quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Um tempo


Ele me pediu um tempo.





Eu fiquei um tempo pensando nisso.



Pensei em pegar um tempo, colocar numa caixinha, embalar, colocar um laço de fita e entregar a ele.
Mas o tempo me foge.

Como será que é esse tempo que ele quer? Será um tempo de sol, um tempo perfumado de flores, um tempo chuvoso, um tempo frio ou um tempo quente?

Tempo... Tempo... Todo mundo quer mais tempo além das 24 horas de todos os dias de todas as semanas de todos os meses de todos os anos que a gente já tem. E lá se vai mais um ano, com todo o tempo que isso envolve. Mas não foi tempo suficiente para ele.

Ele quer mais. Só mais um tempo. Ele não quer um tempo em mim. Ele quer um tempo de mim. E fico pensando no que eu vou fazer com o meu tempo enquanto ele estiver no tempo longe de mim. Penso que um tempo passa muito devagar, apesar de saber que, depois, a gente olha para trás, e pensa que todo o tempo passou rápido demais. E penso no tempo que se perde e no tempo que se quer ganhar. No tempo que passou e no tempo que virá. E no que virá com o tempo.

E que – eu sei – com o tempo, ele não virá.

Mas eu, com o tempo, vou ter que me virar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um mundo redondo

Agora eu entendi por que o mundo é redondo.
Era óbvio... É porque o mundo está sempre grávido!
Grávido de pessoas, de ideias, de novos dias e novas esperanças.
O mundo é sempre fecundo. Assim como as pessoas.
Porque todo mundo pode renascer, pode se reinventar, reaprender.
Ainda que demore nove meses. Ou mais.
A vida tem pressa de surgir em nossos dias, mas ela aguarda a gestação, o preparo, a espera. Ela se forma em nós e sabe quando deve nos invadir, quando não há mais maturação necessária, quando o mundo entra em trabalho de parto por nós.
Não é cesariana. É natural.
E não dói.
Apenas renova.
E nem exige tantos cuidados.
A vida, quando nasce em nós, já vem pronta para sair da maternidade e engravidar o mundo de novo.



(Texto escrito para C., completamente grávida de felicidade!)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Presente I

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: "Você é meu amigo ou amigo da onça?"

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:

"Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela, e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentam te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: "moça linda..."; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu."


(Rubem Braga, Abril de 1964)



Resolvi presentear meus queridos leitores com textos de que gosto muito, de diferentes autores. Esse é o primeiro, intitulado "A mulher e seu passado", retirado do livro "200 crônicas escolhidas", um dos que tem lugar cativo em minha cabeceira. Espero que gostem... e se inspirem!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pensando no Natal

De tudo, nessa época de Natal, há um detalhe do qual sempre gostei mais, desde criança. Não negava os presentes (esperava ansiosa por eles!). Cheguei a escrever cartas ao Papai-Noel. A Ceia era sempre cheia de guloseimas maravilhosas! Roupas novas eram compradas para celebrar a data. Montávamos a árvore de Natal e a casa ficava toda ricamente enfeitada com motivos natalinos. E era no meio disso tudo que estava o meu objeto de admiração, de encantamento: o presépio.

Acontece que o presépio consegue reunir itens que, indiscutivelmente, fazem bem, suscitam bons sentimentos. Percebam: todos ali estão com as atenções voltadas para um bebê recém nascido. Antes de ser Menino Jesus e significar tudo o que significa, era apenas uma criança. É a representação de uma família que se inicia. E é um início sem preconceitos, sem exigências. Há até alguns animais por perto... há o isolamento do local... há um céu estrelado iluminando a cena.

E depois chegam as visitas com seus presentes. E tem o anjo! Ah... o anjo! Quando criança, sempre entendi que aquele era o anjinho da guarda de Jesus, que, como qualquer criança, ganhava um de Deus quando nascia.

Então, era isso: uma nova família, simplicidade, natureza e amigos que vêm de longe para ver o bebê.



Ninguém estava se preocupando com luxo naquele momento. Não tinha uma plaquinha do lado de fora da suposta gruta com o nome “Jesus”, anunciando o nascimento. Maria nem teve tempo de se preparar... Deve ter sentido as dores do parto em cima do burrinho que a carregava.

É uma visão romântica de toda essa referência cristã? Pode ser! Mas, olhando para aquela cena do presépio, tudo fica claro... O que havia ali era apenas a sensação que tanto nos falta: a sensação de paz e de que tudo vai dar certo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

De repente... 30??



Um dia a gente acorda com 30 anos. Para alguns, não faz a menor diferença. Para mim, fez. Eu não imaginava que faria, mas fez. E não foi exatamente no dia do meu aniversário. Aconteceu uns dois dias antes. Já estava me sentindo com trinta anos antes mesmo de completá-los.

Meu problema não era estar com 30 anos. Meu problema foi me dar conta de tudo o que eu havia planejado, lá pelos 15 ou 20 anos, para quando eu chegasse aos 30. A (ilusória) ideia que eu tinha era a de que uma mulher com 30 anos já está totalmente bem resolvida em todos os sentidos: pessoal e profissionalmente. Vida estabilizada. A probabilidade era estar casada, talvez até com um primeiro filho. Além disso, reconhecimento profissional, claro! Tudo perfeitinho! Vida definida... Era só aproveitar o resto dos anos.

Mas os 30 chegaram rápido demais! Não deu tempo de ajeitar tudo. Ou deu, mas aí eu mudei de ideia. Aí eu resolvi me mudar. Aí eu decidi não casar, tampouco ter filhos. Aí gostei desse negócio de estudar e continuei estudando, estudando...

Não sou a mulher de 30 anos que eu havia imaginado que seria. Com 15 anos, tive tudo o que uma adolescente como eu queria, com direito a baile de debutantes (!) e sonhos para o resto da vida... Sonhos que a mulher que me tornei resolveu mudar. Tudo que eu achei que já estaria acabado a essa altura da vida está recém começando.

Ou seja, precisei fazer 30 anos para entender que não adianta nada ficar planejando detalhadamente o que vai acontecer na minha vida em 10, 15 anos. Confio muito mais no que eu decidir quando chegar lá.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cheirinho de amor



Quando ela o conhecera, a vida ainda não tinha perfume. Havia o calor das pessoas, havia a beleza das flores, havia o sabor dos alimentos, mas nada disso tinha aroma peculiar a ela. Olfato mesmo ela só se deu conta de que tinha quando sentiu o perfume dele. Seu hálito, sua pele, seu beijo... tudo cheirava bem.

Era cheirinho de amor.

Levada por ele, deu-lhe a mão esquerda. E mais. Tornara-se a mulher do homem mais perfumado que ela já conhecera. Perceba: não era perfume comprado, preparado, de boticários. Não havia igual. Era pura e simplesmente o perfume dele, daquele homem a quem ela se entregava todas as noites, durante todos os aromáticos anos de matrimônio.

