sábado, 28 de março de 2020

Quarentena - dia 8

Nada como acordar e saber que você precisa trocar de roupa para uma reunião! Bem, pelo menos a parte de cima, que fica aparente no vídeo. Minha melhor estratégia para quando tenho uma reunião mais longa, especialmente com o chefe, é colocar as meninas para assistirem a um filme, hoje foi Frozen II. Confesso, elas ficam vendo TV no meio da manhã mesmo. Hoje quase deu super certo. Enquanto eu estava discursando para a web, na minha oportunidade de fala, uma criança caiu, começou a chorar desesperadamente e eu tive que pedir licença para ver se a guria não estava prestes a morrer com a queda. Não estava. Mas, mais uma vez, que "vergonha profissional"...

Para o almoço, usei toda a minha criatividade para usar vários restos que estavam na geladeira e bolar algo novo e gostoso. Acho que deu certo! A velha filosofia: "Nada se perde, tudo se transforma".

Com relação a nossa escola caseira, hoje decidimos trocar de ambiente. Meu escritório está com cheiro de mofo forte, que está atacando a rinite da Letícia. Vou ver como resolver isso, tendo tantos livros lá nas estantes. Livros antigos, dos quais não consigo abrir mão. Meus livros de estimação. Ano passado, tentei fazer uma limpa neles, com o objetivo de doar o que pudesse. Devo ter cerca de 800 livros. Com a limpa que fiz, devo ter ficado com uns 796, mais ou menos.


Nos intervalos, colhemos jabuticaba do pé que está crescendo e frutificando aqui em casa. Colhemos umas oito, as oito  mais deliciosas que já comemos! E quando, a chuva voltava, Manuela vestia a capa de chuva para brincar na área externa. Ela tentou, simplesmente, tomar banho de chuva, mas achou as gotas muito frias, então ficou curtindo sua capa de chuva em forma de dinossauro. Quando o "recreio" era dentro de casa, enchemos muitos balões, fizemos carinhas com canetinha e foi a diversão do dia!

Para a hora de dormir, elas escolheram a dramaturgia familiar, ao invés da simples contação de história. Resolvemos interpretar "Chapeuzinho Vermelho", Manu era a Chapeuzinho, Lelê era a vovó e o caçador, eu era a mamãe e o lobo. É mais farra do que calmaria pré sono! Elas amam!

Depois que deixei as duas quietinhas no quarto, tive que encarar o resto da roupa que ainda precisava passar. Melhor pegar outra taça de vinho e escolher outro filme: "O limite da traição": beeeeeeem fraquinho, serve para passar o tempo mesmo e só. A propósito: ainda não terminei de passar toda a roupa. Estou achando melhor deixar essas crianças passarem o dia só de calcinha, para não sujar roupas. Será?

sexta-feira, 27 de março de 2020

Quarentena - Dia 7

Quando eu era pequena, acreditava que havia uma torneira no céu e que Deus a esquecia aberta às vezes, por isso chovia tanto em algumas ocasiões. Se isso fosse realmente verdade, então a torneira deve ter ficado aberta a noite inteira em cima de Salvador. Quando acordei, casa alagada de novo. Não alaga a ponto de arruinar móveis ou eletrodomésticos, mas a ponto de me deixar com dor na lombar, de tanto ficar abaixada, secando tudo. A boa notícia é que descobri por onde a água entra: por debaixo da porta da frente da casa. Enquanto não solucuinamos o caso por definitivo, melhor deixar uns panos ali.

Hoje, na escola de casa, rolou bola de futebol feita com balão e avião feito com sucata. Afinal, é escola ou fábrica de brinquedos? Lógico que as meninas amaram! Haja criatividade das professoras para proporem essas atividades... e haja disposição da mamãe/professora para colocar tudo em prática, ao mesmo tempo.

Depois disso, ainda rolou uma "operação supermercado". Estava precisando de algumas coisas e precisei ir. Tentei ser rápida e não passar as mãos no rosto em momento algum. Havia várias pessoas de máscara e de luvas. Engraçado... será que a luva é realmente eficiente? Pensa comigo: você está com a luva e, de repente, pega em algo que está infectado. Se você, instintivamente, passar a mão, que está com a luva, no cabelo ou decidir ajustar sua máscara no rosto com essa mesma mão, o vírus não vai pegar em você de qualquer jeito? Enfim, me parece apenas uma falsa sensação de segurança.

A real dificuldade do supermercado não é estar lá, é quando você volta pra casa. Ao chegar, passa álcool gel, tira sapato e vai logo pro banho, coloca a roupa para lavar, se auto-desinfeta toda. Depois vem o processo de trazer as compras pra dentro da sua casa: lavar todas as embalagens, passar álcool em tudo. espero estar fazendo o suficiente.

De tarde, hora de contar com a ajuda da minha mocinha para fazer pão caseiro. Fazer pão é um processo lindo. Você prepara a massa, trabalha com a criança medidas e instruções, coloca a mão na massa, literalmente, e ainda desenvolve a habilidade da espera, pois precisa esperar a massa crescer, precisa cuidar dela, sovar, para então levar ao forno e esperar novamente. Só depois de assar, vem a satisfação de comer pão quentinho com manteiga derretendo. Penso que em tempos de imediatismo, é uma aula e tanto para os pequenos (e para os grandes também, lógico!).

