terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Poor girls... Poor girls???


Tenho algumas amigas que orgulhosamente têm um “espírito de homem” guardado em si. Não tão guardado assim. Na verdade, elas não escondem, fazem questão de expor em diversas ocasiões. Não me refiro ao lado masculino que as mulheres têm, diretamente correspondente ao lado feminino que todo homem tem. Também não quero dizer que são mulheres que têm atração por mulheres. Não. São mulheres que adotaram posturas conhecidamente masculinas. Só isso.

Exemplifiquemos para que todos saibam sobre o que, exatamente, estou falando...

Caso 1) Ela vai às melhores baladas, seleciona criteriosamente quem está disposta a beijar – ou mais – e beija – ou mais, de novo. Trocam telefone, ela diz que vai ligar, já sabendo que nunca mais quererá encontrá-lo na vida, especialmente na noite, e não liga. Nem no dia seguinte, nem depois, nem depois. Mas, como ele não esqueceu como se faz uma ligação, telefona para ela. “Não... Não lembro de você. Desculpa, você deve ter ligado para o número errado.” Ela desliga o telefone irritadíssima por, além de ele ter ligado, tê-lo feito em seu horário sagrado de trabalho.


Caso 2) Eles estão ficando há tempos, tudo às mil maravilhas! Ele é ótimo na cama e é exatamente o que ela precisa... Uma boa cama para relaxar no final do dia. Sem o compromisso de ligar, sem toda a família e os amigos em volta para dar palpites. Ela até pensa que ele seria um bom namorado. É bom estar com ele. Mas não sabe o que ele gosta de ler, quais são suas paixões, seus medos... Nada disso. Sabe – e adora saber – todas as mais bem elaboradas técnicas de como enlouquecer uma mulher na cama. Um dia, ele resolve visitá-la. Assim, sem avisar, chegou com todo aquele corpo maravilhoso em sua casa. Conheceu mãe, tio, filho, cachorro. Levou presentinho pra todos e queria ficar para passar a noite abraçadinho a ela. A partir daí, tudo o que ele fazia perdeu a graça. Ela não queria companhia. Queria sexo. Será que era tão difícil assim para ele entender?

Caso 3) Ela ama o namorado. Muito. Ele sabe agradar, é carinhoso, sabe cozinhar, manda flores, sua família o adora. Se um dia ela resolver casar, com certeza será com ele! Mas, por enquanto, ela não quer pensar em nada tão definitivo assim. Quer curtir, quer sair, quer badalar. Desacompanhada. Eles saem para jantar e ele a deixa em casa. Ela entra, retoca a maquiagem e sai de novo com as amigas. Ela diz que precisa estudar no final de semana para que ele entenda sua ausência, mas faz uma via sacra em todos os bares da cidade vizinha. Diz que ficou sem bateria e não achava o carregador. Ou diz que não ouviu o celular tocando. Ou simplesmente não diz nada. Não quer perdê-lo. Mas não vai abrir mão das aventuras da vida por causa dele.

Esses são exemplos do chamado “espírito de homem”. Porque parece que houve um tempo em que apenas os homens tinham esse tipo de atitude. Atitudes que causavam sofrimento indescritível nas pobres mulheres... Indefesas mulheres... Ou talvez esse tal espírito é que sempre tenha sofrido uma terrível crise de identidade sexual. Só isso.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

E S P E R A


Espera. Esse é seu nome. Ou poderia ser. Ela passa horas e horas olhando para o nome dele na lista de contatos do MSN. Letra por letra. Presta atenção no bonequinho ao lado do nome e em suas transformações significativas. Se está verde, se está cinza, se surge um reloginho abaixo, se o desenho de um celular o substitui. Olha para tudo isso e espera. Espera que ele a chame, que diga alguma coisa, que tecle especialmente para ela.

Ela espera. Relê todas as mensagens que ele um dia mandara ao seu celular. Revê data e hora de suas últimas ligações. Confere se seu celular está ligado para o caso de ele tentar telefonar. Não anda em hipótese alguma sem o carregador de bateria do aparelho na bolsa. Revisa sua agenda telefônica para ver se, de repente, ele não desapareceu dali. A cada ligação recebida, seu coração se agita na esperança de que seja ele. E ela espera.

