domingo, 12 de maio de 2019

A filha perdida, de Elena Ferrante



"Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?"

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"As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender."

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"O não dito fala mais do que o dito."

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"Um filho é, de fato, um turbilhão de aflições."

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"Queria que minhas filhas fossem amadas, não suportava que não fossem, a possível infelicidade delas me aterrorizava."

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"Desancorar-se, sentir-se leve não é algo positivo, é uma crueldade consigo mesmo e com os outros."

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"Sempre existe um fino galho da própria vida ao qual se agarrar e, ali suspenso, se acostumar à necessidade de cair."

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"Uma mãe não é nada além de uma filha que brinca."

sábado, 11 de maio de 2019

Becos da Memória, de Conceição Evaristo



"Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção."

"Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída."

"Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.
[...] Sonho só alimenta até à hora do almoço, na janta, a gente precisa de ver o sonho acontecer. Tive tanto sonho no almoço de minha vida, na manhã de minha lida, e hoje, no jantar, eu só tenho a fome, a desesperança..."

"Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós, que consegue viver, que consegue se realizar. A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você."

" E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está."

"Quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que não estava, dava um passo muito importante para sua libertação."

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Frascos vazios


Uma das minhas mais secretas satisfações, dentre as inúmeras pequenas alegrias que criamos para nós mesmos, é esvaziar frascos, especialmente aqueles que mantemos no banheiro. Frascos de shampoo, de pasta de dentes, de cremes hidratantes, de perfumes. Digo especialmente esses,  pois são os que, normalmente, demoram muito para serem esvaziados - pelo menos, os meus.

Os frascos de perfume, por exemplo, ficam meses e meses ao seu dispor. Oferecem seu líquido magicamente perfumado para diversas ocasiões de sua vida, seja para o dia a dia do trabalho, para o momento refrescante após o banho ou aquele evento tão ansiosamente esperado. Você o usa com parcimônia. O perfume que se usa para trabalhar não é o mesmo que se usa para ir a uma festa. Ao chegar ao final, é importante poupar cada gota, borrifar de leve no seu pescoço para aproveitar o restinho do aroma que lhe fará falta. E quando finalmente acaba, por vezes você até pode guardar o vidro de perfume, por ser bonito e lhe trazer boas lembranças, mas acabou - deixe-o de lado e comece um novo.

Frascos de hidratante são igualmente interessantes, dos menores aos maiores. Também custam a terminar e o bom é raspar até o final, nas últimas sessões de hidratação de pele com ele. Quando realmente não há mais nada a lhe oferecer ali, então é hora de jogar fora. Abrir espaço no balcão da pia, colocar um novo em seu lugar.

O bacana desses frascos esvaziados é a sensação de conclusão, de finitude. Eles já lhe deram tudo que poderiam, foi uma curtição mútua e é hora de desapegar, mudar, começar de novo. Penso que essa é a razão pela qual eu goste tanto de chegar ao ponto de um frasco vazio. Desfazer-se dele pelo meio é desperdiçar metade do potencial oferecido, é desistir no meio do caminho, é inconclusivo. Bom mesmo é acabar com seu shampoo e ainda adicionar água no final para aproveitar um pouquinho mais do aroma, da sensação, do conteúdo.

É preciso chegar até o fim das coisas. É preciso esgotar as possibilidades. É preciso ficar com vontade de mais, ao invés de arrependimento por não ter aproveitado tudo o que podia. É preciso esvaziar. Esvaziar-se. Criar espaço. E começar tudo de novo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Quem é Deus?



No carro, com minhas duas filhas, uma de seis e outra de dois anos de idade, estávamos falando em Deus ou, em outros termos, em "Papai do Céu". No meio do assunto, a mais velha perguntou:

- Mamãe, quem é Deus?

Fiquei assustada com a pergunta, me questionando se todos os meus ensinamentos de fé e oração não tinham valido de nada até o momento, ao que exclamei:

- COMO ASSIM, MINHA FILHA? DEUS!!! PAPAI DO CÉU, ORA!!

Aí ela explicou melhor a pergunta:

- Não, mamãe, lógico que eu sei quem é Deus! É que eu quero saber por que O chamam de PAPAI do Céu... Não podia ser MAMÃE  do Céu? Quem foi que disse que Ele é HOMEM?

[Segundos de espanto, encantamento e confusão da minha parte.]