De noite, foi a vez do marido levar as crianças para  cama, enquanto eu pegava a pilha de roupas para passar, diante da televisão, com uma taça de vinho ao lado. Escolhi o filme "Os pássaros", aquele do Alfred Hitchcock. Achei que meu marido iria gostar de assistir também. Esperei, passei roupa e esperei mais um pouco. Nada dele. Quando o filme já estava chegando ao final, perdi totalmente as esperanças. Imaginei que ele tivesse pegado no sono junto com as meninas. Mas, para minha surpresa, quando desliguei o ferro de passar e fui pro quarto (não, não passei tudo, deixei mais uma pilha de roupas para amanhã), lá estava ele, exausto porque havia passado as últimas duas horas tentando fazer essas meninas pegarem no sono! Querido... ele realmente fica no quarto esperando elas fecharem os olhos. Ainda bem que elas têm esse pai! Quando a mamãe coloca na cama, é beijo, boa-noite e tchau, mamãe!

quarta-feira, 25 de março de 2020

Quarentena - dia 6

Às 5h da manhã, tinha uma fofa de 3 anos de idade escalando minha cama e se infiltrando embaixo da coberta entre a gente. A uma hora dessas, nem relutei, só queria dormir mais um pouco. Quando finalmente criei coragem de levantar (porque não tem outro jeito, o dever me chama), cheguei na sala e na cozinha e... SURPRESA: tudo alagado. Choveu a noite toda, foi muita água mesmo. Não sei por onde essa água toda entrou, visto que todas as janelas estavam fechadas, só sei que comecei o dia ajoelhada no chão, secando a água toda e era bom ser rápida, pois a primeira reunião virtual me aguardava. Bom dia pra você também!

Resolvi passar um pouco de maquiagem no rosto hoje, para aparecer diferente na câmera. Até eu me estranhei! Também me dei conta de que não tenho passado perfume ou calçado sapatos. Bem, a questão do perfume é fácil de resolver, mas sobre os sapatos... prefiro passar o dia descalça mesmo. Afinal, na webcam, ninguém olha para os seus pés. Sabe, esse ano passei por uma situação engraçada com uma aluninha de 5 anos de idade. Enquanto eu fazia uma visita à sala dela, ela veio até mim e disse: "Ms. Bianca, esse seu sapato está velho, né? Olha só!". Nunca mais usei aquele sapato novamente. As crianças observam tudo! Mas não agora, quando só enxergam o meu rosto pela câmera.

Neste sexto dia de isolamento, estou prestes a pedir demissão da minha função de cozinheira. No almoço, o arroz negro não cozinhou o suficiente, a banana à milanesa passou do ponto e o feijão branco estava quase desmanchando na panela. Meu marido, muito inteligentemente, disse que estava tudo uma delícia! Na tentativa de achar justificativas plausíveis para mim mesma, tento me convencer de que só pode ser falta de hábito de cozinhar tão frequentemente. Sempre gostei de cozinhar, mas, depois que virei mãe, meu ritmo caiu bastante em prol da praticidade. Além disso, uma mãe de duas crianças, quando vai para a cozinha, não vai só... as duas acompanham e querem "ajudar", o que significa mais trabalho para você, que precisa preparar a refeição, dar funções apropriadas à faixa etária para as crianças e supervisionar que ninguém se queime ou morra durante o processo, especialmente você mesma. Hoje, o "homeschooling" me salvou, pois uma das tarefas a serem feitas era massinha de modelar caseira. Então, enquanto eu queimava as bananas e não prestava atenção ao arroz, elas estavam mega entretidas com a massinha (obrigada, professora!).


Depois desse tempo todo em pé, na cozinha, volto ao home office. Minha cadeira está se tornando desconfortável ou minha disposição para estar naquela salinha com as duas meninas é que está reduzida. Engraçado é que elas parecem curtir à beça a "nova escola". Minha filha mais nova, quando me viu maquiada de manhã, desesperou-se: "Mamãe, onde você vai? Quem vai ficar com a gente? A gente não quer outra professora!". É uma fofa! Mas tem horas que eu adoraria abduzir a professora dela aqui pra casa, com máscara no rosto e álcool gel na mão, desde que eu tivesse uma folguinha.

Depois da contação de histórias com livros da Eva Furnari, que minhas filhas amam, depois que elas dormiram e eu trabalhei mais um pouco no computador (pois é, no home office, você não tem horário certo para trabalhar, o que pode facilmente acontecer à noite, quando as crianças já estão dormindo e você se sente um pouco mais em paz para pensar sem ser interrompida), decidi escolher um filme cult para ver com o maridão: "Clair Obscur", uma produção turca e bastante densa. Fiquei tensa e triste com o filme. Embora tenha atuações excelentes, não é um filme que eu recomendaria, não... sorry! É daquele tipo que, quando termina, você olha para a pessoa ao seu lado e um pergunta ao outro: "É sério que acabou assim?".

Só consegui desopilar e dormir com possibilidades de sonhos bons depois que li mais um pouquinho do livro maravilhoso que está na minha cabaceira no momento, da Nina George, intitulado "A livraria mágica de Paris". Mas desse eu só vou falar aqui depois que terminar de ler...  Au revoir!


terça-feira, 24 de março de 2020

Quarentena - dia 5

Está chovendo bastante. Dá pra ficar na cama o dia todo? Claro que não! Pelo menos para quem tem crianças em casa e trabalho para cumprir e almoço para fazer.

Meu dia foi repleto de reuniões, uma atrás da outra, todas pelo computador, claro. Não é a mesma coisa. Sempre tem alguém que perde a conexão com a internet, alguém que entra na reunião 20 minutos mais tarde porque não baixou o aplicativo ou não achou o link certo da reunião. Além disso, tive uma reunião hoje com seis adultos + 3 crianças que entravam e saíam de cena. O incrível foi a gente conseguir se concentrar e produzir mesmo com tantos chamados de "mamãe" rolando paralelamente. Em uma outra reunião, tive que mandar mensagem para a equipe, só para avisar que começaríamos 15 minutos mais tarde, visto que ainda estava envolvida com a soneca de minha filha mais nova.

Sim, minha pequena ainda tira longos cochilos à tarde. Acredite: o problema não é lidar com a menina às 13h, o problema é quando chega 18h e essa criança não descansou. Não tem pedagogia que dê conta do chororô, da manhã, do drama e do nível de sensibilidade. Eu acho que isso é uma prévia de como será a TPM dela, quando crescer. Enfim, o melhor é garantir o soninho da tarde.