Ela refaz os caminhos percorridos pelos dois. Todas as ruas e praças que os viram de mãos dadas. Os cafés, restaurantes e cinemas. Todos poderiam ser o lugar do reencontro. Percorre os corredores do supermercado que ele frequenta para fingir coincidência. Presta atenção em todos os carros iguais ao dele. Expõe-se de dia e de noite. E espera.

Revira três vezes ao dia sua caixa de correspondências e seu e-mail. Imprime os e-mails que trocaram no passado. Revolta-se contra o carteiro. Espera por um sinal, um bilhete embaixo da porta, a campainha surpreendendo sua noite vazia. Espera que os amigos intervenham. Que as famílias se manifestem. Que o cachorro faça greve de fome até que ele volte. E ela espera.

Todos os dias ela espera. Em todas as festas ela espera. Na chegada de cada viagem ela espera. Na volta de cada esquina ela espera. A cada despertar ela espera. Em sonhos ela também espera. Abre um vinho e espera. Incansavelmente espera. Espera... Espera... Espera... E s p e r a . . . S p e r a . . . P e r a . . . E r a . . .
J á e r a!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O segredo


Quando houve a febre do livro “O segredo”, de Rhonda Byrne, houve também uma onda de pensamentos positivos que até era bonita de se ver, entusiasmante, eu diria. Todo mundo estabelecendo metas, escrevendo-as, escolhendo os melhores objetivos para suas vidas. E mais: o negócio era visualizar todas essas coisas maravilhosas como se de fato já fizessem parte da realidade.

Isso incluía idealizar o par perfeito (mas, pensando bem, quem não faz isso desde sempre?). Baseando-se em experiências anteriores, ficaria mais fácil definir o que se quer e o que não se quer no parceiro ou parceira. As listas variam muito... A pessoa deveria ser linda, inteligente, divertida, rica, bem resolvida (!!), saber dançar e cantar, ser compreensiva, fiel, amorosa, saber preparar seu prato favorito sob a trilha sonora perfeita e ainda ser um arraso na cama.

Listas, imagens, idealizações. A casa, o carro, o salário dos sonhos. E o que se vê depois dessa “febre” é que ela trouxe mais frustrações que realizações. Aí já não sei dizer se nós é que não soubemos aplicar O Segredo adequadamente ou se O Segredo é que não funciona muito bem.

Mas penso – e não é a primeira vez que isso me ocorre – que talvez minha mãe esteja certa (eu sei... as mães normalmente estão sempre certas!). Talvez o melhor seja não criar expectativas. Não esperar. Não desejar ardentemente. Parar de idealizar. Deixar de lado a visualização de estar no carrão do ano e sair caminhando por aí, conseguindo ver o lado bom disso. Esquecer sua lista de definição do príncipe ou da princesa dos sonhos e entender que pessoas não cabem em listas.

Imaginando, com riqueza de detalhes, como o par ideal deve ser, torna-se quase impossível encontrar um ser humano à altura. Esperar pela perfeição é escolher viver frustrado, desiludido, desacreditado. Ninguém será bom o suficiente. Talvez ele não saiba dançar tango como você gostaria, mas saiba fazer o melhor cafuné de que se tem notícia. Talvez ela não seja de fato uma mestre-cuca, mas saiba definitivamente como fazer uma massagem no final do seu dia.

Talvez a receita de sorrisos seja quando não se espera por eles. Quando você pensa que tudo já está suficientemente bem assim e algo de muito melhor surge. Talvez o segredo não esteja em desejar, mas em saber receber.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

DAVIDAVIDAVIDAVIDA...


Em cada olhar um brilho

Em cada sorriso o eterno

Em cada toque o amor

Em cada encontro o novo

Em cada lágrima um mundo

Em cada passo o futuro

Em cada sono a paz

Em cada momento a magia

Em Davi, a vida.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Não há trocas

Um dos homens que mais amo na vida disse que eu o estava trocando. Ele não mora na mesma cidade que eu. Está a 500 km de distância. Nesse caso, eu o estaria trocando por outra vida um pouco mais distante... Mais especificamente 3.000 km mais longe.

É para ele que escrevo hoje. Porque ele não é o tipo de homem que possa algum dia ser trocado. Ele é o tipo de homem que eu sempre levarei comigo. Sempre a foto dele em minha carteira. Sempre o presente que ele me deu guardado entre meus tesouros. Sempre o telefone dele como o número 1 a ser discado pelo meu celular.