- Bem, filha, tem quem acredite que Ele é mulher. A mamãe, na verdade, não sabe. Acho que a gente vai descobrir quando morrer, né?

- É... Também acho. Vamos ver quando a gente chegar no céu! Porque, sabe, Deus tem super-poderes!! Ele é o único no mundo todo que tem super-poderes!

Nesse momento, a minha filha mais novinha interrompeu o assunto e complementou, com toda convicção:

- Nããããããooooo... É Deus e a mamãe!!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Fidelidade




Todos os dias, assim que ela acorda, a primeira coisa que faz após espreguiçar-se é colocar a aliança no dedo anelar da mão esquerda. Beija o marido, que ainda dorme ao seu lado e inicia seu dia. Acorda as crianças para irem à escola. Não importa o quanto cresçam, ela continua pensando nos dois como crianças. Prepara café. Toma banho e se arruma cuidadosamente diante do espelho – Sempre foi vaidosa. Prepara o lanche das crianças – um muffin de maçã para a filha, chips de batata doce para o filho, que agora resolveu ser fit. Serve a xícara de café e toma enquanto termina de se maquiar. Instrui o cardápio que deve ser preparado ao longo do dia pela funcionária da casa. Leva outra xícara de café para o marido, que começa a despertar, dando-lhe o beijo de bom-dia.

Leva as crianças para a escola. Avisa a professora da filha que o marido irá buscá-la. A jovem educadora sorri. Ela suspeita que a professora gosta da ideia de poder ver seu marido mais tarde, já que sempre busca encontrar assuntos diferentes e completamente irrelevantes quando seu lindo esposo pega as crianças na escola. Parte rumo a um dia cheio no trabalho. Melhor tomar outro café assim que chegar, antes da primeira reunião. Entre um compromisso e outro, liga para o salão de beleza – melhor já agendar o horário de cabeleireiro na sexta, antes do jantar com o marido em comemoração aos 16 anos de casados. Aproveita seu horário de almoço para ir à academia e dar continuidade ao seu “projeto verão”. Banho. Visita três clientes agendadas para a tarde. No caminho de volta, passa no supermercado – é preciso comprar mais frutas e verduras para a casa.

Estaciona na garagem de casa quase à hora do jantar. Serve o jantar enquanto instrui os filhos a guardarem as compras. O marido chega em seguida. Ele gosta de jantar antes de ir à academia. Ela admira sua energia para se exercitar diariamente, inclusive aos finais de semana. Talvez por isso a sensação que ela tem de o tempo só fazer bem a ele. Ela organiza os pratos na lavadora e supervisiona a tarefa da filha e a pesquisa em que o filho está focado. Pergunta-lhes sobre o dia, as aulas e os amigos. É incrível como a filha sempre tem muitas novidades para contar e o filho, ao contrário, praticamente não se manifesta. Como é frustrante saber sobre o filho através do olhar dos outros: profesores, mães de amigos, a irmã. Ele é tão lindo e tão calado quanto o pai.

Filhos alimentado, de banho tomado e prontos para a a hora de dormir. Ela sabe que o filho vai para o quarto, mas ainda faz muito em seu celular antes de realmente dormir. Melhor não interferir e preparar um sanduíche para o marido comer na volta da academia. Toma banho e aplica cuidadosamente o ácido recomendado pela dermatologista. Precisa marcar depilação. Espia as redes sociais e retoma a leitura do último livro recomendado pelo chefe. Quando o marido chega no quarto, de banho tomado, decidem assistir a um filme antigo que estava passando na TV. O perfume e o calor dele são muito excitantes. Ela sente-se privilegiada com a vida que tem, por ainda ser objeto de desejo daquele homem e ele, o dela. O sexo é previsível e bom. Conhecem as posições de prazer um do outro. Amam-se, enfim. Nunca, em tantos anos, ela teve outro homem em seus braços. Ela sabe que ele não lhe foi fiel todo esse tempo. Ela foi. Ela não teria coragem de trair o marido.

Acerta o despertador no celular para o dia seguinte. Apaga as luzes. Lentamente, como um ritual, retira do seu dedo anelar da mão esquerda a aliança de casamento. Permite-se a liberdade de dormir sem esse símbolo de fidelidade ao marido. Em seus sonhos, ela não precisa ser uma mulher casada.  