De tarde, depois de resgatar uma borboleta caída, experimentamos ser skatistas. Minhas filhas puxaram mesmo ao pai nesse quesito, enquanto eu achei melhor ficar apenas filmando e curtindo a diversão.

Mais tarde, rolou o primeiro encontro por vídeo da turma da Letícia. Um monte de crianças de 7 ou 8 anos tentando se entender. O objetivo era cantar parabéns para uma coleguinha que teve sua festinha de aniversário cancelada em função desse coronavírus. Eu realmente não sei se as crianças estavam se entendendo. Enquanto uma mostrava seu cachorro na tela, a outra dançava e uma terceira começava a contar uma história. Definitivamente, eles curtiram se ver; sentem falta de estar juntos.


De noite, depois do jantar, a história escolhida pelas meninas foi linda e me fez viajar no tempo, lembrando de quando fiquei sabendo que estava grávida de cada uma delas, de como dei a notícia, de como foi o parto e as primeiras impressões. O nome do livro é "Um conto que não é reconto", de Yolanda Reyes, mas desconfio de que o pós leitura foi o que elas mais curtiram, pois contei para cada uma como foi, desde o planejamento da gravidez, dos sonhos que tive com cada uma delas mesmo antes de engravidar e de como tudo aconteceu no dia do nascimento. Elas quiseram olhar as fotos, questionaram sobre o cordão umbilical e por que elas apareciam sempre chorando nas fotos de banho. Os olhinhos das duas estavam encantados, brilhando. Manuela quase chorou quando eu contei por que ela havia nascido toda roxinha e que mamãe ficou muito preocupada. Antes de encerrarmos a sessão histórias e memórias, elas acrescentaram: "E vivemos felizes para sempre!".

Com as meninas dormindo, chegou a hora de relaxar, escolher um filme, jogar conversa fora com o marido, enquanto comíamos uvas. Nossa escolha não foi das mais felizes hoje: Um fim de semana com Holly. Digo que não foi das melhores escolhas não apenas por causa do filme, que é bem mediano (ou menos), mas também porque a internet não estava ajudando e um filme que levaria uma hora e meia acabou tomando mais de duas horas de nossa paciência. Quando a gente conseguia se interessar pelo filme, travava, gaguejava, imagem trancava. Um teste de paciência, sem dúvidas.

Cansei. Boa noite!



segunda-feira, 23 de março de 2020

Quarentena - dia 4

Domingo. Hoje é domingo. Domingo sem igreja. Domingo sem almoço em restaurante. Domingo sem passeios. Mas domingo com churrasco, pois se tem uma coisa da qual lembramos, foi de comprar carvão!

Preparei um mega café na cama, pois minhas filhas amam esse mimo! O café demorou umas duas horas, beliscando lanchinhos e assistindo filme na TV. Quando resolvemos sair do quarto, já estava praticamente na hora de começar a preparar o churrasco e, claro, de abrir uma garrafa de vinho. Me pareceu estranho fazer todo o ritual de churrasco para apenas nós 5. Não deixa de dar aquela vontade de chamar amigos e agregar ao "churras". Só que não dá. O jeito é fazer vídeo chamada e matar um pouco da saudade, dar e receber notícias olhando para a pessoa na tela. Manuela canta, dança e tem muitos assuntos para tratar com a vovó, pelo vídeo. Ainda bem que temos essa tecnologia a nosso dispor.

Meu marido lavou a louça de novo, só achei que hoje ele não estava de tão boa vontade para a função - mas ele é bom nesse negócio! Enquanto isso, as meninas tomaram banho de piscina, o que me leva a me questionar: O que devemos fazer com relação ao piscineiro? Será que vou ter que aprender um outro ofício? Como diz minha mãe, "Aprender não ocupa espaço" - vejamos pelo lado positivo.

Eu confesso: não consegui manter as meninas longe da televisão nesse domingo. Letícia deve ter assistido a uns três filmes. Manu fica mais dispersa, vai e volta. De tarde, eu também quis ver um filme e Manu colou comigo. Enquanto eu assistia a "Dois Papas" (excelente! Cada vez fico mais fã de Fernando Meirelles), Manu dormia ao meu lado. Também usei o tempo para fazer as unhas; felizmente, essa é uma habilidade que desenvolvi na adolescência, quando queria ficar com as unhas bonitinhas e não tinha grana para manicure. Manu, claro, pintou as unhas também. Eu tento aproveitar esses momentos em que as meninas querem fazer tudo comigo. Sei que vai chegar um tempo em que elas vão querer distância, que estar com a mãe vai ser chato e que eu vou ficar com saudade desses momentos de agora. Então, aceito a companhia com alegria.

Bem, como toda mãe, também anseio por momentos sozinha, momentos a sós com meu marido. É difícil, sabe? Antes de ser mãe, eu achava que conseguiria administrar tudo isso com facilidade, mas esse é um jogo bem difícil de jogar e eu vivo com a sensação de estar devendo para alguém: ou para as filhas, ou para meu marido, ou para meu trabalho, ou para meus pais, ou para minhas amigas, ou para mim mesma. Acostumei a viver no débito, no negativo da minha própria matemática. Esse próprio isolamento aumentou meu débito. Percebi que, no final de semana, que não preciso trabalhar, até consigo dar conta da casa, das refeições, das meninas. Mas acrescentar as obrigações de home office ao cenário deixa tudo mais complicado. Ou será que tudo isso é apenas um período de ajuste e depois eu encontrarei um equilíbrio? Não sei... Só sei que tenho precisado tomar um dorflex por dia, para aliviar a tensão e dor nos ombros.