Ele saiu da casa onde eu também morava há quase vinte anos. Ele já se mudou quase tantas vezes quanto eu. Ele já se acidentou. Já preparou as melhores refeições que sou capaz de lembrar. Já teve filhos. Já perdeu uma filha. Passou a vida toda apaixonado pela mesma mulher. Já entrou em brigas. Já ficou muito tempo sem querer falar comigo. Já teve mais cabelo. Foi meu par de debut. Já pensou em nunca mais se colocar na situação de aluno. Correu atrás do prejuízo quando nem se esperava mais por isso. Formou-se. Tomou conta de uma porção de gente. E ainda pensa que poderia ser trocado...

Não, Mano, você nunca é preterido em minhas escolhas. Você participa delas. Você é o meu melhor amigo, meu melhor conselheiro, minha referência (e você sabe do que estou falando). Existem expressões que tomo a liberdade de mudar, para dizer algo como “Meu irmão-herói”.

Li algo que dizia que viver junto não é viver no mesmo lugar, mas viver no mesmo tempo. E nós estamos no mesmo tempo. Tempo de sermos irmãos, no melhor sentido da palavra, independente da diferença de idade ou da diferença de cidades. Não podemos deixar que a distância determine o tamanho da saudade ou o tamanho da ausência. Às vezes temos a impressão de que, quando a pessoa não está muito longe, a saudade dói menos. Sabemos da facilidade em alcançá-la e isso nos conforta. Mas a saudade não tem conforto. Mesmo estando juntos, a saudade continua ali, o que talvez torne os momentos de encontro ainda mais felizes.

A distância aumenta e talvez minha conta de telefone aumente proporcionalmente. Mas mudar de cidade não quer dizer mudar o coração de lugar. E um coração é capaz de dividir-se entre todas as pessoas que ama. Por isso garanto que você continuará ouvindo as batidas do meu, mesmo a 3.000 km de distância.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Já dizia Machado


Para algumas pessoas, não basta amar. Algumas pessoas precisam de garantias, precisam da posse. Precisam de promessas de amor impossíveis de serem cumpridas. Para consegui-las, também prometem sabendo que não conseguirão realizar. Precisam de um atestado de pertencimento que deve ser constantemente renovado.

Foi mais ou menos assim que surgiu essa história de casamento, que, em sua origem, não tinha nada de romântica. Foi uma maneira encontrada pelos homens de garantir que suas propriedades permaneceriam com herdeiros legítimos. Com o papel assinado, sentiam-se no total direito de cobrar fidelidade extrema da mulher, sem correr o risco de ver suas terras em mãos do filho de outro homem. Enquanto isso, eles não se privavam do prazer de estar com outras mulheres... Assim a gente entende melhor por que a traição feminina ainda é tão condenada. Mas aí já entramos em outro assunto...

Enfim... Essa necessidade de sentir-se dono de algo/alguém é muito antiga. Tanto quanto a probabilidade de falha dessa atitude. A pessoa pensa que tem domínio sobre a outra. Vigia. Espiona. Monitora. Quanto mais aguçadas suas técnicas de controle sobre o outro, melhor esse outro saberá livrar-se delas.

Isso remete a Dom Casmurro, do Machado, e uma de suas célebres frases no final da narrativa, referindo-se a sua total insegurança com relação à Capitu: “Não tenha ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprendeu de ti”. É isso: ciúme está diretamente relacionado à insegurança, que leva à necessidade de confirmação de posse, que é totalmente infundada.

Algumas pessoas são sentimentalmente maduras o suficiente para estarem imunes a essa necessidade primitiva e distorcida. Outras não. São viciadas nos pronomes possessivos. Esquecem-se de que pronomes também podem ser indefinidos. Ou relativos. E pior... que um pronome fora de contexto perde completamente o significado.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Você tem medo de quê?