Disso, outros cheiros vieram. Cheiros de Natal, de praia, de banhos de chuva, de bebê menina e bebê menino, de fraldas e mamadeiras. Cheiro de roupa limpa e roupa suja – “que se lava em casa”. Cheiro de lágrimas, de risos, de aniversários, de jantares, de amigos, de passeios, de presentes. Mas era com o cheiro daquele homem que ela sempre pegava no sono.

Até o dia em que, àquele cheiro tão familiar, misturou-se outro, estranho, doce demais. Era, sem dúvidas, o perfume de uma mulher que não era ela. Perfume que invadiu sua cama, sua paz, sua vida. Não cabia desvendar quem seria a dona do ofensivo aroma. Não havia espaço para tal perfume naquela casa.

Ele se foi. Perdeu-se nos caminhos que nunca mais o levaram de volta. Conheceu outros cheiros, outros gostos, outros corpos. Continuou com a sensação de quem viaja, embora soubesse que já não tinha mais um lar para o qual retornar.

Ela se manteve no papel da mulher que construíra ao longo dos anos. Ser mãe quase lhe bastava. Quase. Chegava a noite e ela sabia que sentiria falta daquele cheiro... Adormecia com o medo de voltar à fase de não reconhecer os aromas, de perder o olfato para o desgosto que ele lhe causara.

Então, em um amanhecer, ela despertou com aquele perfume. Não havia possibilidade de engano. Conhecia o cheiro. Era ele. Num sobressalto, procurou o aroma pelo quarto, pela sala, pela cozinha, pela casa toda. Nem sinal dele.

Houve outros momentos em que ela voltava a sentir o mesmo conhecido perfume. Parecia lhe perseguir. “Deve ser memória olfativa”, pensava. Procurava não pensar muito no assunto, mas continuava dormindo sempre no conforto daquele cheiro. Cheiro que lhe cercava, cheiro que lhe despertava, cheiro que lhe fazia bem...

Foi então que percebera.
O cheiro nunca fora dele.
O cheiro era dela. Emanava dela. Perfume natural que ela tinha.

Era sim o cheirinho de amor... Amor – agora entendia! – que sempre fora maior por ela própria.

domingo, 11 de outubro de 2009

Intervalo

Queridos leitores,

Peço desculpas por não postar textos nesses dias... Estou temporariamente sem internet, sem local de trabalho organizado e, claro, sem tempo. Assim que estiver organizada pós-mudança, volto ao mundo blogueiro com mais textos.

Beijo carinhoso a todos (e, se puderem, mandem boas energias para a nova fase, em um novo apê!)

Bianca

sábado, 26 de setembro de 2009

Selo

Olha que legal! Ganhei um "selo de qualidade de blog" de minha leitora e também blogueira http://fighter-girl-power.blogspot.com/



Tem umas regrinhas para ganhar esse selo, e eu, como obediente que sou, obedeço a todas!


Regras


1. Exibir a imagem do selo "Vale a pena acompanhar esse blog!" que você acabou de ganhar, com o link do Blog de quem indicou e um link do criador do Meme.

2. Escrever as regras em seu blog.

3. Indique no Mínimo 5 blogs e coloque os links de seus indicados no final do post.(O limite máximo de indicações de blogs cada um determina conforme achar conveniente)

4. Avisar a pessoa que você a indicou, deixando um comentário para ela.

5. Conferir se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.

6. Responder as perguntas abaixo:


1) Por que resolveu criar o blog?

Porque já tinha uns textos escritos e guardados, até que meu sobrinho criou o blog para mim, fazendo com que eu criasse coragem e colocasse a público o que escrevo.


2) O que te dá mais prazer em blogar?

Quando percebo que as pessoas se identificam com o que escrevo, ou interagem de alguma maneira. Ou seja, o que escrevo faz sentido para outras pessoas além de mim.

3) Qual o assunto que você mais gosta de postar?

Assunto? Qualquer um! Tudo é assunto sobre o qual posso escrever.


4) Por que escolheu esse nome para o blog?

Porque é para dar a ideia de que o conteúdo desse blog flui, não tem uma forma definida... É líquido!


5)você costuma visitar outros blogs?

Sim, sempre.

Segue abaixo a lista dos blogs aos quais eu repassarei o meme:

http://zanom.blogspot.com/
http://manuscritodegaveta.blogspot.com/
http://www.interney.net/blogs/locutorio/
http://aoutracasa.blogspot.com/
http://aquarelavel.blogspot.com/

terça-feira, 22 de setembro de 2009

"Som e Fúria"



Não entendo de música.

Sei que não é preciso muito

já que o vento assobia

e até os pneus cantam.

Mas mesmo que eu entendesse

e assobiasse

e cantasse,

Hoje

tudo que tenho para dar

é silêncio.

domingo, 20 de setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

A rosa

Rosa,

Cor da bochecha,

Da flor,

Da moça,

Oh, garota,

Mas que bela,

Bela como uma lótus,

Delicada como uma flor,

Oh, garota...



(Poema escrito pelo meu sobrinho Henrique, de 12 anos, "livremente inspirado" no poema "Rosa" que publiquei aqui. A Tia está orgulhosa!)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um final feliz para a novela


Não adianta, quando chega nas últimas semanas, nos últimos capítulos da novela das oito, a gente acaba sabendo bem mais da trama do que durante todo o seu desenrolar. Todo mundo comenta, todo mundo dá palpite, as revistas sugerem muitas opções de como deve ser encerrado esse vício de grande número das famílias brasileiras.

Bem, eu vou acabar com o suspense. Se há uma certeza no que diz respeito a novelas, é o final. Porque final de novela tem que ser feliz! Os problemas se resolvem, as piores verdades são perdoadas e nos preparamos para a próxima imitação da vida (ou para imitar a próxima ficção, “hare baba”!).

O interessante é pensar no que tem sido representado como um “happy end”. Não considerando o contexto cultural em que se passa “Caminho das Índias”, via de regra, o final feliz para as mulheres se restringe a algumas poucas opções: casamento, gravidez ou ambos ao mesmo tempo. A leitura que se faz é, inevitavelmente, a de que, para ser feliz, a mulher precisa de um homem ao lado – que a engravide – para que a ordem da vida se restabeleça. Fácil assim!

Uma ou outra personagem feminina foge desses parâmetros. Usando exemplo dessa mesma novela, digamos que a Tônia realmente vá para a Alemanha em função da bolsa de estudos. Super upgrade profissional! Mas aposto que tem gente que vai dizer: que pena que ela não ficou com o Tarso, né?