Manu fez um desenho no quadro negro hoje. Um desenho bem significativo: tinha o papai, a mamãe, a Manu, a mana, a She-ra, um coração, uma moedinha, a piscina, O CORONAVÍRUS, a nossa casa e Deus. Tudo que faz parte da vida dela, tudo o que se passa na cabecinha dela. A tradução do nosso momento, da nossa quarentena. De novo a sabedoria da criança. Não preciso dizer muito, só observar.


domingo, 22 de março de 2020

Quarentena - dia 3

Bom dia, sábado! Quem adora acordar mais tarde no final de semana? Como é bom... quando não se tem filhos pequenos em casa! No meu caso, 6h30min foi o horário de início do dia. Mas foi um início lindo! Minhas duas princesas acordaram e prepararam um café da manhã para levar para nossa cama: biscoito de maizena, iogurte e o que restou do bolo de banana de ontem. Levaram numa bandeja de plástico azul, da brinquedoteca delas. Achei a coisa mais linda do mundo! O despertar foi cedo, foi difícil acordar, mas vamos seguir o dia e, melhor: sem precisar trabalhar no home office!

Minha filha de três anos perguntou,  logo de manhã cedo: "Mãe, acabou o Coronavírus?". Oh... quisera eu poder dizer que sim! Mas não ainda. O jeito é pegar um ar fresco na garagem de casa e brincar com massinha de modelar. E de  lego. E de patinete. E de pega-pega. E de esconde-esconde. Ou seja: sábado só em casa cansa mais do que sair. Então a gente volta para dentro da casa.

Começo a pensar que as contas da casa vão aumentar significativamente. Moramos em Salvador, cidade quente, acabamos tomando mais banhos do que o usual - aumento na conta de água. Ligamos o ar-condicionado em plena tarde, para driblar o calor, sem falar no uso de computadores e televisão - aumento na conta de energia, que já não é barata. Numa situação em que as pessoas tendem a ganhar menos dinheiro, ter aumento nas coisas assusta um pouco.

Minha filha pequena agora aprendeu a perguntar para tudo: "Como você sabe?". Manu, não sobe aí porque você vai cair... "Como você sabe?". Manu, está na hora de dormir... "Como você sabe?". Manu, sorvete só pode depois do jantar... "Como você sabe?". Acho que é uma pergunta que faz, realmente, muito sentido para entender as coisas. Tem certas coisas que nem eu sei como eu sei. Amo as filosofias das crianças.

Fiz o almoço de novo e aprovei minha nova receita de batata rosti feita na fritadeira. A sobremesa de maçã também ficou gostosa. Certo que vou engordar nessa quarentena! Novidade do dia: depois de 10 anos compartilhando o mesmo teto, meu marido finalmente aprendeu a lavar a louça. Foi, sem dúvida, uma conquista. Depois percebi que ele não lavou tudo... deixou umas coisinhas de lado. Mas foi um bom começo.

Consegui cochilar de tarde, junto com a pequena. E depois, resolvemos fazer sessão de cinema em família: Os smurfs 2. As meninas já tinham assistido, mas continuam se divertindo muito cada vez que assistem novamente.

Não sei como tem sido no celular de vocês, mas o meu deve, provavelmente, entrar em colapso. Eu tenho "TOC" com relação a mensagens não lidas, não gosto de ver a bolinha vermelha indicando quantas mensagens não li ainda. Então, quando acesso o Whatsapp, tento abrir todas as conversas para zerar a conta. E consigo! Só que cinco minutos depois, já tem mais de 200 mensagens novas!! Como dar conta disso, gente? Hoje decidi que não vou mais ler todos os textos, abrir todos os links e assistir a todos os vídeos. It's too much! Para manter a sanidade, não tem como dar conta de tudo, é preciso priorizar.

Meu cunhado foi ao supermercado hoje e tivemos um trabalhão para limpar com lenços umedecidos em álcool 70 cada um dos produtos trazidos para dentro de casa, mais a chave do carro, o celular, a carteira. Tira o sapato e vai direto pro banho, cunhado! É tenso. Ao mesmo tempo, penso se esse não deveria ser o procedimento padrão do que trazemos para dentro de casa.

Já eu resolvi me aventurar numa ida à farmácia. Primeira vez que encontro vaga para estacionar na frente da drogaria. Dentro do estabelecimento, faixas amarelas para demarcar o espaço em que podemos transitar, para não nos aproximarmos muito dos atendentes, que usam máscaras o tempo todo. Mesmo procedimento de chegada em casa, limpando tudo com álcool. Depois, lavar bem as mãos, conforme os 80 vídeos que já recebi instruindo como fazê-lo.

Como é noite de sábado, a tradição da família é deixar as meninas dormirem no nosso quarto - só uma vez na semana pode! Levamos os colchões, arrumamos as camas, escovamos dentes, fizemos oração. Foi então que a pequena começou a demonstrar suas preocupações: "Mamãe, por que Deus não usa os poderes dele no coronavírus?" "Mamãe, e se Deus se machucar?" "Você sabia que Ele é amigo de Noé e eles moram no céu?" "E se todos eles se machucarem, como a gente fica?" Ela chorou. Com razão. Eu dei colo, consolo e garanti que Deus está cuidando de todos nós e que o coronavírus não é maior que o amor dEle.

Percebi: as preocupações de minha filha de 3 anos são mais legítimas do que a da maioria dos adultos, nessa circunstância. Melhor continuar orando.





sábado, 21 de março de 2020

Quarentena - dia 2

Hoje é o segundo dia de quarentena e, também, é sexta-feira. Tudo funciona melhor na sexta-feira, não é?

O café da manhã foi só entre a pequena e eu - a mais velha acordou e foi direto para a sala de estudos... Nunca a vi tão entusiasmada para aprender e estudar, isso só pode ser fruto do agora permitido uso de computador nessa casa! Ela também curte a possibilidade de ficar o dia todo de pijama, "ter aulas de pijama". A mais nova e eu preferimos trocar a roupa.