Admita.
Você tem medo.
Medo de dar a cara à tapa.
Medo do próximo passo.
Medo do que os outros vão pensar.
Medo de dar tudo errado.
Medo de perder o controle.
Medo de nunca ter tido o controle.
Medo do porvir.
Medo de sentir culpa.
Medo de sentir.
É o medo que te corrompe.
Não há mal algum em sentir medo,
desde que isso não defina os seus dias.
O que há de melhor no mundo mora atrás do medo.
É preciso transpor seus medos para ter a recompensa do alívio,
para ganhar o presente do futuro.
O futuro não se constrói com medo.
Aliás, dizem que o futuro a Deus pertence...
E você só consegue tomar posse dele
quando se desapega do medo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Cada um sabe de suas urgências. São as prioridades que nos definem. Trabalho. Amor. Aparência. Dinheiro. Família. Estudo. Cada um sabe de suas urgências. Certas coisas não podem esperar. Prazos de validade expiram. Pessoas morrem. Ou mudam de idéia. Urgências não podem ser deixadas para amanhã, nem para daqui alguns minutos. As urgências são exigentes e cada um sabe de suas urgências. Quando algo não se faz urgente para nós é porque não significa tanto. Urgência substituída é caso de rebaixamento. Como no futebol. Só que as chances de voltar para nossa “série A” quase inexistem. Quando voltam, já terminou o campeonato. Cada um sabe de suas urgências. E eu já não quero saber das suas. Tenho coisas mais urgentes para tratar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Em respeito ao povo catarinense




Pense em tudo o que você possui. Pense no tempo que levou para adquirir sua casa ou apartamento. Pense em quanto você separou do seu salário, mês a mês, para conseguir pagar a cozinha sob medida dos seus sonhos. Pense no quanto você desejou o jogo de sofá no qual senta confortavelmente todas as noites. Pense no último eletrodoméstico que você comprou, aquele cheio de funções. Visualize seu guarda-roupa cheio de opções, mesmo que você já tenha cansado da maioria delas. Lembre daquela caixa com medicamentos, para o caso de ter dor de cabeça ou azia. Repasse em sua memória tudo o que tem na sua geladeira. Pense nas fotos que retratam toda a sua vida. Nos presentes que você ganhou no último aniversário. Nos livros e CDs que você coleciona. No cobertor aos pés da cama para as noites mais frias. No computador diante do qual você passa tanto tempo. Nos seus pares de sapato, seus perfumes, seus quadros. Pense em tudo que te cerca quando você está em casa. Pense...

E agora tente imaginar como seria perder tudo isso. Perder para a água, para a terra, para a natureza. Ver a lama invadindo sua casa, tomando conta de cada peça, levando embora tudo o que você construiu. Não há tempo para despedidas. Não há resgate. Apenas tudo sendo arrancado de você. Suas roupas e suas histórias lavadas em lama e tristeza. Não há como pensar em um futuro bom, apenas no que se foi e não mais voltará. São olhos afundados na água tanto quanto as pernas. Frio que gela o corpo e o coração. Não há compensação. Só desolamento. A falta de tudo o que é seu. A procura pela referência do que você foi, do que você era. O caminho por um chão seco, por proteção. A esperança de secar as ruas e as lágrimas. A expectativa de um sol que não se sabe mais que cor tem.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Mania de explicação


Fico me perguntando por que as pessoas gostam tanto de saber os porquês. As crianças, se soubessem o mal que lhes faria entender os motivos das coisas ou do que elas são feitas, escolheriam não passar pela fase dos porquês. Mas a gente insiste em querer respostas. E depois de obtê-las, costumamos bolar mais e mais perguntas. Carência de entendimento. Carência incurável, aliás. Às vezes é melhor não entender. Entender significa perder a magia do efeito. O encantamento desaparece quando sabemos como são feitas as coisas. É como desvendar o segredo da mágica e abrir mão do brilho nos olhos cheios de novidades. Melhor mesmo é não entender. Melhor um ponto de interrogação que um ponto final. Não quero o encerramento do ponto final. Quero a espera do que pode vir depois das reticências...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

As coisas quebram


A gente passa a vida toda juntando, adquirindo, querendo coisas. Coisas que facilitam a vida. Coisas das quais a gente precisa todos os dias. Coisas que a gente empacota cuidadosamente quando faz uma mudança. Coisas que a gente considera indispensáveis. Coisas que a gente passa meses desejando até conseguir comprar. Coisas que a gente ganha. Coisas que a gente nem sabe de onde surgiram, mas estão ali, entre as suas coisas. Apenas coisas.

A gente guarda porque acha que, uma hora ou outra, vai precisar. A gente chega até a sentir ciúmes das nossas coisas. Por vezes deixamos de usá-las para preservá-las, para que durem mais. A gente se ressente quando empresta uma dessas coisas e nunca mais a recebe de volta. São coisas que adquirem história. Coisas que podem já estar ultrapassadas, mas às quais a gente se apega. Ainda assim, são apenas coisas.