Daí se reproduz o modelo de família feliz: mulher, marido e filhos... mesmo que seja uma farsa. Tanta gente infeliz nesse quadro perfeito de novela das oito, mas falta a coragem de admitir que talvez esse modelo não sirva para todo mundo. Talvez não sirva para todas as mulheres. Mas ainda há inúmeras famílias que educam suas filhas para serem boas esposas e mães. Se sobrar espaço para a vida profissional, ótimo! Se não, não vai fazer tanta falta assim. E para as meninas é difícil quebrar esse paradigma, pois crescem assistindo a novelas e filmes em que tudo termina bem para o casal e elas pensam que será assim com elas também, desde os tempos dos contos de fadas.

Amar é maravilhoso, sim! Constituir família deve ser, além de grande responsabilidade, uma delícia! Mas não é para todo mundo. Casamento ou gravidez, definitivamente, não é sinônimo de final feliz. Estar bem resolvida consigo mesma, sim!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

À procura de um apartamento, às vésperas do 7 de setembro

- Oi, bom dia!

- Bom dia!

- Você sabe me dizer se tem algum apartamento para alugar aqui nesse prédio?

- Tem, sim!

- E é de quantos quartos?

- Dois quartos mais a independência...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

O que não se sabe


Há sempre algo que não se sabe.
E há o medo do que não se deve saber.
Junto com a curiosidade.
E por mais que se queira
e por mais que se tente
e por mais que se imagine
e por mais que se fuja,
o que não se sabe é sempre maior.
Não se alcança.
Não se deixa ver.
Pode ser um pouco de tudo
ou muito de pouco,
é sempre mistério.
Segredo que não se conta.
Segrega.
Não se explica,
não se expõe,
não se compromete.
Não promete.
Apenas se esconde
diante dos nossos olhos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Love you too

Talvez a melhor maneira de sabermos de nós mesmos seja através daqueles que amamos. Não pelo que eles têm a dizer a nosso respeito, mas pelo que eles são. Porque o que eles são está refletido em nós de alguma maneira. Somos espelhos de quem nos cerca e também podemos nos ver nesses outros.

Um gosto pelo cinema, interesse pelos mesmos assuntos, sonhos que se aproximam, exatamente a mesma mania, hábitos construídos juntos, o mesmo "defeito de fábrica", expressões idiomáticas que ambos usam. Nem cabe inumerar o que nos torna semelhantes a alguém ou quando ou como.

Algo de nós está naquele amigo, naquele amor, naquele irmão. Algo que talvez nem consigamos identificar com facilidade. Ainda assim, é o que nos torna cúmplices. É o que torna aquele indivíduo diferente para nós, especial.

Dentre tantas pessoas no mundo, tantas pessoas que passam em nossos dias, quantas são as que amamos? Por que as amamos? Porque amamos o que de nós há nelas. E passamos a amar o que elas despertam em nós.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Se

Se desculpar fosse redimir
Se chamar fosse ser atendido
Se estar ao chão não fosse cair
Se amar fosse ser correspondido


Se abrir os olhos já fosse viver
Se perguntar fosse ter respostas
Se recuar não fosse conter
Se virar não fosse dar as costas


Se correr não fosse fugir
Se jogar não exigisse apostas
Se esconder não fosse mentir
Se promessas fossem propostas


Se para encontrar não precisasse ter perdido
Se apenas pensar já fosse dizer
Se a paixão tivesse sentido
Se desejar fosse igual a ter


Se sonhos fossem realidade
Se não fosse tanta hesitação
Se chorar não fosse fragilidade
Então teria sido verdade,
E não (des)ilusão.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nossa Majestade

Quem é que nunca foi conquistada por uma música do Roberto Carlos? E quem não foi, quem não gostaria de ser?

Brega ou não, o negócio é que o tal rei sabe dar pano pra manga de muitos conquistadores. Enfeita os discursos e as desculpas de vários homens, sensíveis a outro que sabe expressar em música os sentimentos que as mulheres gostam de ouvir.

Tantos casamentos com a trilha “Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você...”

As letras dele aceitam até erro de concordância verbal, que tá tudo bem! (“Que foi que eu fiz pra que você me trate assim?”)

Quer dançar? “Festa de arromba”!

Rezar? “Jesus Cristo”.

Até quando o caso é de recomeçar pós-fim-de-relação, o cara tem as palavras... “Preciso acabar logo com isso / Preciso lembrar que eu existo, eu existo, eu existo.....”

Isso pra não falar da estrada de Santos, do ciúme, da mulher de 40 ou da mulher pequena, da namoradinha de um amigo meu... Enfim! Que tudo mais vá pro inferno! A minha preferida ainda é a usada para ME conquistar... “Promessa”:

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Meu amor e um travesseiro


Minha mãe mandava eu me aconselhar com o travesseiro quando eu era pequena. Não sei se era essa a razão, mas sempre fui muito apegada a ele. As crianças, normalmente, são apegadas aos seus travesseiros, dando-lhes inclusive um apelido carinhoso. Eu chamava o meu de “Nana” (som de ã no primeiro a). Letra maiúscula mesmo, pois era um bom amigo. Enxugava minhas lágrimas infantis e me despertava com conforto. Tinha cheirinho bom de sonho.

Carreguei o tal Nana comigo por muitos anos. Não admitia trocas. Apego não combina com substituição. Isso se estendeu até a adolescência (nem pense em ácaros! Eles também já eram meus amigos), até eu fazer uma viagem para visitar minha irmã e seu filho pequeno. O menino pedia sempre para dormir com o meu Nana. E eu deixava, durante todas as noites que passei na casa deles.

Na hora da despedida, com o Nana embaixo do braço, vi a carinha dele, triste por ter que ver indo embora tia e Nana. Foi assim que resolvi transferir um pedacinho do meu amor por ele na forma daquele travesseiro. O carro foi se afastando e eu o via abraçando com força o presente que a partir de então afagaria seus sonhos. Era um jeito de continuar ninando meu sobrinho à distância.

De lá para cá, passaram-se catorze anos. Meu sobrinho, agora, já tem até barba no rosto de homem. E minha alegria de tia é chegar no quarto dele e ver que, no meio de outros travesseiros, o Nana continua lá. Para dormir, ele ainda gosta do mesmo cheirinho de sonho que embalou nossas infâncias.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mente sem lembrança

Se a vida imita a arte, a minha bem que poderia dar uma de Sétima Arte... Mais especificamente, "Brilho eterno de uma mente sem lembrança".


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pele das mãos

O cheiro da tua pele
nas minhas mãos.
Tua pele
nas minhas mãos.
Pelas minhas mãos,
tua pele.
Na minha pele, tu
nas minhas mãos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

De olhos fechados, te observo.
Respiro teu rosto.
E tudo de ti cabe no espaço
das minhas pálpebras fechadas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Em oração


Fé pode servir para o que quer que queiramos (ou não queiramos). Fé para o que se quer, para o que não se quer... Ela tem que estar sempre do nosso lado.

