quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Presente II

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."

(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Quem é você?

Fico prestando atenção naquele momento, no hospital, quando uma criança está para nascer... Todos estão lá, ansiosos, se aglomerando para ver o novo rostinho, ouvir o chorinho, acompanhar cada detalhe.

Acho que não é apenas para ver com quem o bebê se parece.

É todo um novo ser a descobrir, a conhecer. É o momento em que ele está se apresentando para o mundo e a gente quer logo saber quem é essa pessoinha... Cada feição, cada jeitinho de olhar, o modo e o quanto chora ou dorme. Tudo, aos pouquinhos, vai desvendando quem é esse ser que toma todas as atenções.

Queremos logo descobrir do que ele gosta e do que não gosta, de que cor são os olhos, se tem algum sinal na pele, se tem muito ou pouco cabelo, o que o faz chorar e o que o acalma. Queremos saber com que amigos andará, se vai gostar mais de matemática ou de português, se preferirá ficar em casa ou na rua, com quantos anos irá se apaixonar e qual será seu primeiro trabalho.

Talvez seja por isso que as pessoas ainda estejam gerando novas vidas. Porque um bebê é um conjunto de mistérios rodeado de amor. E desvendá-lo é simplesmente mágico.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Casa comigo?



"Porque eu te amo, porque você é tudo o que sonhei, porque me vejo em ti, porque tu tens os defeitos mais respeitáveis e as qualidades mais admiráveis, porque você me faz muito feliz e porque você é a única que eu quero que seja testemunha de tudo o que sou e serei...

Casa comigo?"


(H.C.)

Happy!



Por mais auto-ajuda que possa parecer,

o negócio é não ser do tipo que sabe agora do tempo que foi feliz no passado...

Bom mesmo é perceber o quanto se é feliz agora

E saber direitinho dos motivos!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

DIÁLOGOS VI


(Atendente) - Idade?

(Eu) - 30.

((Atendente) - Tem filhos?

(Eu) - Não.

(Atendente) - É casada?

(Eu) - Não. União estável. Não é casamento.

(Atendente) - É... Também acho que casamento não é estável.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Arco-íris

Você pode até me julgar boba, boazinha demais.

Mas agora entendo:

Enquanto alguns se esforçam para trazer dias de tempestade a quem os feriu, todos os dias,

Eu me esforço para construir o arco-íris que vem depois da ferida.

Todos os dias.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Síndrome de Machado


É quando te encontro que percebo o que há de machadiano em mim:

a fixação pelo olhar.

Pelo teu olhar.

Não são olhos de ressaca.

Nem combinariam contigo.

Agora vejo que ainda busco em ti um certo olhar...

de aprovação.

Orgulho.

Olhos de ressaca, não.

Olhos de mar aberto.

domingo, 4 de julho de 2010

Lixo


Lixo todo mundo tem em casa. Em várias partes da casa: banheiro, quarto, cozinha. E nele é depositado tudo o que não presta, tudo o que não tem mais utilidade para nós. Lixo todo mundo tem.

Pensemos no que colocamos no lixo... Restos de comida, latas vazias, papéis amassados, pontas de lápis, papel higiênico usado, fios de cabelo que ficaram na escova, frutas estragadas que tiveram seu sabor desperdiçado.

Quão significativo é rasgar uma fotografia e colocá-la no lixo? Uma carta, um número de telefone?

Quanto de nós já foi para o lixo? Nossas recordações, nossos velhos conhecidos, nossos efêmeros amigos e amores. O CD que não toca mais. A flor murcha que perdeu seu perfume. O endereço que nunca chegou a ser visitado. As notas de compras que perderam seu valor.

Até mesmo no computador há lixeira. E dentro dela já se perderam os e-mails que um dia nos encantaram, os trabalhos digitados que tanto esforço nos exigiram, o livro que desistimos de terminar de escrever. Ou de começar.

Muito de nós já foi para o lixo. O lixo de casa, o lixo do trabalho, o lixo da rua, a lata de lixo. Foi para o lixo o que já fez parte de nós um dia e que dificilmente será resgatado no lixão. Quem reaproveitaria o nosso lixo?

O que colocamos no lixo ou guardamos com toda cautela é uma escolha nossa. Por vezes, o que eu decido guardar, você colocaria no lixo. Aquela entrada de cinema, o papelzinho da bala, o pacote daquele presente, um recorte de jornal, um vidro de perfume vazio. Pode ser que um dia eu resolva colocar tudo isso na lixeira e deixar que o caminhão do lixo leve tudo embora.

Pode ser...

Não hoje. Não ainda.

Há certas coisas que nunca vão para o lixo.

sábado, 19 de junho de 2010

Na Ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

(José Saramago, 16/11/1922 - 18/06/2010)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Luto

Hoje perdemos um grande homem, uma grande mente, um grande escritor.

E eu estou particularmente desolada porque José Saramago morreu.

Segue, aqui, uma pequena narrativa dele:

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Mau tempo?


Cheguei na sala de cinema uns 10 ou 15 minutos antes de iniciar a sessão.
Foi aí que percebi: as pessoas não têm mais tempo para o que não é bom.
Explico: olhei para o lado, e ninguém mais tinha tempo de ficar olhando para a tela em branco, pensando na vida, ou conversando com a pessoa que estava ao lado enquanto o filme não começava.
Estavam ligadas aos celulares, mandando e-mails, torpedos, tudo que preenchesse aquele tempo “perdido”.

As pessoas se enchem de remédios porque não têm tempo de ficar em casa, “de molho”, se recuperando de uma gripe, por exemplo.

Ou às vezes é o caso de o luto estar ali, doendo no coração, mas logo vem um psiquiatra dando remédios para que não se vivencie aquele momento, para passar melhor por ele, para não sentir.