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Sweet memories




Fui taxada como louca ou, no mínimo, imaginativa demais por muitos anos entre meus irmãos. Sendo a mais nova de quatro filhos, sempre que nos reuníamos e começávamos a relembrar acontecimentos da nossa infância, os meus acabavam recebendo comentários como: "Tá louca? Isso nunca aconteceu!" ou "De onde você tirou isso? Só pode ter inventado!".

A irmã que é apenas três anos mais velha que eu enchia o peito e contava em detalhes suas memórias de nossas festas de aniversário, as Bodas de Ouro de nossos avós, os casamentos dos primos mais velhos. Eu mal me lembrava desses eventos. E não era por não ter idade suficiente para lembrar. Era que eu não lembrava mesmo.

Meu irmão, o único homem entre nós, nem tentava: "Não consigo lembrar direito de todas essas coisas que vocês falam... Como se minha vida tivesse começado mesmo só depois de uns 8 ou 10 anos de idade, a partir de quando eu começo a lembrar."

A mais velha, acumuladora de mais lembranças do que todos nós, conseguia ter memórias comparativas: "Quando eu era pequena, não podia fazer tais e tais coisas... já quando vocês tinham essa idade, o pai e mãe deixavam quase tudo!". Tinha uma certa mágoa de filha mais velha nesse discurso, a mágoa de quem foi a primeira cobaia no experimento parental de nossos pais, a vítima dos erros e acertos de quem está fazendo pela primeiríssima vez.

É engraçada essa coisa de ter lembranças. Li em algum lugar que nossas lembranças são frutos do que vivemos e também do que imaginamos ter vivido. É possível que tenhamos lembranças totalmente criadas por outrem: de tanto nos contarem e de tanto criarmos as imagens em nossa mente, nos apropriamos delas como nossas próprias memórias. E que bom termos essa habilidade! Que chata seria nossa caixinha de recordações cerebral se não tivesse uma pitada de fantasia.

Só que houve um dia em que uma das minhas lembranças compartilhadas e taxada igualmente de "imaginação" foi validada pela minha mãe. Mães são o armazenamento perene das recordações familiares e ninguém duvida do que uma mãe lembra (ou esquece). Ela falou algo como: "Foi assim mesmo como ela contou. Eu me lembro.". Pronto! Meu devaneio foi para sempre curado e eu deixei de ser (tão) lunática.

A constatação de minha mãe foi a permissão que faltava para analisarmos as razões pelas quais os outros irmãos não lembravam das vivências das quais eu me lembrava. Lembram de quando acampamos na beira da praia e os primos jogaram areia nos nossos olhos? Lembram de quando a mãe nos deu uma bronca e nos levou de castigo para o quarto, para então percebermos que tinha um presente-surpresa nos esperando lá? Lembram de brincarmos que estávamos perdidos em uma floresta no pomar da casa dos avós? Lembra, mana, quando você me colocou para escutar "Os saltimbancos" no sofá da sala, diante da lareira?

Concluímos que o meu processo de seleção de memórias é diferente do de meus irmãos. Enquanto eles lembram dos fatos marcantes e grandes eventos e festas, eu lembro de detalhes pequenos do nosso cotidiano. A minha memória prefere o que há de simples no dia a dia. Não lembro das Bodas dos meus avós, mas lembro da roupa rosa que estava usando, de sentar no colo magro de meu avô e ter conhecido meu primo bebê. Lembro dos diálogos, das brincadeiras bobas, do mate doce tomado na casa da vizinha. Eu lembro em pequena escala do que torna as minhas recordações grandiosas e preenche os espaços entre as grandes memórias construídas pela minha família. Eu não invento - eu complemento. Ou talvez eu até invente um pouco, como todos nós, para embelezar ou maquiar certas lembranças.

Meu plano é continuar lembrando exatamente das pequenas coisas... a camiseta que meu marido estava usando no dia em que nos conhecemos e o primeiro olhar dele que encontrou o meu. Estar deitada na cama com minha filha recém-nascida, com o corpinho quentinho dela colado no meu, o cheiro acolhedor da casa da minha mãe e o perfume do meu pai após o banho. O frio que sentia ao sair da universidade, de noite, e o encontro com minha amiga no banco do ônibus. Todas as pequenas vivências que me constituem e me fazem quem sou. Eu sou os grandes acontecimentos da minha vida - as festas, as celebrações, os eventos que merecem álbum, mas, mais que isso, sou o que vem antes e depois deles, sou o "making off", o ensaio, o imprevisto, a rotina, o que há de mais amplo e complexo no que preenche os dias.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Nada