Símbolo da fé, a gente aprende a rezar desde muito cedo, normalmente com a mãe, no caso de uma família religiosa. As orações de criança são sempre as mais sinceras. Eu rezava pela minha família, rezava para que o Papai-Noel visse quando eu fazia as coisas certas e para que ele estivesse dormindo quando eu errava (não sei para vocês, mas, para mim, Papai-Noel era onisciente).

Depois, passei a rezar para ser tão bela quanto a mais linda da escola e para ser tão inteligente quanto todas as minhas professoras juntas, e, se não fosse pedir demais, para ter um namorado super legal em algum momento da atribulada adolescência. Nessa idade, a gente realmente tem muita fé. Fé de que vai mudar o mundo e os pais, fé em todos os novos amigos, fé de que se está fazendo tudo certo e de que nada de ruim pode nos acontecer.

Então vieram as orações de gente grande: para não faltar grana, nem trabalho, nem saúde, nem amor. Ficamos menos pretensiosos: não faltar já está de bom tamanho! Junto disso, os agradecimentos. E as dúvidas. Porque, nessa altura, já não tinha certeza se realmente havia um Deus ouvindo tudo isso.

Mas acontecem fatos na vida das pessoas que comprovam que Ele realmente está por aí, em algum lugar, ou que, na verdade, nunca houve Deus algum. Comigo aconteceu a primeira opção. Isso explica o fato de as orações ainda fazerem parte dos meus dias ou das minhas noites. Orações cara-de-pau, daquelas que continuam pedindo mais que agradecendo, na maioria das vezes, cansando os ouvidos de Deus com as mesmas angústias e os mesmos nomes. Os pedidos é que mudam. E, através deles, percebo o quanto eu também vou mudando. E as minhas prioridades. Porque, antes, o pedido era “para sempre”. Agora, é “nunca mais”. Basta esperar para ver com qual deles Deus vai concordar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Melhor que sonhar

Abrir os olhos e te ver
é voltar à vida
e não querer dela sair
nem para sonhar.

Abrir os olhos e te ver
é melhor que sonhar.

É te ter ao alcance de um beijo
É te tocar no calor do agora
Respirar teu sonho
Saciar tua fome
Completar tua frase.

Ter teus olhos e tua boca
no mesmo verso.
Ter teus olhos.
Ter tua boca.

É te estudar
Medir tua força ao me segurar
Contar palavras
e perder-me sem falar

Brincar de céu
e ser tua estrela
Estrela do mar

Mar dos teus olhos
do teu peito aberto
Mar que te traz pra perto.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pensando nos amigos e amigas...

Foi minha prima-amiga quem pediu, mas a ideia de escrever um texto especialmente para esse Dia do Amigo é antiga. Pensei, pensei, pensei em algo sobre a amizade que se adequasse a todos, com o qual todas as pessoas se identificassem, mas a única coisa na qual eu conseguia pensar quando o assunto é “amizade” era nas minhas amigas e amigos. Tudo bem que já está quase no finzinho do dia... (Ops! Já passou da meia-noite!) Mas amizade não depende de datas.

Fui lembrando de cada uma de minhas amigas e da história de cada uma dessas amizades. E me dei conta de que, ao apresentá-las para outras pessoas, o adjetivo nunca é apenas “amiga”, sempre tem um complemento: “essa é minha amiga X, da faculdade”, “essa é minha amiga Y, do trabalho”, “essa é minha amiga N, vizinha”. O tal complemento normalmente se refere à origem da amizade, que pode ser das mais remotas às mais recentes.

Tem amizade mais antiga e mais verdadeira que da própria mãe? Que orgulho dizer: essa é minha mãe e amiga! Amiga para todas as horas, para dar colo, para ajudar nas mudanças, para conselhos. Tão amiga quanto as amigas irmãs (de sangue mesmo). Amigas para sempre, de longe ou de perto. Como diz minha amiga-irmã Desirée: esse “casamento” é pra vida toda, para os momentos bons e para os ruins. Porque amizade também é um tipo de casamento, de união. Só dispensa o sexo e a convivência na mesma casa. Ou nem isso! Tantas amigas que moram juntas! Eu mesma já morei com uma amiga-ex-cunhada. Amizade também pode ser dividir as contas por algum tempo.

Lembro das amigas que intitulo “de infância”. A vizinha do prédio que não vejo há anos e que agora já comprou passagem para me visitar. A coleguinha de sala que continuou colega do magistério e que, apesar dos diferentes rumos, continua sendo a amiga do peito, mãe do meu afilhado e confidente incondicional. E as amigas que já eram crescidas quando eu ainda era criança, a amiga-cunhada, as amigas-primas para quem escrevi minhas primeiras cartas e com quem não abria mão de passar o maior tempo possível. Aliás, uma delas já gerou minha amiga-priminha, a linda Roberta que estampa a porta da minha geladeira e me enche de saudades. São amigas de todas as gerações: desde a mãe de todas, a tia, até a mais novinha e encantadora.

Mas eu não acredito que amizade verdadeira exista apenas entre pessoas do mesmo sexo. Além do meu amigo-irmão (o melhor de todos!), tenho meus amigos do tempo do mestrado, mesmo que a proximidade já não seja a mesma. O negócio é que amizade não se exclui da lista de contatos. E os amigos que são ex-alguma coisa: ex-cunhado, ex-concunhado, ex-colega, até ex-namorado, se isso não parecer muito surreal. Amigo que começou apenas virtual, amigo-primo (família é isso mesmo!), amigos-sobrinhos (meus amores para sempre!).

Tantos amigos e amigas na minha vida, que seria demais listar a história de todos. Como descrever o momento em que comecei a gostar daquela menina que me detestava nas “reuniões-dançantes” da antiga Cruz Alta? Como explicar que aquela passageira do ônibus percebeu que eu não estava bem e me ofereceu sua amizade, que eu continuo aceitando? E as colegas do pós, de quem não me desgrudo mais? Sem falar nas amigas das amigas, da irmã, ou de quem quer que seja, que acabam se tornando nossas amigas também. Tem como dizer que existe um tempo para determinar se uma amizade é consistente? Há um lugar ideal para se fazer amigos?

Eu, pessoa tão positiva, digo NÃO a essas perguntas. Porque minhas amigas e amigos me provam que não há tempo nem espaço nem explicação para amizade. A amizade se instala em nós independente disso. Sem pensar, sem questionar, sem perceber. Quando nos damos conta, somos amigos. E, uma vez amigos, nos tornamos melhores e aprendemos a dividir sem perdas. Apenas ganhos. E a certeza de que, se existe algum amor que é para sempre... é o amor-amigo.

domingo, 12 de julho de 2009

Prefiro dormir na total escuridão.