Meu marido e eu decidimos dar férias para a babá e diminuímos o ritmo de trabalho da cozinheira. Hoje nenhuma das duas estava presente para dar uma força. Trabalhei de manhã do jeito que deu - o que não é o ideal. Depois tive que parar para poder preparar o almoço. Levei duas horas na cozinha, mas, pelo menos, a comida ficou gostosa.

Depois de almoçar e de colocar a pequena para domir um pouco, voltei ao home office. Tinha uma reunião virtual com outras quatro colegas de trabalho. Tudo estava indo razoavelmente bem, tirando problemas técnicos de uma primeira reunião assim e a tempestade que caiu enquanto tentávamos nos entender. Foi então que minha filha de três anos despertou e não me viu ao lado. Foi chorando e gritando do quarto até o escritório. Não parou de chorar quando me viu. Ela queria colo, consolo e minha atenção. E eu não podia dar. Enquanto estava diante da câmera do computador, tentei fazer mil sinais para a criança em crise e nada adiantava. Onde está o pai da criança numa hora dessas? A mais velha foi tentar acalmá-la. Nada. Pedi licença da reunião, coloquei a opção de "mudo" no computador e minha calma foi parar em outra galáxia, pois, naquele momento, até eu teria me assustando se tivesse visto minha cara de mãe brava no espelho. Não... não foi o mais didático a fazer. Não foi "Love and Logic", foi mãe surtada mesmo.

Concluí a reunião. Tenho a leve impressão de que hoje não foi um dia muito produtivo profissionalmente. Nunca havia sido interrompida desse jeito no meu ambiente de trabalho. Será que o trabalho dentro da minha casa vai acabar com minha carreira?

Resolvi desestressar montando quebra-cabeças de 2000 peças com Letícia. Acabamos! E agora? Será que se comprar outro on-line receberemos a entrega em casa? Definitivamente, cozinhar também é relaxante para mim (ainda). Dessa terapia, saiu um bolo de banana delicioso!


Hora de parar e preparar o jantar. Hora de conversar com os outros dois marmanjos que moram comigo sobre as obrigações da casa: comida, louça, trabalho conjunto, responsabilidades com as crianças. Pelo visto, a conversa foi boa, pois meu cunhado lavou a louça do jantar e o marido deu banho e colocou as meninas na cama enquanto eu me permitia um banho de banheira demorado.

Que tal outro filme? "Brooklyn - sem pai nem mãe" foi o escolhido da noite. Edward Norton arrasa. As meninas fizeram uma tentativa frustrada de dormir em outro cômodo da casa. Deve ser a vontade de fazer algo diferente. A tentativa deve ter durado uns 15 minutos. Elas ficaram com medo de aranhas aparecerem para devorar as duas e subiram logo para o quarto.

Ainda bem que amanhã é sábado! Saldo positivo desse segundo dia e otimismo para o final de semana. Adoraria não ter que acordar cedo amanhã...

Quarentena - dia 1

Então é isso. O Coronavírus colocou todo mundo dentro de suas próprias casas. Espalhou-se pelo mundo e pegou a todos desprevenidos. Além de lavar as mãos muito bem, o melhor que podemos fazer é permanecer em casa. Sem sair. Pra lugar nenhum.

Hoje é o primeiro dia. Meu confinamento é dentro de uma casa linda, cercada de natureza, com outras quatro pessoas: minhas duas filhas (uma de sete e outra de três anos), meu marido e meu cunhado, que mora temporariamente conosco.

Quando percebi a situação chegando, fiz o que todos estavam fazendo: fui ao mercado para estar preparada com o básico e passar os dias com conforto e... comida, claro!

Bem, nesse primeiro dia, minhas filhas acordaram no horário habitual e eu também. Animadamente, nós três trocamos as roupas, tomamos café da manhã juntas e fomos "construir nossa escola caseira". A partir de agora, o que costumava ser meu escritório de uso raro, passará a ser o QG de trabalho e aprendizagem. Foi uma farra! Cada uma organizando seu cantinho, colocando escalas de horários de estudo na parede, conectando os aparelhos. Ok, quem fez isso de verdade fomos minha filha mais velha e eu. A menor ficou por perto, curtindo os brinquedos que levara para a "escola".

Ligamos os computadores para a aprendizagem a distância começar. Eu tinha reuniões marcadas. Manuela - a mais nova - se divertiu a valer vendo os vídeos das professoras e escrevendo o próprio nome. De cinco em cinco minutos, a mais velha me perguntava alguma coisa. Isso não te irrita na primeira hora. A partir da segunda, você começa a repensar o fato de ter colocado todo mundo na mesma sala de estudo/trabalho.

Paramos para lanchar, para brincar, para almoçar. Hoje a funcionária que cozinha e limpa a casa ainda veio. Meu marido e eu estamos avaliando como as coisas irão transcorrer para tomar decisões com relação a isso. Afinal, até agora, ninguém do nosso convívio está com COVID-19.

Pela tarde, as duas crianças já estavam mais dispersas. Permiti a televisão para poder continuar trabalhando. Para distrair a minha mente, depois do meu turno de trabalho, fui fazer o jantar. Ficou gostosa a torta de atum.

Todos foram dormir no horário habitual. Rolou até um filme a dois (que me valeu algumas lágrimas e eu recomendo: "A vida em si").

Passamos bem esse primeiro dia.

Vai dar tudo certo!



terça-feira, 14 de maio de 2019

Parabéns, pai, pelo dia das mães!



No último final de semana comemorou-se o Dia das Mães, uma das datas que mais se vende no ano e que mais enche os restaurantes. Reverencio a minha mãe nesse dia e em muitos outros. Reverencio a maternidade, com suas dores e alegrias.

