sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Sweet memories




Fui taxada como louca ou, no mínimo, imaginativa demais por muitos anos entre meus irmãos. Sendo a mais nova de quatro filhos, sempre que nos reuníamos e começávamos a relembrar acontecimentos da nossa infância, os meus acabavam recebendo comentários como: "Tá louca? Isso nunca aconteceu!" ou "De onde você tirou isso? Só pode ter inventado!".

A irmã que é apenas três anos mais velha que eu enchia o peito e contava em detalhes suas memórias de nossas festas de aniversário, as Bodas de Ouro de nossos avós, os casamentos dos primos mais velhos. Eu mal me lembrava desses eventos. E não era por não ter idade suficiente para lembrar. Era que eu não lembrava mesmo.

Meu irmão, o único homem entre nós, nem tentava: "Não consigo lembrar direito de todas essas coisas que vocês falam... Como se minha vida tivesse começado mesmo só depois de uns 8 ou 10 anos de idade, a partir de quando eu começo a lembrar."

A mais velha, acumuladora de mais lembranças do que todos nós, conseguia ter memórias comparativas: "Quando eu era pequena, não podia fazer tais e tais coisas... já quando vocês tinham essa idade, o pai e mãe deixavam quase tudo!". Tinha uma certa mágoa de filha mais velha nesse discurso, a mágoa de quem foi a primeira cobaia no experimento parental de nossos pais, a vítima dos erros e acertos de quem está fazendo pela primeiríssima vez.

É engraçada essa coisa de ter lembranças. Li em algum lugar que nossas lembranças são frutos do que vivemos e também do que imaginamos ter vivido. É possível que tenhamos lembranças totalmente criadas por outrem: de tanto nos contarem e de tanto criarmos as imagens em nossa mente, nos apropriamos delas como nossas próprias memórias. E que bom termos essa habilidade! Que chata seria nossa caixinha de recordações cerebral se não tivesse uma pitada de fantasia.

Só que houve um dia em que uma das minhas lembranças compartilhadas e taxada igualmente de "imaginação" foi validada pela minha mãe. Mães são o armazenamento perene das recordações familiares e ninguém duvida do que uma mãe lembra (ou esquece). Ela falou algo como: "Foi assim mesmo como ela contou. Eu me lembro.". Pronto! Meu devaneio foi para sempre curado e eu deixei de ser (tão) lunática.

A constatação de minha mãe foi a permissão que faltava para analisarmos as razões pelas quais os outros irmãos não lembravam das vivências das quais eu me lembrava. Lembram de quando acampamos na beira da praia e os primos jogaram areia nos nossos olhos? Lembram de quando a mãe nos deu uma bronca e nos levou de castigo para o quarto, para então percebermos que tinha um presente-surpresa nos esperando lá? Lembram de brincarmos que estávamos perdidos em uma floresta no pomar da casa dos avós? Lembra, mana, quando você me colocou para escutar "Os saltimbancos" no sofá da sala, diante da lareira?

Concluímos que o meu processo de seleção de memórias é diferente do de meus irmãos. Enquanto eles lembram dos fatos marcantes e grandes eventos e festas, eu lembro de detalhes pequenos do nosso cotidiano. A minha memória prefere o que há de simples no dia a dia. Não lembro das Bodas dos meus avós, mas lembro da roupa rosa que estava usando, de sentar no colo magro de meu avô e ter conhecido meu primo bebê. Lembro dos diálogos, das brincadeiras bobas, do mate doce tomado na casa da vizinha. Eu lembro em pequena escala do que torna as minhas recordações grandiosas e preenche os espaços entre as grandes memórias construídas pela minha família. Eu não invento - eu complemento. Ou talvez eu até invente um pouco, como todos nós, para embelezar ou maquiar certas lembranças.

Meu plano é continuar lembrando exatamente das pequenas coisas... a camiseta que meu marido estava usando no dia em que nos conhecemos e o primeiro olhar dele que encontrou o meu. Estar deitada na cama com minha filha recém-nascida, com o corpinho quentinho dela colado no meu, o cheiro acolhedor da casa da minha mãe e o perfume do meu pai após o banho. O frio que sentia ao sair da universidade, de noite, e o encontro com minha amiga no banco do ônibus. Todas as pequenas vivências que me constituem e me fazem quem sou. Eu sou os grandes acontecimentos da minha vida - as festas, as celebrações, os eventos que merecem álbum, mas, mais que isso, sou o que vem antes e depois deles, sou o "making off", o ensaio, o imprevisto, a rotina, o que há de mais amplo e complexo no que preenche os dias.


"Há uma autonomia na forma como damos carne ao nosso nome com a vida que construímos - e não com a que herdamos. E há a história que veio antes, barro para criar uma existência que se sabe menos autônoma do que a modernidade promete. Podemos deconhecê-la, mas de algum modo ela ainda estará lá. Eu escolho a memória. A desmemória assombra porque não a nomeamos, respira em nossos porões como monstros sem palavras. A memória, não. É uma escolha do que esquecer e do que lembrar - e uma oportunidade de ressignificar o passado para ganhar um futuro. Pela memória nos colocamos não só em movimento, mas nos tornamos o próprio movimento. Gesto humano, para sempre incompleto."

(BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. São Paulo: LeYa, 2014, p. 83-84)

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