Mas é o escuro onde se hospeda

tudo o que não sei sobre você

que tira o meu sono.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Passeando em Salvador

Noite de acarajé, turistas por todos os lados e o pequeno painel:



- Gente, o que é fundim?

- Como que você não sabe? É super comum lá no Sul! É aquela comida preparada numa panelinha, pode ser de carne, queijo, chocolate...

- Ah!!! Fondue... Claro!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

DIÁLOGOS IV


(Amiga 1) – Adoro passear no shopping!

(Amiga 2) – Ui! Eu não tenho paciência. Só vou pro shopping com objetivo específico.

(Amiga 3) – Eu também! E pior que, antes de ir, visualizo exatamente o que eu quero. Se é uma saia, por exemplo, penso em todos os detalhes da saia que quero achar. O problema é que muitas vezes acabo não achando.

(Amiga 1) – Melhor ver as saias das vitrines.

(Amiga 3) – Não. Prefiro definir exatamente o que procuro. Do mesmo jeito que faço quando o assunto é homem...

(Amiga 2) – Sim... Exceto que, nesse caso, fica bem mais fácil encontrar a saia, né?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Una furtiva lacrima



É por uma imensidão de motivos - e também pelo vazio deles - que chego na hora definitiva da lágrima.
Essa lágrima que já chorava dentro de mim antes de sair.
Que não queria chegar ao extremo da fuga.
Não queria se perder de todas as outras que fatalmente conhecerão o lado de fora dos meus olhos.
Não é apenas dor que transborda.
É sangue que vaza incolor.
É o que há em mim de inocente, de crédulo.
Chorar é retornar um pouco à infância.
É esperar o colo e a cura.
É acreditar que é a última vez.
Mas a lágrima continua caindo e fugindo e se perdendo de mim.
Seca no rosto alterado.
Quase arde.
Quase queima.
Porque sempre dói.
A lágrima é sempre salgada.
Nenhuma lágrima sabe ser doce.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A bíblia de cada um

Ela chegou envolta por seu longo vestido azul-marinho, a pesada pasta de um lado e uma pequena bolsa de pano do outro. Caminhou lentamente entre os que ali estavam e dirigiu-se ao seu lugar, perto da janela, perto da luz, onde seus olhos conseguiriam alcançar a todos. Retirou os óculos da caixinha como quem não depende deles. Vestiu-os elegantemente dispensando-os, olhando por cima das lentes. Os óculos em seu rosto são adereços, não são necessidade. São o recorte que ela escolheu dar a suas leituras.

A bolsinha de pano ficou em cima da mesa e logo foi aberta, provando não ser o comum objeto feminino que guarda, além da carteira e do batom, tantos outros segredos. Aquela bolsinha de pano era a proteção de um grosso livro de finas folhas. Uma bíblia, a quem olhava distraidamente. Cheia de marcações, clipes, marcadores de página improvisados, observações escritas a lápis nas bordas. Até ela começar a ler alguns trechos e seus ouvintes entenderem que o livro tão bem protegido e tão amplamente lido não se tratava da bíblia, mas de Obras Completas de Carlos Drummond de Andrade.



Mas como se fora uma religiosa, ela sabia vários trechos de cor, by heart. E os dizia como quem lê profecias, a ensinar por metáforas. Sabia exatamente onde encontrar os versos que lhe traduziam. Sua doutrina é drummondiana. As fases do poeta são as divisões de um suposto velho e novo testamento. Farewell é seu apocalipse. Sua fé é toda naquela poesia.

Gauche, José, Carlos, e não Davi, Pedro, Judas. “As sem-razões do amor”, e não “Cântico dos Cânticos”. “Alguma poesia”, e não “Gênesis”. Ela não duvida de Deus, não desmente a bíblia. Mas, para ela, é em Drummond que ‘a poesia (inexplicável) da vida’ se revela.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Aquecimento global, Obama, voo 447, eleições no Irã, greve da USP, Fidel e Raúl, FMI, enchentes, Coreia do Norte, toque de recolher, Susan Boyle, CPI, crise mundial, Amazônia, Berlusconi, Olimpíadas 2014, José Dirceu, Osama, ENEM, Copa das Confederações, São João, Kaká e Real Madrid, Influenza A (H1N1), novas regras ortográficas, crise imobiliária nos EUA, venda da Chrysler, dengue, TV digital, Dilma Rousseff, reality shows, células tronco, parada gay, Sadia e Perdigão, Bovespa, Sarney, trânsito...
Fica tudo oco
quando tua boca preenche a minha.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Presente de Dia dos Namorados


Hoje, Dia dos Namorados, minha mãe ganhará um belíssimo presente. Ela ainda não sabe o que será, mas tenho certeza de que a deixará muito satisfeita. É assim que tem acontecido nas últimas datas comemorativas do calendário. Natal, Páscoa, Dia das Mães, Aniversário... Todos esses dias são motivos para um novo presente. Às vezes ela é presenteada sem que seja nenhuma data especial, apenas pelo prazer de presentear.

E isso tem lhe acontecido especialmente de poucos anos para cá, depois que ela se separou. Após esse evento, todos os presentes lindamente embalados foram sempre acertados. Nunca ela precisou trocar, nunca abriu o pacote e deparou-se com algo que não gostava. Têm sido os melhores presentes. Trazem os mais abertos sorrisos para sua face. Roupas, sapatos, bolsas, livros, viagens. Uma ida ao cinema, um jantar especial, um café da manhã caprichado.

Minha mãe, depois que se separou, decidiu dar presentes a si mesma em todas as datas. Percebeu o quanto ela é merecedora dos melhores presentes, de mimos, de carinho. Ela não deixa passar nenhuma data em branco. E a impressão que eu tenho é que ela nunca fora presenteada com tanto amor como agora.

(A ela e a todos, um Dia dos Namorados em que saibamos presentear a nós mesmos...)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

P&B

Como é bom ter o recurso de poder bater uma fotografia em preto&branco!

O preto&branco disfarça aquilo a que não queremos dar destaque. Em dia de olheiras, de espinhas indesejadas, de marcas na pele, de cabelo oleoso... O preto&branco é a solução!

Com o preto&branco, os defeitos se tornam imperceptíveis. Ninguém vai reparar no que não está bem e tudo vai parecer ainda melhor do que realmente é.

Se a imagem colorida não está muito boa, muda-se para o preto&branco e tem-se um efeito clássico, sem falhas, com um toque de nostalgia de um momento tão único e tão aprazível aos olhos.

A minha lástima é de ter o efeito preto&branco apenas na máquina fotográfica. Às vezes a vontade é de olhar a vida com lentes de preto&branco, deixando os defeitos – próprios, alheios e do mundo – meio escondidos, e admirar o belo que se apresenta.