Mas, nesse dia, minha família também parabenizou meu irmão, pai de dois filhos. A justificativa para essa homenagem estendida a ele é o fato de que inúmeras vezes ele cumpre também o papel de mãe.
Pensando nisso e especialmente porque agora sei o que significa ter filhos e porque minhas filhas têm um pai presente, resolvi me abster da parabenização. Expliquei a ele, por telefone, minhas razões para não ter me incluído na lista de pessoas que o parabenizou... e decidi compartilhar aqui essas razões.

Primeiramente, há de se questionar o que as pessoas querem dizer quando afirmam "esse pai cumpre o papel de mãe também". Afinal, o que vem a ser o papel do pai e o papel da mãe?

Meu irmão perdeu noites de sono na infância de seus filhos, assim como sua então esposa, na época, o fez. Ele continuou perdendo noites ao levar e buscar os meninos em festas na adolescência. Era o fão número um nos shows das bandas em que meu sobrinho tocou, insistiu nas boas companhias e nos conselhos de como se comportar nas baladas e na vida.

Meu irmão bancou financeiramente os filhos, escola, lazer, faculdade, presentes de namoradas, passagens para viagens de férias, roupas, instrumentos musicais, inscrições para concursos, comida e crédito para o celular.

Meu irmão conversou e ainda conversa sobre sexo, sobre preservativos, sobre gravidez indesejada, sobre relacionamentos e responsabilidades.

Meu irmão fez questão de obter a guarda legal do filho menor de 18 anos na época, e assim o fez, assumindo todas as responsabilidades de uma guarda unilateral. Preparar as refeições, lavar e passar roupas, acordar o menino para ir à escola, cobrar boas notas, pensar na programação do final de semana, delegar responsabilidades ao filho, contar com a ajuda da avó para quando ele próprio precisasse sair à noite e, logicamente, nunca deixou de trabalhar fora para poder arcar com os custos disso tudo.

Diante desse cenário, que talvez ainda seja incomum de ser assumido por muitos homens de nossa sociedade, eu volto a perguntar: onde está, em toda essa descrição, o "papel da mãe"? A meu ver, tudo o que meu irmão fez (e continua fazendo), toda sua dedicação às suas crias, são a pura representação do que significa ser PAI. Ou seja, ele cumpre o papel que lhe coube desde que completou 19 anos e ouviu o choro de seu primeiro filho chegando ao mundo, quando mal sabia o que ele próprio queria fazer pelo resto de sua vida. Mas desde lá, havia a certeza dentro dele: ele seria pai. Todos os dias e para sempre. E é isso que ele tem sido todos os dias, há quase 30 anos. Ele não tem sido mãe. Os agora homens que ele gerou têm mãe.

Meu irmão não precisa do título de mãe para ser reconhecido por toda a responsabilidade parental que sempre assumiu. Talvez essa seja uma maneira de diminuir o papel da mãe, mas isso não nos cabe fazer. O que me cabe, como irmã, como tia, é engrandecer a figura desse homem como um exemplo a ser seguido de PAI.
O homem que fica com a guarda do filho não está assumindo função de mãe, ele simplesmente tem total clareza de seu papel de pai.
O homem que cozinha, que dá banho, que vai às reuniões de escola não está na função de mãe, ele está na sua própria função de pai MESMO, interessado e presente.

Por isso, para mim, elogiar um homem dizendo que ele é também "mãe" de seus filhos é apenas uma fala machista que ainda acredita que tudo o que meu irmão e tantos outros pais fazem não lhes cabe como dever e que, quando o fazem, é por opção, não por obrigação. Está mais do que na hora de percebermos, com exemplos como esse de meu irmão, o que ser pai realmente significa, que ser pai tem as mesmas responsabilidades e possibilidades de cumprir com as demandas de uma criança que a mãe tem.

Quando chegarmos nesse ponto de entendimento, talvez o segundo domingo de agosto também se torne uma data tão celebrada quanto essa de maio. E lá, como sempre, direi ao meu irmão, com o coração cheio de orgulho: "Feliz dia dos pais, mano!"

Flores, de Afonso Cruz



"Uma coisa são lágrimas de cebola e outra são lágrimas do coração."

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"Cada homem é um universo, se não fosse não caberia tanto sofrimento dentro da cabeça de cada um."

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"Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela (já morreu), às conversas com o diretor da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no teto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama."

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"Nunca é fácil ser criança e esse tempo só é bom para os psicólogos ganharem dinheiro."

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"Gostava que a vida fosse assim e nos presenteasse com vários ângulos ao mesmo tempo. Poderíamos ser crianças e adultos na mesma frase. Poderíamos ser viciosos e virtuosos no mesmo gesto de pousar a chávena do pequeno-almoço. Mas se calhar já é assim, e as pessoas treinadas conseguem ver a vida como se olha para um carrinho de lata vermelho, vêem o condutor de frente e de lado, tal como sabem que uma pessoa pode ser viciosa e virtuosa no mesmo gesto de pousar."

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"Se um dia vier a acreditar em Deus, não quero relâmpagos e trovões, quero um sorriso delicado como aquele que aparecia no teu rosto. O mundo, quer-me parecer, é muito mais um sorriso ou uma flor a abanar ao vento do que um terramoto, um monumento de pedra ou um grand canyon."

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"Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas. [...] a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros."

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"Vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém."

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"As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso, trata-a bem."

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"Houve um tempo em que cosi as minhas artérias ao teu corpo e todo o sangue que bombeava era na tua direção."

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"Era a vida a provar-me que não tinha acabado tudo, que a vida é um constante recomeço, que nos pisa e nos massacra apenas para ter adubo para se recriar, num círculo nietzschiano, exibindo uma falta de consideração, tato e educação, como se não tivesse sentimentos. A vida dá cabo de nós para logo de seguida ir ao café beber uma milnovivinte e brindar ao início de uma nova tragédia, que acabou de nascer."