Tempo para chorar. Tempo para lamentar. Tempo para sofrer.

Tempo para ficar cansado e para descansar.

Tempo para curar. Tempo para esperar. Esperar a chuva passar, esperar o filme começar, esperar a noite chegar. É só uma questão de tempo.

A vida moderna tem nos exigido que pulemos esse tempo todo. Que o preenchamos com outras coisas úteis (?).

Eu mesma já reparei que, quanto menor o texto postado aqui, mais leitores. Quanto maior, menos pessoas têm tempo suficiente para ler.

Tire um tempinho para pensar sobre isso... E sobre o quanto esse tempo todo ainda nos é necessário.

Ah! E pense por nós dois, porque eu tô sem tempo. Tenho que ir!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Já que amanhã é Dia dos Namorados...

Eu não preciso que tu sejas poeta.

Não preciso que tu gostes de escrever e escreva como um Machado. Ou Drummond.

Não preciso que tu ouças as mesmas músicas francesas que eu.

Tu não precisas ser fã do Chico, do Marcelo Camelo, nem saber quem é Proust.

Não quero que tu sejas diferente do que tu és.

Eu te admiro e te amo pelo homem que tu és.

Porque tu és sempre agradável com todo mundo.

Porque tu tens a praticidade que eu não tenho.

Porque tu sabes pensar com calma e com rapidez nas situações mais complicadas.

Porque tu entendes de política, de economia, de questões sociais que eu gostaria de entender.

Porque tu te importas com quem te quer bem.

Porque tu és uma excelente companhia.

Porque tu gostas de animais.

Porque tu és inteligente, educado, solícito, amigo. E bons amigos são raros.

Eu te admiro pela tua franqueza, pela tua força e especialmente por tu ter a coragem de admitir tuas fraquezas.

Eu te admiro e te amo pelo que tu és comigo.

Pela forma carinhosa como tu me tratas.

Por tu te interessares por mim e por isso que tu chamas de "meu mundo", que também é teu.

Te amo porque meu coração ainda dispara quando te vejo.

Eu te amo porque me sinto bem ao teu lado, porque me sinto em casa nos teus braços.

Eu te amo porque eu te admiro porque eu te quero porque eu te amo.

Eu te amo por todos os motivos.

Eu te amo por motivo algum.

Eu te amo porque tu és, todos os dias, o meu melhor motivo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pelos livros de minha mãe



Quando eu era pequena, as viagens que meu pai sempre fazia tinham dois lados: o ruim, de ele estar longe, e o bom, que era a possibilidade de poder dormir com a mãe. Lógico que não era algo fácil, já que a disputa entre os irmãos era acirrada. Dormir com a mãe era um privilégio, uma honra! Era estar no melhor quarto da casa, com os carinhos de filho exclusivo, enquanto os outros três irmãos dormiam em seus quartos habituais e, claro, sem a mesma graça.

Quando finalmente chegava a minha vez de dormir com ela, lembro que, invariavelmente, antes de dormir, ela lia. Sua fome por livros era noturna. Com a luz do abajur ligada, confortavelmente recostada no encosto vermelho da cama, ela lia. Livros de todas as cores e espessuras. Com eles, minha mãe se ausentava um pouco do nosso mundinho e se perdia no mundo que os livros lhe ofereciam.

Eu queria aquele mundo para mim. Queria fazer aquelas viagens com ela. Queria aprender a ler.

Assim que comecei a decifrar as primeiras letras, as primeiras palavras (todas ensinadas por ela), minha realização era poder ficar encostadinha no peito da minha mãe para ler junto com ela. Não importava o livro. Página por página, eu acompanhava a leitura de minha mãe. No tempo em que ela sorvia duas páginas, eu lia, com orgulho e presteza, a última palavra de cada linha de todas as páginas nas quais os olhos dela também repousavam.

Finalmente, líamos juntas. Ela lia tudo. Eu, algumas palavras. Mas isso me bastava para me sentir tão capaz de me inserir no mundo da leitura quanto ela. Agora, eu também sabia ler!

Por causa dessas palavrinhas de final de linha que eu conseguia decifrar, me sentia mais próxima das letras e da minha mãe. Ela e eu: leitoras. Sabia que chegaria o dia em que eu conseguiria ler tanto quanto ela. Foi por causa da leitura dela que eu quis ler também. As palavras eram minha chance de um dia ser tão especial quanto minha mãe.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A relationship


O que eu quero numa relação é leveza.

Detesto cobranças, detesto me sentir testada, não sei viver com brigas o tempo todo. Isso não me serve.

Eu preciso confiar para não viver num inferno.

Eu preciso que o outro confie em mim para eu não viver preocupada com o que o outro vai pensar ou deixar de pensar.

Para mim, medo bloqueia, não liberta.

Eu quero você sem medo, com ônus e bônus.

Eu quero almoços de domingo em família.

Eu quero planos juntos, sem o receio de "se ainda estivermos juntos".

Eu quero apoio de quem está do meu lado e admiração, não por me achar bonita, mas por achar que eu sou diferente.

Não quero estar junto o tempo todo, mas quero que, quando estivermos juntos, sejam os melhores momentos do dia.

Não quero acabar com a individualidade de ninguém, nem quero que invadam a minha.

Quando discuto, discuto o problema do momento, não todos os outros que já foram discutidos.

Quero um podendo ajudar o outro, não um tendo que ajudar o outro.

Quero falar o que penso sem pensar que serei julgada, pois, numa relação, não se julga, se argumenta.

Quero alguém que faça escolhas em favor da relação.

Não quero ninguém amando por dois. Ou a relação é de iguais, ou não é relação, é hierarquia.

E, sim... Eu também quero que você me leia. Nos olhos. Nos textos. Todos os dias.