Há defeitos em tudo. E quando a nossa lente está muito fixada nos erros, pode ser melhor fechar os olhos e reabri-los numa perspectiva oportunamente preto&branco.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Diálogos III

(Amiga 1) – Mas tem tanta opção por aí... Se não dá certo com um, tenta-se com outro!
(Amiga 2) – É... Tem opção, sim. Nem tudo está perdido.
(Amiga 3) – Mas olha, eu cheguei a uma conclusão: Todos os homens, mais cedo ou mais tarde, vão pisar na bola mesmo e vão nos fazer sofrer. Inevitavelmente.
(Amiga 2) – Mas e aí? Não tem solução?
(Amiga 3) – Solução, não. É apenas uma questão de escolher com quem você vai se f...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Noite de balada


Estava doida para curtir uma festa. Caprichou na maquiagem, no vestidinho que recém comprara, no sapato alto (nada como um salto para elevar a auto-estima feminina). Iria com as melhores companhias, as amigas sempre bem-humoradas e alto astral. Sair naquela noite significava provar para si mesma que ainda sabia se divertir, que não estava tão velha assim e – quem sabe? – que ainda poderia ser desejada.

O lugar mais badalado da cidade. As pessoas mais lindas. As melhores músicas. Os melhores drinks. Divertia-se, mas entendeu que aquela história de ser arduamente desejada não seria tão fácil diante de todas aquelas outras mulheres bem mais jovens, bem mais magras, bem mais produzidas que ela.

“Dance like no one’s watching” foi do que ela lembrou. Diversão garantida no embalo desordenado do seu corpo. Entregou-se à cadência, esqueceu todo o resto do mundo, fechou os olhos e dançou. Apenas dançou. Perdida na música, sentiu as mãos dele entrelaçando sua cintura, entrando no ritmo dela, admirando-a como se fosse a mais encantadora de toda a festa. Ele não desviou os olhos. Apenas dançou. Junto com ela.

Com uma rapidez inesperada, ela virou as costas e correu. Ele tentou acompanhar. Ficou o tempo de muitas músicas diante do banheiro esperando que ela retornasse de lá. Ela tinha certeza de que ele já estaria dançando com outra. Lastimou-se e saiu, já com a chave do carro em uma mão e a outra segurando a alça do vestido arrebentada. A festa terminara assim.

À porta do banheiro, lá estava ele. Ela queria morrer de vergonha. Como é que se explica isso? Mostrando a ponta da alça, disse com ar de derrota:

– Desculpa, tenho que ir. Meu vestido arrebentou.

– Espera! – foi o que ele respondeu, tomando posse da alça.

Ela tremeu. Visualizou a cena patética de seu seio à mostra no meio da maior balada da cidade. Paralisou. Só depois do choque imaginário conseguiu entender o que estava havendo. Nada escandaloso. Ninguém mais prestava atenção nela. Apenas ele, que estava amarrando a alça ao bojo do vestido. Acabou com a estética. Fez um nó ridículo. O coerente ainda era ir embora.

Ela, sentindo-se incomparavelmente linda naquela roupa improvisada, deu a mão a ele e decidiu que ainda não era hora de parar de dançar.

sábado, 30 de maio de 2009

Tarde de maio


"Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos."



(Trecho do poema "Tarde de maio", de Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 26 de maio de 2009

domingo, 24 de maio de 2009

Certeza

E tem como duvidar de amor para sempre
quando existe essa coisa maravilhosa a que chamamos FAMÍLIA?

:)

domingo, 17 de maio de 2009

ROSA

Deu-lhe uma rosa
que sarro!
a rosa ao contrário
é asor,
que até parece amor,
mas a rosa é toda prosa
não é prova
de amor.
Rosa não dosa
nem cura a dor.

sábado, 16 de maio de 2009

Meu número não mudou

Conheço um cara, que já me foi muito próximo, rosto e corpo de garoto, mas deve estar tão perto dos quarenta quanto eu dos trinta. Atualmente, creio que nos falamos cerca de três ou quatro vezes por ano. Não nos gostamos menos que no passado, apenas nos distanciamos pelos próprios rumos que escolhemos ou nos impuseram.

Tendo mudado o número do meu telefone celular muito recentemente, e querendo notícias dele, telefonei. Não precisei buscar o número em qualquer agenda telefônica, fosse ela de papel ou digital. Eu ainda o tenho em minha lembrança. Tantas coisas já aconteceram em nossas vidas nos últimos quatro ou cinco anos, tempo contado desde que entramos nesse processo de afastamento, ele sorri e pergunta: “Mudou o número de novo, guria?”. Mudei. E esse, aliás, é um dos motivos pelos quais nos falamos durante o ano.

Aí lembrei que o número dele permanece o mesmo desde a primeira compra de aparelho celular. Fazendo as contas, embora minha matemática não seja muito evoluída, isso já deve ter uns bons dez anos. O aparelho já mudou, mas o número continua. De repente, me dei conta do quanto manter – ou não – o número de celular diz de alguém.

Está cada vez mais facilitada e frequente a migração de uma operadora para outra. Aparece uma promoção melhor, um plano mais vantajoso e lá vamos nós, com aparelho celular em mãos, tentar gastar menos e ter melhor qualidade com outra empresa. Tudo bem que hoje é possível manter o número, apesar da mudança de operadora, mas isso é recente. Além do mais, há outros motivos para que os números sejam alterados: muda-se de cidade, de Estado, de parcerias.

Quando esse meu amigo comprou seu aparelho – e seu número – foi em conjunto com sua então namorada. Os números combinavam, como os olhares entre os dois. Mudava apenas um dígito. Os amigos que soubessem o número de um, automaticamente saberiam o número do outro. Os aparelhos eram iguais e eles podiam se ligar gratuitamente, conforme a promoção vigente no período da compra. Mais uma demonstração do quanto queriam estar juntos, do quanto estavam conectados. Tanto, que logo veio o noivado e o casamento. Eram o primeiro amor um do outro. O tipo de primeiro amor que estava dando certo.

Mas algo começou a mudar. A vidinha que ambos haviam sonhado e estavam vivendo já não bastava a ela. Sentindo-se cada vez mais desconfortável e com ânsia de mudar, mudou. De estado civil e de número de telefone. Logo ela já estava em outra operadora, com novo número de celular e novo amor.

Ele não. Ele não aceitava. Ele resistiu. Ele não queria mudar. Ele não sabia mudar. Ficou ímpar, ele e seu celular, na expectativa de voltarem a formar aquele casal, ele com ela, números querendo ser par. Ela nunca mais voltou. Nem seu número. Com o tempo, ele até acabou gostando de uma outra pessoa também e desistiu de resgatar o casamento que ele mal vira se perder. Mas o número... Esse nunca conseguiu mudar. No fundo, ele ainda tem esperança naquela antiga combinação.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

I love it!