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"Em certa medida, somos todos homens artificiais, de barro ou pedra ou madeira, uns pinóquios que precisam de despertar para uma vida de carne e osso. O somatório dos horrores deveria ser capaz de provocar esse despertar."

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"A solidão deve ser a única emoção que não conseguimos partilhar, se o fizermos ela desaparece."

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"Olho para as formigas e são tão pequenas debaixo dos meus pés descalços na relva, e sinto este poder imenso de as esmagar, e imagino Deus, com os mesmos pés, a olhar para nós como seres insignificantes. E Ele, com os seus pés de unhas endurecidas a pisá-las, sem se aperceber da riqueza que cada formiga tem dentro dela. E tenho vontade de gritar quem sou, fazer ver que não mereço ser pisada por um pé incauto, mas é a vida, ser formiga de Deus, ser pisada, ser uma pessoa que passeia os seus cães nos jardins com um saco de plástico para recolher a merda."

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"Não há tradutores de arte. O que faria um tradutor de arte? É muito simples, traduziria a arte para outras linguagens: olhava para os girassóis do Van Gogh e traduzia-os para as leis da Física, e assim ficava explicado o Universo. Mas esse é um trabalho que ninguém faz, todos têm medo de o fazer, somos uns cobardes a olhar para a arte, Kevin, temos medo de que aquilo nos dê uma resposta cabal e deixe de haver motivo para viver porque passámos a saber tudo. Somos uns poltrões que andam pelos museus a olhar para obras-primas para depois dizer: Maravilhoso. Maravilhoso, o caralho, aquilo é muito mais do que isso. Que digam que o Grand Canyon é maravilhoso, que as cataratas de Iguaçu são maravilhosas, está bem, mas de um quadro do Van Gogh? É só isso que têm a dizer? Maravilhoso? São uns cobardes. UNS COBARDES!"

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"Um rio, Kevin, está ao mesmo tempo na nascente e na foz. A vida também é assim, mas nós imaginamos que é um barco a descer o rio, um humilde pescador que por vezes tenta remar contra a corrente, mas é impossível vencê-la. Porém, nós somos o rio, que imagem tão gasta, Kevin, mas deve ser isso que somos. Ao mesmo tempo na nascente e na foz, moribundos e nascituros ao mesmo tempo, no útero e enterrados ao mesmo tempo, e no entanto sempre diferentes de nós mesmos, porque a água é sempre outra, a nascente está sempre a mudar, a foz está sempre a mudar, o nosso passado também, o nosso destino também, somos esta imagem tão gasta pelos poetas, pelos cantores, é isso mesmo, Kevin, uma alegoria velha, somos o tal rio, o tal lugar-comum."

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"“Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objeto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objeto bondoso, que não magoa ninguém.” Não há muita coisa assim."

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"Os pobres, como sabe, não são ricos. São as solas dos sapatos. Estão lá em baixo a proteger a envergadura toda, constantemente a serem pisados, pois a condição da sola do sapato é essa, ao mesmo tempo que serve de base, de raiz."

domingo, 12 de maio de 2019

A filha perdida, de Elena Ferrante



"Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?"

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"As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender."

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"O não dito fala mais do que o dito."

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"Um filho é, de fato, um turbilhão de aflições."

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"Queria que minhas filhas fossem amadas, não suportava que não fossem, a possível infelicidade delas me aterrorizava."

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"Desancorar-se, sentir-se leve não é algo positivo, é uma crueldade consigo mesmo e com os outros."

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"Sempre existe um fino galho da própria vida ao qual se agarrar e, ali suspenso, se acostumar à necessidade de cair."

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"Uma mãe não é nada além de uma filha que brinca."

sábado, 11 de maio de 2019

Becos da Memória, de Conceição Evaristo



"Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção."

"Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída."

"Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.
[...] Sonho só alimenta até à hora do almoço, na janta, a gente precisa de ver o sonho acontecer. Tive tanto sonho no almoço de minha vida, na manhã de minha lida, e hoje, no jantar, eu só tenho a fome, a desesperança..."

"Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós, que consegue viver, que consegue se realizar. A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você."

" E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está."

"Quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que não estava, dava um passo muito importante para sua libertação."

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Frascos vazios


Uma das minhas mais secretas satisfações, dentre as inúmeras pequenas alegrias que criamos para nós mesmos, é esvaziar frascos, especialmente aqueles que mantemos no banheiro. Frascos de shampoo, de pasta de dentes, de cremes hidratantes, de perfumes. Digo especialmente esses,  pois são os que, normalmente, demoram muito para serem esvaziados - pelo menos, os meus.

Os frascos de perfume, por exemplo, ficam meses e meses ao seu dispor. Oferecem seu líquido magicamente perfumado para diversas ocasiões de sua vida, seja para o dia a dia do trabalho, para o momento refrescante após o banho ou aquele evento tão ansiosamente esperado. Você o usa com parcimônia. O perfume que se usa para trabalhar não é o mesmo que se usa para ir a uma festa. Ao chegar ao final, é importante poupar cada gota, borrifar de leve no seu pescoço para aproveitar o restinho do aroma que lhe fará falta. E quando finalmente acaba, por vezes você até pode guardar o vidro de perfume, por ser bonito e lhe trazer boas lembranças, mas acabou - deixe-o de lado e comece um novo.

Frascos de hidratante são igualmente interessantes, dos menores aos maiores. Também custam a terminar e o bom é raspar até o final, nas últimas sessões de hidratação de pele com ele. Quando realmente não há mais nada a lhe oferecer ali, então é hora de jogar fora. Abrir espaço no balcão da pia, colocar um novo em seu lugar.