Eu sempre gostei muito de coisas para a casa. Para a cozinha, mais especificamente. Ganhei e comprei muita coisa para equipar esse ambiente tão acolhedor do lar. Pratos, copos, taças, xícaras, fôrmas, potes. Tudo o que se pode imaginar. Pratos de sopa de um lado, pratos rasos de outro. Canecas à frente, xícaras pequenas de cafezinho mais atrás. Travessas redondas à esquerda, travessas retangulares à direita. Maiores embaixo, menores em cima. Organização conforme o uso e o gosto.

Jogo de pratos dado por um grupo de amigas, xícaras que foram presente da tia, travessa de herança materna. Sopeira do chá de panela, jogo de taças pago em prestações, a caneca favorita do chá. Tudo em seu devido lugar, cumprindo sua função sempre que necessário. Coisas que participaram de jantares românticos, brindes de aniversário, canja no dia em que a saúde deixou a desejar. Apenas coisas.

Então, de repente, como se cansadas do uso, as coisas cederam. O armário aéreo em que elas estavam cuidadosamente armazenadas cansou de sustentá-las e colocou tudo ao chão. Ele não poupou nem uma única pequena xícara de café. Desistiu de tudo. Todas as coisas de que tanto gostava, agora, não passavam de cacos no chão da minha cozinha. Cacos de todas as cores e de todos os tamanhos. Cacos que me feriram. Pedaços de coisas que perderam o significado no momento em que se partiram.

Tudo no chão, espalhado por todos os cantos e sob todos os móveis. Não consegui recolher os cacos naquele dia. Evitei o retorno à cozinha. Não queria lembrar de tudo o que tinha guardado naquele armário que preferiu o chão à parede em que estava suspenso. Só no dia seguinte comecei a juntar os pedaços. Alças de xícaras que se libertaram. A flor desenhada no prato desprendia suas pétalas. O fundo do copo sedento da água que acolhera. A melhor porcelana na mesma situação do pirex. Nada restou. Apenas o passado das coisas tão despedaçado quanto elas. Apenas coisas.


Disseram-me para comprar coisas novas. Afinal, coisas são substituíveis. Depois de ver tudo transformado em lixo reciclável, percebi que eu não precisava tanto assim das coisas. Deparei-me com todas as outras coisas ao meu redor e entendi, com toda a clareza, que eram apenas coisas. E que, no final das contas, todas elas não passam de cacos que ainda não se partiram. Cacos dispensáveis. Tudo se quebra. O importante e o fútil. Apenas coisas. E as coisas quebram.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O amante latino


Era, definitivamente, um homem sedutor. Apaixonara-se algumas vezes, desiludira-se outras poucas. Preferia aproveitar os momentos ao lado das mulheres. De várias mulheres. Gostava de todas elas. Conversava e ouvia a todas. Não prometia nada a nenhuma. Elas selecionavam palavras perdidas de contexto e as uniam, de modo que coubessem exatamente em seus sonhos com ele.

Ele desenvolvera o dom de seduzir. Convivera muito tempo com mulheres e sabia o que elas precisavam ouvir. E ele dizia, com seu sotaque espanhol, com a voz de quem sabe o que quer e quando quer. Despia as mulheres com seus olhos verdes e famintos. Tocava no lugar certo: de leve na nuca, com gentileza nas mãos, com volúpia na cintura.

Era fácil de as mulheres se apaixonarem por ele. Depois de passarem um tempo juntos, muito juntos, ele prosseguia com suas conquistas e julgava ter ganhado mais uma amiga. Mas, para ela, não havia amizade, havia desejo. Desejo de mais. Desejo de ser ainda o foco do olhar dele. Só que isso não acontecia. Se ele permanecesse com uma mulher por um período mais longo, certamente mantinha outras novas conquistas paralelamente. Sua fidelidade durava apenas o tempo de sua presença.

Era incorrigível e gostava de sê-lo. Não tinha a mínima intenção de mudar. Algumas mulheres, antes de serem apresentadas a ele, eram avisadas: não se apaixone, ele nunca será seu. Ele admirava todas elas: loiras, ruivas, morenas, altas, crespas, baixas... Todas tinham algo que lhe agradava.