Estávamos no carro, só nós duas: minha filha de cinco anos de idade e eu. Música ao fundo, trânsito fluindo bem e, então, a pergunta retórica em tom de surpresa:


- Mamãe, você percebeu que o nada não existe?
- O quê, minha filha? Como assim?
- Assim, mãe: o nada, NADA mesmo... NÃO EXISTE! Até para você falar: NA-DA... só por você estar falando, então você está ali, falando, e já não é nada. O nada, de verdade, não existe. Sempre vai ter um lugar, umas coisas em volta, uma pessoa. O que existe é o "nada" da natação, mas o nada de não ter nada - NÃO EXISTE!

Percebi o quanto a filosofia é algo natural para uma criança.
O quanto uma abstração tão complexa pode chegar até você assim, do nada!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Goodbye, New York!


Sentindo-me praticamente uma Nova Yorkina, dispensei táxi ou über e peguei o metrô para ir até o Aeroporto Internacional JFK. Lá no Aeroporto, é necessário pegar outro trem, o Airtrain, para ir até o embarque. Entre fila para check in e atendimento, perdi cerca de uma hora até descobrir que estava no aeroporto errado. Sairia de Nova York por uma porta diferente da que entrei. O atendente gentilmente tentou me tranquilizar: “A senhora tem tempo; se correr, consegue chegar no Aeroporto La Guardia em cerca de 40-50 minutos”.

Corri. Com uma mala imensa e pesada, mais mochila, bolsa e sacola penduradas e um aperto no coração, que já não aguentava mais a saudade da família. Quando cheguei na fila enorme para pegar o táxi, comecei a chorar, na certeza de que não chegaria a tempo. Duas adolescentes solidárias me deixaram passar na frente, poupando preciosos longos minutos de espera, para pegar o táxi. Uma senhora até se ofereceu para me acompanhar no táxi até lá. E ainda falam que os estadunidenses são frios e insensíveis...

No veículo, continuei chorando: medo de perder o voo, de levar mais um dia até chegar em casa, de ter que pagar nova passagem aérea, frustração comigo mesma por não ter prestado atenção no detalhe do aeroporto. O taxista, um senhor de barba longa e branca, por volta de seus 70 anos, perguntou se eu estava bem. Eu expliquei a situação. Ele disse: “Calma, vamos pegar um atalho para fugir do trânsito. Em meia hora, você estará no aeroporto”.

Depois de um silêncio e as lágrimas secando, ele falou mais. Disse: “Sabe, essas coisas acontecem. Se você perder o voo aqui, perdeu! Vai ter que lidar com isso, comprar outra passagem, perder dinheiro. Mas chorar não vai lhe ajudar. Você precisa ser forte e resolver. Chore quando chegar em casa, entre os seus. Aqui, longe de tudo, você precisa ser forte. Você só pode ser frágil diante de quem lhe ama – e obterá conforto”.

E continuou: “Vou lhe contar que quarenta e cinco anos atrás, eu estava indo visitar minha família, no Afeganistão, com minha esposa, e passaríamos por Londres. Só que, chegando em solo Britânico, eles não me deixaram entrar. Não pude continuar minha viagem, nem rever minha família. Mandaram-me retornar. Entrei em contato com dois amigos, que se juntaram para comprar outra passagem aérea de volta para mim. Voltei para Nova York, perdi 4000 dólares em passagem. Não adiantava eu chorar lá. Assim como você, eu choro. Mas não havia o que fazer.

“Quarenta e três anos depois, precisei ir a Londres por outra razão e solicitei meu visto de entrada. Eles negaram porque eu já tinha histórico de não ter sido aceito. Precisei apelar legalmente. Bem, 43 anos depois, o governo Britânico se desculpou, me deu razão e me deu livre acesso. Levou 43 anos e não foram minhas lágrimas que resolveram. Aconteceu comigo, pode acontecer com você e a gente precisa ser forte”.