Família. Ler manuais. Aroma de café. Rever quem amo. Escrever. Demonstrações de amor. Comprar passagem. Ganhar presentes. Dar presentes. Crianças. Flores do campo. Sexo. Brigadeiro de colher. Filmes. Longos telefonemas. Cartões. Emagrecer. Comprar artigos de papelaria. Comprar livros. Cheiro de livro novo. Fotografia. “Lagartear” no sol, depois do almoço, em dia frio do Sul. Me perder no calendário. A 9ª Sinfonia. Beijo demorado. Receber carta. Achar dinheiro em bolsos. Boiar. Tomar chimarrão. Receber visitas. Cafuné. Fazer palavras-cruzadas com minha mãe. Tomar café da manhã. Conversar. Canastra. Escutar música. Cozinhar. Hidratantes. Roupa nova. Gentilezas. Churrasco. Mar. Temaki. Dormir de edredom, de preferência em dia de chuva. Suspiro profundo da She-ra antes de dormir. Desafios. Marquinha de biquíni. Chicabon. Cheirinho e chá de erva-cidreira. Torpedos. Senso de humor. Embalo de rede. Massagem. Malzbier. Cappuccino. Lençol térmico no frio. Poesia. Barzinho com amigos. Domingo em família. Banho quente. Meus livros. Apelidos carinhosos. Ficar de pijama/camisola em casa. Falar com Deus. Promoção da TAM. Produtos de limpeza. Fazer aniversário. Dirigir cantando. Sentir friozinho na barriga. MSN com webcam. Museus. Viajar. Dançar. Meu signo. Google. Romantismo. Natal e Ano Novo. Meus travesseiros. Ensinar. Surpresas. Parque de diversões. Sonho bom. Livraria. Festa de casamento. Perfume. Usar decote. Velhinhos. Comentários no blog. Artesanato. Estrela cadente. Acesso de riso. Pés descalços. Irmãos. Sonhar acordada. Começar tudo de novo.

I hate it!


Barulho de furadeira, de avião e de carro de Fórmula 1. Ficar sem dinheiro. Engordar. Sentir saudade sem poder matá-la. Tristeza em quem amo. Tristeza. Acreditar em mentiras. Cólica menstrual. Gasolina acabando. Gripe no verão. Unha quebrada. Pontas duplas. Sinal de ocupado. Caixa postal. Falha na conexão. Atrasos. Falta de inspiração. Falta de carinho. Dirigir em dia de chuva. Conta de telefone. Cobranças (de todo tipo). Não saber o que dizer. Falta de água. Desperdício de água. Seção de esportes do jornal. Lixos misturados. Arrogância. Esquecer palavras. Esquecer aniversários. Sentir frio. Sentir-se inútil. Quebrar coisas. Bater o dedinho do pé no móvel. Morder a língua. Maquiagem borrada. Errar a receita. Heavy Metal. Cebola em conserva. Gosto de alho. Perder objetos. Lavar tênis. Fila. Faustão. Promessas não cumpridas. Gente falando durante o filme. Vírus no computador. Lã direto no corpo. Passar roupa. Fanatismo. Comprar algo e descobrir logo depois o defeito. Lixo no chão. Horário político. Torta de limão. Ser acordada quando recém peguei no sono. Desfazer malas. Pagar excesso de bagagem. Sapato de salto sem taco. Errar. Cuidar de plantas. Mofo. Queimar a boca. Dor nas costas. Celulite. Esquecer letras de músicas. Tomar remédio. Cabelo na pia. Discriminação. Sabor Califórnia. Grosseria. Prazos. Panetone. Lavar panelas. Ler por pura obrigação. Vomitar. Roupa manchada. Apostar. Brigas. Acordar cedo. Aranhas. Machismo. Mania de limpeza. Filme dublado. Arrependimento. Internetês. Não entender. Ser mal interpretada. Celular sem crédito ou sem bateria. Tirar a maquiagem depois da festa. Cerveja quente. Ser a última a saber. Espinhas. Cabelo embaraçado. Soluço. Caminhar na areia de chinelo. Violência. Meia-calça rasgada. Ronco. Chá verde. Dormir de meias. Perder o sono. Morte.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Dizem que quem ama tem medo de perder.

Esquecem de dizer que perigo maior é perder-se de si mesmo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

"Toda mulher já nasce mãe"


Dia desses, saindo da Universidade, me deparei com um outdoor cuja nova campanha publicitária fora criada especialmente para a data que se aproxima: o Dia das Mães. Até aí, nada de novo. O negócio é que a campanha trazia uma menininha segurando carinhosamente uma boneca e, ao lado, a seguinte frase: “Toda mulher já nasce mãe”. Foi nessa frase que o meu olhar parou. A colega ao meu lado não gostou de colocarem uma menina negra segurando uma bonequinha branca de olhos azuis, mas aí é tema para outras divagações. Meu foco, por ora, fica naquela frase...

Entendo que o laboratório ao qual a propaganda se refere tenha tido a intenção de destacar o tipo de cuidado que as mulheres têm com os outros, que é teoricamente diferenciado do cuidado que os homens têm. Mas a afirmação “Toda mulher já nasce mãe” foi um tanto quanto infeliz. Será que em agosto eles farão algo do tipo “Todo homem já nasce pai”?

Tomo a liberdade de seguir esse raciocínio, uma vez que fica subentendido que a mulher, pelo simples fato de ser mulher, será mãe. Para mim, isso apenas demonstra o conceito social ainda tão vigente de que as mulheres só se tornam mulheres realmente completas quando se tornam mães. Não importa se é uma batalhadora, bem sucedida, inteligente, bem resolvida emocionalmente ou qualquer outra coisa. É preciso ser mãe.

E se ela não quiser? Vai ser menos mulher porque não quer ser mãe? Já conheci casais que tomaram a decisão de não ter filhos. Conheço mulheres que estão muito bem decididas a nunca se tornarem mães. Mas quando elas expressam tal decisão, sempre rolam comentários como: “É mesmo? Mas por quê?”. Ninguém pergunta para uma mulher grávida: “Você decidiu ficar grávida por quê?”. A subversão é a mulher optar por não colocar mais uma criança no mundo. Há quem pense que ela deva ter algum problema ou que seja uma insensível. Ser uma opção de vida ainda é muito duro de ser aceito como “normal”.

