoria velha, somos o tal rio, o tal lugar-comum."

*

"“Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objeto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objeto bondoso, que não magoa ninguém.” Não há muita coisa assim."

*

"Os pobres, como sabe, não são ricos. São as solas dos sapatos. Estão lá em baixo a proteger a envergadura toda, constantemente a serem pisados, pois a condição da sola do sapato é essa, ao mesmo tempo que serve de base, de raiz."

domingo, 12 de maio de 2019

A filha perdida, de Elena Ferrante



"Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?"

*

"As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender."

*

"O não dito fala mais do que o dito."

*

"Um filho é, de fato, um turbilhão de aflições."

*

"Queria que minhas filhas fossem amadas, não suportava que não fossem, a possível infelicidade delas me aterrorizava."

*
"Desancorar-se, sentir-se leve não é algo positivo, é uma crueldade consigo mesmo e com os outros."

*

"Sempre existe um fino galho da própria vida ao qual se agarrar e, ali suspenso, se acostumar à necessidade de cair."

*

"Uma mãe não é nada além de uma filha que brinca."

sábado, 11 de maio de 2019

Becos da Memória, de Conceição Evaristo



"Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção."

"Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída."

"Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.
[...] Sonho só alimenta até à hora do almoço, na janta, a gente precisa de ver o sonho acontecer. Tive tanto sonho no almoço de minha vida, na manhã de minha lida, e hoje, no jantar, eu só tenho a fome, a desesperança..."

"Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós, que consegue viver, que consegue se realizar. A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você."

" E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está."

"Quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que não estava, dava um passo muito importante para sua libertação."

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Interdependências



"Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda a floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se você tentar entender a árvore como algo isolado, ficaria intrigado com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles.  Mas se você vir a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles. Interdependência. E a árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, precisa dos fungos que crescem na raiz e o fungo precisa da raiz e a raiz precisa do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência. A teoria dos sistemas reconhece esta teoria das relações como a essência de todas as coisas vivas."


(Do filme "Mindwalk" (1990), baseado no livro "Ponto de Mutação", de Fritjof Capra)


Agora ficou claro. Não é vergonha dizer "Eu dependo de você". É ciência! 
E eu dependo mesmo... 
Dependo da sua presença, do seu amor, do seu afeto. 
Dependo do seu olhar em mim, do seu beijo, do seu cheiro. 
Dependo dessa vida interdependente que estamos construindo juntos, a cada dia, e que dá todo sentido à minha própria vida. 
É ciência. 
É fato. 
Somos fungo e raiz. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Acúmulo



"Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando -


até que não caibo em mim e estouro em palavras..."

(Clarice Lispector)



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Envelhecer



"Envelhecer só é bonito na poesia."


Ouvi isso de uma amiga e não consigo parar de pensar sobre o assunto...
Será mesmo?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Did I learn that??


"I learned that I must accept people the way they are, just accept differences. I learned that it’s not “worthy” to expect from people, because most of the time you’ll get upset. I learned that I can’t trust everyone and that it’s not wrong to be scared or cry. I learned that you can’t treat every situation as a life-and-death matter, because you’ll die lots of times. I learned that a teacher doesn’t need to always be a teacher, but also a friend. I learned that things happen for a reason, even if most of the times you think it wasn’t meant to be. I learned that it’s not healthy to jump from head, risk everything you have inside of you, for someone or something, no matter how important one is for you. I learned that it’s normal to feel rotten, abysmal, dreadful and unseen when loosing someone you love, and that grieving is not a sin as I thought it was. I learned that when something bad happens, may not affect other people but yourself. That you can’t be ashamed forever, even though you feel mortified, one day you’ll have to let go and live your life. Because if you don’t, you’ll just be punishing yourself in the cruelest and painful way, and you’ll keep suffering until you decide to start over or continue your life. Just understand that you’re a human and make mistakes, like any other. I’m telling whom, because I don’t want people to end up like me, because I don’t wish this ending to anyone. All you have to do is admit your mistake, forgive yourself, and move on. I also learned that it’s worthless to get drunk if you’re sad, it doesn’t take you anywhere actually, trust me, I know. " (B. A.)

Esse é um trecho de um texto escrito por uma menina de 13 anos... Li, reli, li mais uma vez e concluí:
Ela já aprendeu mais da vida do que eu, com 31!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Presente IV


Amor, pois que é palavra essencial



Amor - pois que é palavra essencial

comece esta canção e toda a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

reúna alma e desejo, membro e vulva.



Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma expandir-se

até desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?



O corpo noutro corpo entrelaçado,

fundido, dissolvido, volta à origem

dos seres, que Platão viu completados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.



Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?



Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.



Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara,

mas, varado de luz, o coito segue.



E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da prórpia vida,

como ativa abstração que se faz carne,

a idéia de gozar está gozando.



E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o climax:

é quando o amor morre de amor, divino.



Quantas vezes morremos um no outro,

no úmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.



Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
 
 
(Drummond, claro!)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Presente III

Não resisto e vou colar o que li aqui...

"escrevo para que você me leia. Simples assim. Para que você me leia e volte, para que você me leia e pense que há algo surpreendentemente belo em mim, algo que você não viu, algo que passou por nós despercebido. Então, para ser mais clara, é possível?: para que você me leia e ame."

(Flores Azuis, Carola Saavedra, p. 42, Ed. Companhia das Letras)


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Presente II

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."

(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Casa comigo?



"Porque eu te amo, porque você é tudo o que sonhei, porque me vejo em ti, porque tu tens os defeitos mais respeitáveis e as qualidades mais admiráveis, porque você me faz muito feliz e porque você é a única que eu quero que seja testemunha de tudo o que sou e serei...

Casa comigo?"


(H.C.)

sábado, 19 de junho de 2010

Na Ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

(José Saramago, 16/11/1922 - 18/06/2010)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Luto

Hoje perdemos um grande homem, uma grande mente, um grande escritor.

E eu estou particularmente desolada porque José Saramago morreu.

Segue, aqui, uma pequena narrativa dele:

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Filosofando



Segue filosofia da minha melhor amiga sobre relacionamentos:
(Sábia filosofia, aliás!)


"Romance é um tipo de terapia gratuita.
[...]
Pra que serve uma história de amor, se não for pra ser a melhor parte das nossas vidas?"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Presente I

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: "Você é meu amigo ou amigo da onça?"

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:

"Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela, e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentam te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: "moça linda..."; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu."


(Rubem Braga, Abril de 1964)



Resolvi presentear meus queridos leitores com textos de que gosto muito, de diferentes autores. Esse é o primeiro, intitulado "A mulher e seu passado", retirado do livro "200 crônicas escolhidas", um dos que tem lugar cativo em minha cabeceira. Espero que gostem... e se inspirem!