Aquele sábio senhor me deixou a tempo no aeroporto La Guardia. Foi minha despedida de uma New York tão multicultural, tão imensa e lotada, tão cheia de histórias. A minha confusão de aeroportos foi só uma delas. E embora minhas lágrimas tenham sensibilizado aquelas mulheres na fila do táxi, o que resolveu foi a rota alternativa do taxista, minha sorte de ter chegado com muita antecedência no primeiro aeroporto, a tempo de correr para o segundo. E o que fica em mim desse breve episódio são as palavras do taxista: “Seja forte aqui, longe de tudo e entre estranhos. Quando chegar em casa, passado tudo, entre os seus, você chora”. 

Talvez eu assim o faça. Mas, entre os meus, minhas lágrimas serão apenas de alegria. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Bênçãos



Quase três anos atrás, no Natal de 2013, minha mãe deu a cada um dos filhos uma caixinha de madeira pintada por ela mesma e com a palavra "Bênçãos" escrita na tampa. Junto da caixa vinha um cartão, explicando que o maior desejo de uma mãe para seus filhos é que eles tivessem muitas bênçãos e alegrias, a cada dia do novo ano, e esperava que nós soubéssemos reconhecer todas essas alegrias. Então a ideia era escrever as coisas boas que o ano de 2014 nos traria e ir colocando os papéis naquela caixinha. Desse modo, teríamos uma boa ideia do quanto éramos privilegiados com pequenas e significativas alegrias da vida.

Eu segui a proposta e, a cada acontecimento bacana dos meus dias, escrevia em um papelzinho e colocava na caixa de bênçãos. Era também um exercício de enxergar o que era bom e que, por tantas vezes, passa despercebido, quase sem o devido valor. Um café com as amigas, um dia na praia, pequenas conquistas da filha. Confesso que não consegui fazer por muito tempo. Por alguma razão, só pratiquei esse exercício de bênçãos até março de 2014.

A questão é que encontrei essa caixinha há dois dias, exatamente na véspera do meu aniversário. Dediquei um tempo para ler cada um dos papéis, relembrando, com um sorriso no rosto, de cada um deles. Compartilhei essa leitura e as lembranças com meu marido e tivemos um momento de nostalgia com essas recordações tão boas.

Percebi que todas aquelas vivências, quando relembradas agora, dois anos depois, passam a impressão de que foram ainda melhores. Ficou quase aquela sensação de que éramos mais felizes em 2014 do que agora. Mas essa é uma impressão falsa. A verdade é que tudo depende de como se olha para os eventos - atuais e passados. O que vivemos em 2014 não foi melhor. Foi apenas o que aconteceu lá e o que eu escolhi registrar: o bom, o feliz, a bênção. Naquela época também tivemos problemas, mas nenhum deles, obviamente, entrou na caixa. E os desafios foram resolvidos e ficaram para trás, quase como se não tivessem existido.

Percebi que temos uma tendência errada de focar no que não está bom no presente, no que precisa ser feito, resolvido, nas contas que precisam ser pagas, no cansaço, no que não está dando certo. Tudo isso precisa de atenção, sim, mas não precisa ser o centro de nossa atenção. Tem tantas outras questões mais importantes na vida e que, inclusive, nos fazem bem. Aquele sorriso no meu rosto ao ler as bênçãos de 2014 não deve surgir no futuro, ao lembrar de hoje. Ele deve aparecer hoje mesmo, na vivência, no presente, no tempo real da bênção.

Percebi que preciso voltar a listar as bênçãos de meus dias e que o melhor momento seria a data do meu aniversário, início de um novo ano na minha vida, um ano que será cheio de bênçãos, de momentos felizes para curtir e registrar. Um ano em que eu valorize mais os presentes do dia e lembre deles com carinho depois, recordando, também, que soube valorizar cada um desses momentos.

Percebi que o que estou fazendo hoje é o simples ato de criar recordações. Consciente disso, quero criar recordações felizes, quero a serenidade do sorriso no rosto hoje e no futuro. Essa é a bênção.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Não tenha um cachorro


