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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Fidelidade




Todos os dias, assim que ela acorda, a primeira coisa que faz após espreguiçar-se é colocar a aliança no dedo anelar da mão esquerda. Beija o marido, que ainda dorme ao seu lado e inicia seu dia. Acorda as crianças para irem à escola. Não importa o quanto cresçam, ela continua pensando nos dois como crianças. Prepara café. Toma banho e se arruma cuidadosamente diante do espelho – Sempre foi vaidosa. Prepara o lanche das crianças – um muffin de maçã para a filha, chips de batata doce para o filho, que agora resolveu ser fit. Serve a xícara de café e toma enquanto termina de se maquiar. Instrui o cardápio que deve ser preparado ao longo do dia pela funcionária da casa. Leva outra xícara de café para o marido, que começa a despertar, dando-lhe o beijo de bom-dia.

Leva as crianças para a escola. Avisa a professora da filha que o marido irá buscá-la. A jovem educadora sorri. Ela suspeita que a professora gosta da ideia de poder ver seu marido mais tarde, já que sempre busca encontrar assuntos diferentes e completamente irrelevantes quando seu lindo esposo pega as crianças na escola. Parte rumo a um dia cheio no trabalho. Melhor tomar outro café assim que chegar, antes da primeira reunião. Entre um compromisso e outro, liga para o salão de beleza – melhor já agendar o horário de cabeleireiro na sexta, antes do jantar com o marido em comemoração aos 16 anos de casados. Aproveita seu horário de almoço para ir à academia e dar continuidade ao seu “projeto verão”. Banho. Visita três clientes agendadas para a tarde. No caminho de volta, passa no supermercado – é preciso comprar mais frutas e verduras para a casa.

Estaciona na garagem de casa quase à hora do jantar. Serve o jantar enquanto instrui os filhos a guardarem as compras. O marido chega em seguida. Ele gosta de jantar antes de ir à academia. Ela admira sua energia para se exercitar diariamente, inclusive aos finais de semana. Talvez por isso a sensação que ela tem de o tempo só fazer bem a ele. Ela organiza os pratos na lavadora e supervisiona a tarefa da filha e a pesquisa em que o filho está focado. Pergunta-lhes sobre o dia, as aulas e os amigos. É incrível como a filha sempre tem muitas novidades para contar e o filho, ao contrário, praticamente não se manifesta. Como é frustrante saber sobre o filho através do olhar dos outros: profesores, mães de amigos, a irmã. Ele é tão lindo e tão calado quanto o pai.

Filhos alimentado, de banho tomado e prontos para a a hora de dormir. Ela sabe que o filho vai para o quarto, mas ainda faz muito em seu celular antes de realmente dormir. Melhor não interferir e preparar um sanduíche para o marido comer na volta da academia. Toma banho e aplica cuidadosamente o ácido recomendado pela dermatologista. Precisa marcar depilação. Espia as redes sociais e retoma a leitura do último livro recomendado pelo chefe. Quando o marido chega no quarto, de banho tomado, decidem assistir a um filme antigo que estava passando na TV. O perfume e o calor dele são muito excitantes. Ela sente-se privilegiada com a vida que tem, por ainda ser objeto de desejo daquele homem e ele, o dela. O sexo é previsível e bom. Conhecem as posições de prazer um do outro. Amam-se, enfim. Nunca, em tantos anos, ela teve outro homem em seus braços. Ela sabe que ele não lhe foi fiel todo esse tempo. Ela foi. Ela não teria coragem de trair o marido.

Acerta o despertador no celular para o dia seguinte. Apaga as luzes. Lentamente, como um ritual, retira do seu dedo anelar da mão esquerda a aliança de casamento. Permite-se a liberdade de dormir sem esse símbolo de fidelidade ao marido. Em seus sonhos, ela não precisa ser uma mulher casada.  

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Em mundos diferentes


Ela estava sempre muito bem acompanhada: Gucci, Louis Vuitton, Manolo Blahnik, Chanel. Ela não andava, desfilava nas ruas. Era como artista de novela e acordava já maquiada. Falava um pouco de francês, sabia um pouco de Milão, sonhava com muito de Nova York.

Ele estava sempre muito bem acompanhado: Dante, Borges, Machado, Shakespeare. Não andava pelas ruas, mas pelas páginas que lia. Sonhava com Beatriz, Capitu, Laura, Bovary. Estudou francês, italiano, inglês e espanhol.

Encontraram-se em uma livraria-café. Ele buscava por Sartre. Ela, por um presente para a mãe. Ele recomendou Drummond. Ela comprou dois e ficou para um café com ele. O dela, descafeinado. O dele, com leite. Ela pensou que um banho de loja faria bem a ele. Gostou do desafio. Ele pensou que umas boas dicas de leitura fariam bem a ela. E gostou do desafio.

Faziam trocas. Espiavam o universo um do outro. Ele mostrou sua coleção de LPs. Ela mostrou sua coleção de sapatos. Estavam aprendendo um com o outro. Até que, entre frases de Boccaccio e batons da Lancôme, os gostos se uniram. Ele deixou a timidez de lado e ela desfez o penteado.

O beijo apagou as diferenças. As mãos trêmulas dele percorrendo o corpo dela, despindo-a de todas as grifes. A língua dela alisando os dentes dele, deixando-o sem palavras. No amor, não há espaço para a moda. Tampouco para a literatura. No amor, só há espaço para as almas. E as almas dos dois se amaram.

Em meio aos abraços e sorrisos, era hora de partir. Ele ia para um sarau literário. Ela ia para o shopping. Ela fazia escova no cabelo enquanto ele se vestia. Ele saiu primeiro, deixou um recado de amor para ela. Ela viu o recado, ao lado do casaco que ele esquecera. Não conseguiu ler. Não tirava os olhos do casaco. De péssimo gosto.