O bacana desses frascos esvaziados é a sensação de conclusão, de finitude. Eles já lhe deram tudo que poderiam, foi uma curtição mútua e é hora de desapegar, mudar, começar de novo. Penso que essa é a razão pela qual eu goste tanto de chegar ao ponto de um frasco vazio. Desfazer-se dele pelo meio é desperdiçar metade do potencial oferecido, é desistir no meio do caminho, é inconclusivo. Bom mesmo é acabar com seu shampoo e ainda adicionar água no final para aproveitar um pouquinho mais do aroma, da sensação, do conteúdo.

É preciso chegar até o fim das coisas. É preciso esgotar as possibilidades. É preciso ficar com vontade de mais, ao invés de arrependimento por não ter aproveitado tudo o que podia. É preciso esvaziar. Esvaziar-se. Criar espaço. E começar tudo de novo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Quem é Deus?



No carro, com minhas duas filhas, uma de seis e outra de dois anos de idade, estávamos falando em Deus ou, em outros termos, em "Papai do Céu". No meio do assunto, a mais velha perguntou:

- Mamãe, quem é Deus?

Fiquei assustada com a pergunta, me questionando se todos os meus ensinamentos de fé e oração não tinham valido de nada até o momento, ao que exclamei:

- COMO ASSIM, MINHA FILHA? DEUS!!! PAPAI DO CÉU, ORA!!

Aí ela explicou melhor a pergunta:

- Não, mamãe, lógico que eu sei quem é Deus! É que eu quero saber por que O chamam de PAPAI do Céu... Não podia ser MAMÃE  do Céu? Quem foi que disse que Ele é HOMEM?

[Segundos de espanto, encantamento e confusão da minha parte.]

- Bem, filha, tem quem acredite que Ele é mulher. A mamãe, na verdade, não sabe. Acho que a gente vai descobrir quando morrer, né?

- É... Também acho. Vamos ver quando a gente chegar no céu! Porque, sabe, Deus tem super-poderes!! Ele é o único no mundo todo que tem super-poderes!

Nesse momento, a minha filha mais novinha interrompeu o assunto e complementou, com toda convicção:

- Nããããããooooo... É Deus e a mamãe!!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Fidelidade




Todos os dias, assim que ela acorda, a primeira coisa que faz após espreguiçar-se é colocar a aliança no dedo anelar da mão esquerda. Beija o marido, que ainda dorme ao seu lado e inicia seu dia. Acorda as crianças para irem à escola. Não importa o quanto cresçam, ela continua pensando nos dois como crianças. Prepara café. Toma banho e se arruma cuidadosamente diante do espelho – Sempre foi vaidosa. Prepara o lanche das crianças – um muffin de maçã para a filha, chips de batata doce para o filho, que agora resolveu ser fit. Serve a xícara de café e toma enquanto termina de se maquiar. Instrui o cardápio que deve ser preparado ao longo do dia pela funcionária da casa. Leva outra xícara de café para o marido, que começa a despertar, dando-lhe o beijo de bom-dia.

Leva as crianças para a escola. Avisa a professora da filha que o marido irá buscá-la. A jovem educadora sorri. Ela suspeita que a professora gosta da ideia de poder ver seu marido mais tarde, já que sempre busca encontrar assuntos diferentes e completamente irrelevantes quando seu lindo esposo pega as crianças na escola. Parte rumo a um dia cheio no trabalho. Melhor tomar outro café assim que chegar, antes da primeira reunião. Entre um compromisso e outro, liga para o salão de beleza – melhor já agendar o horário de cabeleireiro na sexta, antes do jantar com o marido em comemoração aos 16 anos de casados. Aproveita seu horário de almoço para ir à academia e dar continuidade ao seu “projeto verão”. Banho. Visita três clientes agendadas para a tarde. No caminho de volta, passa no supermercado – é preciso comprar mais frutas e verduras para a casa.

Estaciona na garagem de casa quase à hora do jantar. Serve o jantar enquanto instrui os filhos a guardarem as compras. O marido chega em seguida. Ele gosta de jantar antes de ir à academia. Ela admira sua energia para se exercitar diariamente, inclusive aos finais de semana. Talvez por isso a sensação que ela tem de o tempo só fazer bem a ele. Ela organiza os pratos na lavadora e supervisiona a tarefa da filha e a pesquisa em que o filho está focado. Pergunta-lhes sobre o dia, as aulas e os amigos. É incrível como a filha sempre tem muitas novidades para contar e o filho, ao contrário, praticamente não se manifesta. Como é frustrante saber sobre o filho através do olhar dos outros: profesores, mães de amigos, a irmã. Ele é tão lindo e tão calado quanto o pai.

Filhos alimentado, de banho tomado e prontos para a a hora de dormir. Ela sabe que o filho vai para o quarto, mas ainda faz muito em seu celular antes de realmente dormir. Melhor não interferir e preparar um sanduíche para o marido comer na volta da academia. Toma banho e aplica cuidadosamente o ácido recomendado pela dermatologista. Precisa marcar depilação. Espia as redes sociais e retoma a leitura do último livro recomendado pelo chefe. Quando o marido chega no quarto, de banho tomado, decidem assistir a um filme antigo que estava passando na TV. O perfume e o calor dele são muito excitantes. Ela sente-se privilegiada com a vida que tem, por ainda ser objeto de desejo daquele homem e ele, o dela. O sexo é previsível e bom. Conhecem as posições de prazer um do outro. Amam-se, enfim. Nunca, em tantos anos, ela teve outro homem em seus braços. Ela sabe que ele não lhe foi fiel todo esse tempo. Ela foi. Ela não teria coragem de trair o marido.

Acerta o despertador no celular para o dia seguinte. Apaga as luzes. Lentamente, como um ritual, retira do seu dedo anelar da mão esquerda a aliança de casamento. Permite-se a liberdade de dormir sem esse símbolo de fidelidade ao marido. Em seus sonhos, ela não precisa ser uma mulher casada.