Está pensando em comprar um cachorrinho? Em pedir um de presente? Em adotar algum daquela feira da praça?
Não faça isso.
Você não precisa disso.
Dá muito trabalho. Muito mesmo.
Você vai perder um tempão educando-o a fazer xixi e cocô nos lugares certos.
Vai limpar um monte de sujeira mal cheirosa.
Vai ter que passear umas duas vezes por dia, no mínimo, para diminuir significativamente a quantidade dessa sujeira.
Vai gastar um dinheirão com vacinas e, se precisar, vários exames e remédios especiais para cães.
Vai fazer malabarismo para conseguir dar os remédios que ele não quer tomar.
Vai gastar para dar banho. Para comprar ração.
Vai encontrar pelos na casa, no sofá, na sua cama.
Vai ter que lutar pela sua própria comida, porque o cãozinho fofo vai tentar comê-la em seu lugar.
Vai acordar com latidos no meio da noite por causa de qualquer besteira que você não entenderá.
Vai viajar e pagar hotel para cães, ou sobrecarregar algum amigo que cuidará dele para você.
Você irá perder algum sapato ou mobília na casa, em algum momento dessa convivência.
Vai passar vergonha com o período de cio, por exemplo, em que a cadelinha vai querer transar com qualquer perna que enxergar pela frente.
Vai continuar gastando dinheiro, vendo os problemas de saúde aparecerem com o tempo.
E vai chegar o inevitável dia em que ele (ou ela) vai te deixar.
É fato: você leva o cãozinho para casa sabendo que ele morrerá em alguns anos.
E aí, meu amigo... É aí que me refiro... Aí o bicho pega mesmo.
Aí você vai sofrer.
Vai chorar e continuar sofrendo.
Vai sentir falta o tempo todo.
Vai preferir todos aqueles problemas de novo: os latidos, os banhos, os gastos, a sujeira, os pelos.
Você vai olhar para os outros cãezinhos e ficar com o coração pequeno porque não tem mais o seu.
Vai sentir falta da cabecinha dele encostada no seu pé enquanto você assistia à TV.
Vai querer acariciar uma barriguinha que não está mais ali.
Não vai saber o que fazer com aqueles brinquedinhos sujos e velhos, com os potinhos agora aposentados de ração e água.
Vai ouvir o latido dele no silêncio.
Vai sentir falta daquela lambeção toda e euforia quando você retornava para casa.
Vai ter a impressão de tê-lo visto correndo de novo por aí.
Vai ficar se perguntando o que mais você poderia ter feito.
Vai pensar: será que ele sentia que eu o amava tanto assim?
E vai continuar sofrendo um sofrimento que nem é reconhecido socialmente. Um sofrimento tachado quase como bobagem por quem não sabe como é.

Não... Não faça isso.
Em meio a essa dor da perda, você vai até listar todo o ônus de ter um cão para tentar se convencer de que ele não te faz falta.
Mas faz.
E vai doer pra cachorro!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Abacaxi