Ela sabia que era o casaco preferido dele. Mas nada ajudava: a cor, o corte, o tecido. Tudo ruim. Que tipo de pessoa compraria um casaco assim? Nunca, em uma noite fria, ele poderia cobri-la com aquilo. Percebeu que nenhuma poesia tornaria o casaco melhor. Ou o dono do casaco.

Foi ao encontro dele. Precisava falar. Ela chegou em meio à leitura dele. Interpretava James Joyce. Ele a viu: loira, maquiada, com uma bolsa roxa pendurada no ombro e o casaco dele no outro braço. Lia um trecho de Ulisses e pensava que aquela mulher nunca se interessaria por Bloom, nem por Bentinho, tampouco por Pedro Missioneiro. E eles queriam olhos interessados. Queriam a leitura atenta e preliminares feitas de palavras.

Todos partiram e eles ficaram. Não precisaram explicar. Ele pegou o casaco. Ela olhou para o enorme livro que ele tinha em mãos. Ele soube que o conteúdo dela era outro. Ela seguiu seu caminho para o shopping. Ele foi assistir Lars von Trier. Não adiantava. Os opostos só se atraem de verdade no mundo Físico.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O que falta


"Era solteiro e nas horas vagas ficava na casa da mãe, por quem tinha grande apreço. Pelos colegas de trabalho será lembrado como um funcionário competente e prestativo. Sofreu uma parada respiratória e morreu no dia 17. Não teve filhos. Foi sepultado em Blumenau."


Era isso o que constava sobre J.F. na nota de obituário do jornal. Sua vida e sua morte resumida a cinco frases. Não o conheci, não posso dar opinião a seu respeito. Mas posso supor que existam muitas outras frases faltando nesse resumo. Frases de total importância. Frases que realmente teriam definido J.F.


Faltou falar sobre os momentos que ele dividiu com os amigos e sobre a falta que ele fará na vida desses amigos.


Faltou falar nas namoradas que teve. Ou namorados. Será que ele se apaixonou verdadeiramente? Será que amou de todo o coração? Será que um amor não correspondido foi o motivo pelo qual J.F parou de respirar?


Faltou dizer se sua infância foi feliz, se brincou na areia, se ficou com traumas, se esfolou os joelhos, se tinha medo do escuro.


Faltou comentar se ele teve espinhas, se viajou para todos os lugares que pretendia, se era alérgico a algum alimento, se gostava de computador, se era vaidoso.


Faltou falar nos sonhos que ainda pretendia realizar. Nesses filhos que talvez ele ainda pretendesse ter. Nos ideais que chegou a realizar. No futuro que agora ficará eternamente esperando por ele.


Faltou falar no essencial. No que o mantinha vivo. No que matou primeiro sua alma... para depois chegar ao corpo. Na última coisa que seus olhos viram.


Faltou falar naquilo que você e eu ainda temos tempo de fazer.


Faltou exatamente aquilo que não cabe em uma nota de obituário.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Parto

Inesperadamente, parto. Parte-se de mim tudo o que um dia fora, tudo pelo que esperei. Partes de mim se perdem pelo caminho e não me pertencem mais.

Parto. Não volto. Partes. Arrancas de mim o que criei, tiras-me o que alimentei. Parto. Porque não posso continuar pela metade. Quando menos esperava: partes.

Parto. Dói. Machuca. Rasga. Deixa marcas. Corta. Parto ferida.

Parto. Uma nova vida. Nunca a de antes. Caminho novo. Parto feliz.

Parto. Uma iniciação. Um caminho. Uma chegada. Uma ruptura. Parto agora.

Parto. Não esperava. Nem espere que volte. Parto. Partes. Partiu-se.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Todos os dias

Todos os dias a mesma coisa. Todos os dias, ainda meio sonolenta, às oito da manhã, pego o ônibus, pago o valor da passagem, passo pela roleta, junto-me a todos os outros que seguem o mesmo destino que eu: o centro financeiro da cidade. Os passageiros não conversam. Cada um olha para um ponto perdido do percurso. Cada um preocupa-se com os próprios afazeres do dia que inicia.

No ponto de ônibus seguinte, todos os dias, às oito horas e três minutos, o motorista encosta o ônibus, solta o cinto de segurança, desfaz-se da posição de motorista, desce do veículo, abandona todos os passageiros e retorna com uma linda jovem em seus braços. Depois, ele sai do ônibus novamente e volta com a cadeira de rodas da linda jovem. Todos os dias é assim. E a viagem prossegue.

Todos os dias ela enlaça o pescoço dele e entrega seu corpo, seu dia, sua vida aos braços daquele homem. Livra-se por alguns instantes da cadeira que a prende para confiar o que não mais controla ao homem que lhe guia.

Todos os dias ele faz o papel de herói que carrega a mocinha nos braços e a acomoda sã e salva na condução. Todos os dias, como um noivo, ele cumpre o ritual de carregar a mulher nos braços ao iniciar uma nova vida. O café da manhã que ele toma é o perfume dela.

Todos os dias ela se torna mais alta, mais segura, mais protegida por causa dele. Todos os dias, por alguns instantes, ele deixa de ser o motorista cuja presença as pessoas mal percebem. Todos os dias, por alguns instantes, ele é o mais forte, o mais honrado, o mais admirado por resgatar aquela mulher da rua, carregá-la nos braços e levá-la consigo.

Eles são silenciosos no percurso desse gesto tão particular. Provavelmente porque não há nada que precise ser dito. Olham-se. Olham o caminho que tomam juntos. Não há palavras. A entrega de ambos já é suficiente.