Da última vez que foi visto, estava com uma morena de longos cabelos crespos e sem curvas salientes. Sem muita graça, em um primeiro olhar. Contavam-se os dias até que ele fosse visto com outra. Ao ser alertada, a morena disse que sabia o que estava fazendo. Ela insistiu nele, e ele, sem entender direito, deixou a situação se estender. Quando a deixava em casa, seguia o rumo para mais festas e não poupava seu talento. Quando ele marcava com outras, alegava uma terrível enxaqueca para ela.

Sem que ele desse muita importância, se viu trocando presentes de Dia dos Namorados com ela. Conhecera sua família e ela, a dele. Começaram a passar mais tempo juntos. Ele alertava aos amigos: vou dar mais um tempo e terminar com essa história. Não terminava. Começou a gostar. E, de vez em quando, ainda criava uns casos paralelos para não perder o hábito.

Numa das tantas noites calientes de amor, ela vestiu-se e avisou que estava de partida. Sairia da vida dele. Concluíra que estava perdendo seu tempo ao lado dele. Ele sentiu um certo alívio. Mas o alívio veio seguido de susto, de insegurança, de medo. Viu sua menina saindo, virando as costas para ele. Percebeu que nunca havia feito nada para merecê-la. Lembrou de todos os casos, de todas as mentiras mal contadas, de todas as vezes que a deixou esperando.

Percebeu-se carente dela. De uma hora para a outra, se deu conta de que não era mais um garoto e que acabara de perder a única mulher que o fazia sentir-se homem. Foi até ela. Contou-lhe tudo o que ela já sabia e mais. Explicou que nunca vira as coisas de forma tão clara: era ela. Mais ninguém. Nunca mais. Desculpou-se. Implorou. Ela cedeu. Estão completando 10 anos de vida em comum e ela está esperando o segundo filho. “Não se pode perder a fé nos homens”. É o que ela costuma dizer.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Quando os olhos se entendem


Jantaram entre silêncios e olhares que não conheciam. Palavras de gente grande que escondem as crianças carentes de afago. Um toque tímido de mãos que alcança o coração. Frases ensaiadas que perderam o sentido na hora de serem ditas. O convencional em que se acreditava perdido no que a emoção designa.

É fácil punir de longe. Por telefone, as palavras cruéis fluem como se o alvo delas fosse realmente o aparelho. No espaço da ligação não cabem desculpas, apenas mágoas. O sofrimento é solitário, não tem cúmplices. Muito do que se quer dizer fica calado no peito. As lágrimas são sentidas apenas pelo travesseiro, que não consola. Perdem-se as forças e os sonhos. Perde-se o contato.

Mas agora estavam ali, frente a frente novamente. Tentavam lembrar o que os havia afastado, já que o último encontro terminara em um beijo. A palpitação e a lembrança do dia em que se conheceram. Mexem no suco, no guardanapo ou no enfeite da mesa para disfarçar a ansiedade. Mastigam e não sentem o gosto. A vontade de comer se encerrara no telefonema. Ela esconde o olhar em todas as outras cores do ambiente enquanto ele beija o perfil dela com os olhos. Ele levanta e o olhar dela o abraça silencioso. Ele repara no novo corte de cabelo dela. Ela cortou o cabelo para ele... “Será que ele notou?”

Demoram. Não conseguem falar tudo o que precisavam. Esquecem o que foi dito. Saem lado a lado e voltam para o caos imperceptível da rua. Ela não vê as pessoas correndo apressadas porque sentiu a mão dele em seu ombro. Ele esquece de seus horários porque finalmente a alcançou. Olham-se sem entender o que passara. Olham-se sem nada dizer. Quem se ama se entende pelo olhar. Ele beija os olhos dela. Agradece por eles lhe comunicarem que ela o ama. Seguem de mãos dadas para o resto de suas vidas. E sabem que lá não há lugar para telefones.

sábado, 8 de novembro de 2008

Os primeiros raios de sol...


Sempre sofri com um grave problema. É de nascença, eu sei. Para alguns, nem é problema. Por mais que eu tente, não será diferente. Sofro de uma brancura que me cobre, de ter quase a cor do leite, uma palidez lunar, como já me disseram. Não sou a única e sei que há casos piores que o meu. Mas é isso, uma herança genética da qual nunca conseguirei fugir.

É o tipo de brancura que se torna ainda mais branca quando resolve pegar os primeiros raios solares do verão. E quando isso acontece em uma cidade como Salvador, na Bahia, a minha palidez quase chega a cegar, perto de todas aquelas pessoas uniformemente bronzeadas, douradas, com cor de verão o ano todo.