Tenho inúmeras recordações da infância que remetem a essa fruta esquisita, o abacaxi. Todas envolvem minha mãe. Não pense que minha mãe é "um abacaxi", pois essa expressão idiomática não tem nada a ver com ela. A questão é que minha mãe adora abacaxi. Sempre adorou. Pelo menos, desde que eu me entendo por gente.
Desde pequena, eu amava o verão... Família toda viajando para a praia, sem os habituais compromissos de trabalho e escola, apenas curtindo o mar - que sempre morou longe da gente, esse teimoso! - curtindo jogos de cartas noturnos, horários nada rígidos para sono e refeições e, claro, curtindo muito essa fruta típica da estação quente, o abacaxi. Quer dizer, eu não curtia. Não gostava mesmo... Preferia mil vezes a melancia. Mas, fosse na minha própria casa ou no lugar alugado de férias, sempre você encontraria abundância de abacaxi. Por quê? Não porque fosse mais barato ou uma boa decoração de centro de mesa... Não! Tinha muito abacaxi porque é a fruta predileta de minha mãe.
Podia ser no café da manhã, após o almoço, de noite ou no lanche da tarde... Ela se deliciava com o abacaxi e exclamava: "É, sem dúvida, a fruta de que eu mais gosto!".
Eu não entendia. Pensava: "Mãe tem cada gosto estranho..." Eu até tentei "pegar gosto" pelo tal abacaxi. Quando minha mãe dizia: "Este está bem docinho, parece feito de açúcar!", eu tentava experimentar mais uma vez... Mas não tinha jeito: na minha boca, abacaxi era um negócio amargo, ácido, que chegava a dar agonia de comer. Eu tentei. Muitas vezes. Consegui gostar só do suco. E eu ficava até feliz de não gostar, porque aí sobrava mais para ela.
Minha mãe amava e continua amando o abacaxi. "Deve fazer bem pra saúde dela", pensei, e deixei o assunto para lá.
Quando fui morar sozinha e fazia minhas primeiras compras de supermercado, toda orgulhosa, enchia meu pequeno apê das mais variadas frutas: banana, laranja, pêssego, mamão. Outras vezes comprava ameixa, caqui, kiwi, tangerina. Mas abacaxi... Nunca fazia parte da minha lista de compras. E não me fazia falta.
Até que chegou um determinado dia que, no buffet do lugar onde sempre almoço, lá estava ele, o abacaxi: todo cortado em pedacinhos, pronto para servir de sobremesa (light) para quem quisesse. Olhei para aquele abacaxi, ele olhou para mim, rolou um clima e uma vontade danada de ter aquele gostinho na boca de novo. Comi tudo e, acredite, poderia até ter repetido se tivesse mais.
No dia seguinte, lá estava eu, procurando pelo abacaxi... O de ontem estava tão bom! Quero mais!
Dia após dia, eu queria comer abacaxi. Melhor do que querer comer brigadeiro todos os dias, claro! Então, mesmo achando aquela mudança de paladar estranha, dei vazão àquela vontade e passei até a comprar abacaxi para a casa. Já casada, meu marido aprovou o ingresso da fruta à nossa dieta.
Pouco depois de o abacaxi entrar de vez em meu prato e estômago, descobri: estava grávida. Estava explicado! Só podia ser desejo alheio aquela vontade toda por abacaxi. Tive certeza de que minha filha seria a criança mais adepta a comer abacaxi dentre todas as outras!
Fiquei intrigada e contente com o desejo diário por abacaxi. Se deixassem, eu comeria um inteiro todinho e sozinha. Achava delicioso, suculento, saboroso! Por vezes, era a única coisa que eu tinha vontade de comer. Imaginei, porém, que tão logo o bebê saísse de meu ventre, sairia com ele o gosto pela fruta tropical e eu voltaria aos hábitos "frutíferos" de antes da gestação.
Não foi o que aconteceu. Minha filha nasceu, foi crescendo e crescendo... E agora me vejo em uma segunda gestação, e aquele estranho desejo não regrediu, não me abandonou: sempre que possível, opto pelo abacaxi. Não é um desejo de todo dia, mas é bem frequente.
Estava pensando que o abacaxi chegou, quatro anos atrás, em minha vida, e ficou. Ele se apresentou para mim junto com a maternidade: desde então e para sempre.
De repente, entendi o deleite de minha mãe. Compreendi o quanto o amarguinho da fruta pode ser gostoso. Percebi que dentro daquela casca dura, coroada por folhas rígidas com espinhos, tem um apetitoso prazer que vale a pena. Por fim, dei-me conta de outros significados do abacaxi para mim... Não foi por acaso que essa vontade só apareceu quando engravidei. O abacaxi foi minha primeira representação da maternidade: experiência que tem acidez associada a sabores insubstituíveis. Casca grossa e conteúdo inegavelmente prazeroso e único. Um amargo deleite. Doce aroma tropical, mesmo que você esteja "debaixo de mau tempo". Uma experiência para ser compartilhada (um abacaxi, assim como a responsabilidade da maternidade, é muito grande para uma pessoa só, mas é do tamanho ideal para um casal).
Hoje, vejo-me como via minha mãe, aquela de gosto peculiar. Vejo-me cúmplice dela, degustando juntas um abacaxi docinho do verão. Ela não tinha necessidade de que eu me servisse e gostasse da fruta dela. Talvez fosse uma coisa de mãe e ela já soubesse: o abacaxi e a maternidade viriam no tempo certo. Posso, agora, afirmar - sobre a fruta e a metáfora que ela representa para mim: "É, sem dúvida, do que eu mais gosto!"

segunda-feira, 28 de março de 2016

Seu papel


Agora entendo um pouco melhor como os papéis que assumimos vão mudando drasticamente no decorrer da vida.
Já é clichê o roteiro do filme que trata da atriz, sempre acostumada a ser chamada para fazer papéis de mocinha, de repente começar a receber convites para encenar a mãe da mocinha. A gente assiste a isso e fica achando meio deprimente...
Mas o papel que assumimos na vida também muda de categoria.
Hoje eu olho para minha filha, linda, cheia de energia, de um futuro radiante à sua frente e compreendo: no momento em que se decide ser mãe, também se decide dar um passo ao lado. Você escolhe deixar de ser a protagonista e passa a ser coadjuvante - quase figurinista às vezes.
E mais: você enxerga a beleza dessa mudança de papel, a importância que cada um deles tem nesse "filme" e sente um orgulho enorme de sua própria filmografia.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Com você, meus medos



Aprendi o que é sentir medo com você.
Medo da responsabilidade
Medo de não saber o que fazer
Medo de fazer tudo errado.
E eu continuo sentindo medos.
Eles só mudam de nome, mas todos continuam sendo medo.
Medo de estar sendo dura demais ou mole demais.
Medo de você ficar doente.
Medo de você precisar de mim e eu não estar por perto.
Medo de você se machucar.
Medo de alguém machucar você.
Medo do que a vida trará para você e o que você fará com isso.
Medo porque foge ao meu controle.
Medo de você não ser feliz.
Medo de você um dia me odiar.

Agora tenho medo medos com relação a mim mesma.
Acho estranho tê-los, mas tenho mesmo.
Medo de não conseguir te dar a vida que espero poder proporcionar
Medo de não atingir suas expectativas
Medo de velocidade... porque acidentes acontecem.
Medo de avião.
Medo de morrer
Porque eu não quero te deixar desamparada, sem colo, sem o meu abraço.
Eu não quero que você seja educada por outros.
Eu quero ver tudo o que você vai ser
Eu quero assistir
Eu quero estar perto
Quero poder ajudar quando você precisar.

Você trouxe novo valor à minha vida...
A minha vida não é mais só minha.
Talvez ela seja até mais sua do que minha.
Eu tenho medo, sim
E toda a coragem por assumi-los.

Eu tenho medo e amor.
Eu tenho medo e planos.
Eu tenho medo e vida.
Eu tenho medo e tenho você.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Calo


É o engasgo
É todo o fluxo das palavras que digo com os olhos
E que você não escuta
É o que não se comunica
O que não sai de meu peito
Nem nunca alcançará o seu
O que minha alma grita
E tudo o que calo
Tudo o que absorvo
Tudo o que mora no obscuro de mim
O que você não desvenda
Que você não conecta
Que seu tato desconhece
E que cresce em mim
Como um bolo
Um rolo
Um rombo
um roubo.
Ora na foz da garganta
Ora no vazio do estômago
Ora no suor das mãos
Ou na pegada...
Que já não deixa marcas.

É disso que estou falando
Estou falando do que não é seu
Do que você repudia
Do que você foge
E do que também,
em mim,
ama.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Gentileza gera gentileza



A hora do jantar se aproxima e eu decido fazer uma sopa de legumes. O dia foi longo, o cansaço aparece, mas ainda tem tanto a fazer... Vou para a cozinha, escolho a panela, seleciono os legumes, lavo, corto. Enquanto organizo isso, aparece minha pequena ajudante de dois anos, puxa uma cadeira, fica em pé, em cima da cadeira, diante da pia, e diz "Eu ajudo". E ela ajuda mesmo, do jeitinho que sabe: lava os legumes, lava as panelinhas de brinquedo, lava as mãos, deixa tudo arrumadinho em cima da pia.

Enquanto a sopa ferve e penso que minha ajudante vai largar a pia e ir direto para os brinquedos, ela aparece na sala de jantar com seu prato, talher e copo, que ela mesma pegou da gaveta da cozinha. Posiciona na mesa do jeito que eu ensinei e pergunta: "O que mais?". Antes de mim, ela se adiantou para arrumar a mesa do jantar. Continuou levando tudo que não é perigo: colher, guardanapo, descanso de mesa. Continua sendo útil do jeitinho dela.

Meu coração já está em êxtase de alegria!

Quando tudo está pronto e sentamos para brincar de construir castelos, ela esbarra na nossa cachorrinha e, na mesma hora, fala: "Desculpa, She-ra!" (sim, nossa Shih-tzu tem nome de super-heroína).

Uma vez à mesa, depois de servir seu prato de sopa, espontaneamente, ela me diz: "Obrigada!".

Honestamente, não sei como foi que ensinamos todas essas pequenas delicadezas em dois anos e nove meses de vida. Mas, de alguma maneira, ela aprendeu. E, enquanto me emociono ao testemunhar essa pessoinha crescendo e mostrando quem é, peço a Deus, do fundo do meu coração, para que ela cresça assim, para que a vida não lhe "desensine" nesses pequenos gestos.

Eles farão com que a vida de minha filha gere um pouco mais de gentileza no mundo!