E eu sempre me iludo achando que poderei ficar tão bronzeada quanto elas. Escolho uma cor na praia e a meta está traçada: quero ficar assim até o final do verão. Como é de se imaginar, isso nunca acontece. O que acontece são desastres típicos da estação para alguém tão clarinha quanto eu.

Preparo o kit-praia: protetor de todos os fatores, partindo do 15 (que minha dermatologista não leia isso!!), óculos, protetor labial, boné, canga, saída de banho, chinelo, biquíni e mais várias outras coisas que acabo não usando. Resolvo seguir o exemplo daquelas mulheres douradas estendidas ao sol e faço exatamente a mesma coisa: horas e horas em parceria com o astro dourado, num pacto secreto em que ele só me queimará sem machucar, devagar, mas com efeito; que, pelo menos em uma estação do ano, terei o privilégio de usar uma roupa branca sem parecer um fantasma.

Só que parece que o sol não concordou com as regras do pacto e resolveu ser cruel. Na hora, tudo parece estar sob controle. É a maior alegria afastar a alça do biquíni e ver que há uma discreta diferença entre a parte coberta e a exposta. Começo a me sentir íntima do sol e de suas manhas e deixo o resto das horas do dia surtir efeito.

Até chegar em casa e encontrar a primeira pessoa que não esteve na praia comigo: a cara de espanto, a exclamação “Meu Deus...” em tom de lamentação. Todo o orgulho adquirido por ter começado a mudar de tom começa a virar desconfiança de que algo saiu errado. E, como se fosse novidade, deparo-me diante do espelho. O estrago está feito. O que era para ser dourado virou a pior tonalidade de vermelho. Aquele vermelho que dói, que arde.

Banho frio e muito hidratante... Em que momento o sol me pegou desprevenida e fez isso comigo? “Deve ter sido durante as 5 horas que você ficou esparramada no sol”, alerta a sincera e irônica companhia de praia. Eu me boicotei. Fingi passar protetor, o que significa passar em algumas partes do corpo e deixar as outras a Deus dará... O resultado fica infinitamente pior. É um mapa-múndi mal desenhado em meu corpo como se o sol tivesse usado lápis-de-cor vermelho.

Mas não é apenas essas manchas amorfas espalhadas pelo corpo. É a dor que elas trazem. É tomar banho com medo de onde a água vai bater. É ter que escolher as roupas mais leves, quando a vontade é que a pele fique nua, sem contato com nada. É achar a posição para dormir sobre as escassas áreas do corpo que conseguiram a proteção do protetor solar. É limitar o abraço porque a ardência não diferencia o que é carinho. E o pior: é abdicar dos dias seguintes de praia e de sol por ter tentado desafiar a natureza logo no primeiro dia. E ficar com a voz do Pedro Bial repetindo a frase final de sua famosa mensagem: “Mas no protetor solar acredite”...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Com o coração na mão


Você se recupera. Se você se queima, se você se corta, se você se machuca... você se recupera. O corpo está preparado para tapar feridas, para curá-las. Na maior parte das vezes, não fica nem cicatriz. Você logo se recupera de acidentes, queimaduras, quedas.


Você só não tem como prever quanto tempo levará para se recompor quando o corte é mais fundo. Quando é feito diretamente no seu coração. Você não sangra, não aparecem hematomas, não há marcas. Mas todo o sangue que circula em suas veias é o seu coração sangrando, chorando em vermelho.


Primeiro ele acelera. Recebe o golpe e quase não acredita que o acertaram. Acelera, ruboriza, treme. Só então você percebe que ele foi atingido. Depois vem a dor, a dor que é física, a falta de ar, o enjôo no estômago. Não há anticorpos para isso e nada mais funciona direito quando o coração é ferido. E aquela dor vai tomando conta... enche seus olhos, esvazia o olhar, emudece a boca, paralisa os gestos.


Não tem remédio. Não passa. Fica alojada e se faz lembrar a cada batida do triste coração. E tudo falta. Falta a fome, o sono, o sorriso. Falta o ar, o ânimo, a paz. Sem previsões. Sem lampejos de esperança. Talvez algumas promessas em que seu coração já não consegue acreditar.


Apenas a dor, o vazio e o tempo.


Não há medicina que cure.


A única chance de melhorar está naquilo pelo qual o seu coração ainda bate.