Aí tem também a questão do romantizado instinto materno. A menininha brinca de boneca e já se vê ali o famoso instinto materno. Nem passa pela cabeça das pessoas que ela possa simplesmente estar refletindo suas próprias relações familiares na brincadeira... Mas bem, depois de ter escrito uma dissertação em que trato disso, eu garanto: instinto materno não é inato, é desenvolvido. É fato que as mães fazem coisas incríveis pelos filhos, coisas que muitos pais não fariam. Em geral, as mulheres são de fato a figura mais cuidadora perante os filhos, mas isso não é regra. Tanto não é, que a gente vê nos jornais e na TV incontáveis casos de mães que mais parecem ter raiva pelos filhos que amor. Mães que matam, mães que jogam o bebê no lixo, mães que espancam, que maltratam. Tem de tudo nesse mundo: mães e pais odiosos, e mães e pais exemplares.

Assim como existem homens que optam por não ter filhos (e isso não é tão largamente questionado), há mulheres que tomam essa mesma decisão. Isso não é defeito. É atitude. Atitude, aliás, que é tomada de maneira tão responsável quanto deve ser a de ter filhos. A escolha faz toda a diferença e valoriza ainda mais as mães, mulheres que tiveram a coragem de gerar vida. Mesmo que a gravidez tenha sido acidental, a gente sabe que há escolha. Portanto, fica registrado meu desacordo com a tal campanha do outdoor. As mulheres não nascem mães, mas poderão tornar-se. Se quiserem.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Depois da aliança


“Essa aliança só está ainda no meu dedo para eu não ter que dar explicações para as pessoas...”

Não sou eu que vou explicar, portanto, não revelarei o autor dessa frase. Mas, de toda a conversa, essa foi a sentença que tomou lugar em meus pensamentos. Em meio a um turbilhão de emoções, de dores, de lágrimas e de difíceis escolhas que um término traz consigo, ainda há de se pensar no que dizer aos outros – que não fizeram parte da relação.

Sim, as pessoas que nos amam se preocupam, querem saber, querem ajudar, querem aconselhar ou apenas ouvir. Mas há situações em que não se quer dizer nada a ninguém, que é para não ouvir de si mesmo a realidade. Tem horas que a vontade é de ser um superstar e ter um assessor de imprensa: “Divulga aí que foi incompatibilidade de gênios e não se fala mais no assunto”.

Dificilmente um término é suscitado por um único motivo. É uma série de razões. Listá-las e repeti-las apenas renova o sofrer. Isso quando é possível listar razões. Depois de um tempo, olha-se para trás e já não se tem mais certeza do que levou ao fim. O ponto final, por mais que pensemos o contrário, é muitas vezes involuntário e incontrolável. Os fatos nos atropelam. Passado o susto – ou durante – cada um dos dois se percebe sozinho e em pistas diferentes.

É na árdua tentativa de voltar a caminhar que fica latente a pergunta: Como explicar o que o próprio coração ainda está tentando entender?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Diálogos II


Ele: Quem está cantando?
Ela: Carla Bruni.
Ele: Quem é Carla Bruni?
Ela: É uma italiana, criada na França, ex-modelo, de família tradicional. É linda, tem essa voz sensual que você está ouvindo, já teve vários homens maravilhosos, é rica e agora está casada com o Presidente da França.
(Pausa)
Ela continua: Eu inclusive estou muito a fim de criar uma comunidade no orkut: “Quero ser Carla Bruni”.
Ele: Poxa... Nesse caso, vou criar a comunidade “Quero ser o Presidente da França”!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Diálogos (I)

Ele: Então, vamos conversar.
Ela: Ah, finalmente! Vamos conversar!
Ele: Então...
Ela: Então!
Ele: O que você queria falar?
Ela: Você queria falar!
Ele: Sim, eu queria falar porque você queria falar.
Ela: Bem, agora eu quero ouvir.
Ele: Você não tem nada pra falar?
Ela: Eu quero saber o que você tem para me falar.
Ele: Mas eu não tenho nada! Você é que sempre quer conversar sobre as coisas.
Ela: Eu? Mas se foi você quem chamou!
Ele: Porque eu sei que você sempre quer falar. Não quer falar?
Ela: O que você quer que eu fale?
Ele: Não sei! Qualquer coisa! Por mim, a gente nem precisaria conversar.
Ela: Viu? Você nunca quer conversar!
Ele: Eu estou conversando.
Ela: Me deixa sozinha.
Ele: O quê?
Ela: Saia. Não quero mais falar sobre isso.
Ele: Mas... Sobre o quê?
Ela: Viu? Você não presta atenção em uma palavra do que eu digo!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Medidas

São breves os momentos bons.
O pouco que você dá
em troca do meu muito.
O problema não é o seu pouco.
Nem o meu muito.
É que nossas medidas
sempre foram diferentes.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A grande "sacada" de Eça



Fazem parte do inconsciente popular histórias contadas há séculos, como a da Odisseia de Ulisses, ricamente contada por um famoso Homero, ou o que quer que se entenda por Homero. Os 24 cantos da Odisseia narram várias aventuras, falam de inúmeros deuses e outros personagens que são fonte de inspiração de ficcionistas até hoje. Quem já não ouviu falar da fiel Penélope, que esperou por mais de vinte anos o regresso de seu marido Ulisses, que tecia de dia e destecia à noite um manto, protelando a pressa de seus pretendentes?

Pois bem. Penélope foi realmente admirável por tanta perseverança e astúcia. Passou pelo olhar atento e disfarçado do marido, que a observava sem se revelar, testando a fidelidade da esposa. Acontece que antes disso, muitos anos antes, contou Homero que Ulisses, indo e vindo pelo mundo, acabou na Ilha de Ogígia, onde foi amorosamente acolhido pela deusa Calipso. Por oito anos, Ulisses ficou por lá, usufruindo de todo o conforto que a linda deusa lhe proporcionava, com as melhores ceias, as melhores roupas, os melhores vinhos e intermináveis noites de amor. Deuses são imortais. Ulisses poderia ter tido aquela boa vida para sempre. Mas ele não quis. Escolheu voltar para os braços de Penélope.

Pensando nisso, Eça de Queiroz inteligentemente escreveu o conto “Perfeição”, tratando justamente dos motivos que levaram nosso heroi homérico a escolher pela mortal Penélope. Ulisses tinha tudo o que se pode imaginar em Ogígia. Era paparicado por uma deusa linda e loura. Era banhado por ninfas diariamente. Não precisava se preocupar em prover os mantimentos do casal porque a deusa, naturalmente, estendia sua magia à ilha, na qual nada do bom e do melhor faltava.

Eça, escritor português do século XIX, era, antes de tudo, um homem, e compreendeu Ulisses. Na versão dele sobre essa história, o que incomodou o “Príncipe dos Povos” foi exatamente toda essa perfeição da deusa e de tudo o que a cercava. Ele queria “uma humana Penélope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre de ventos contrários!” (QUEIROZ, Eça. Obra Completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1997, p. 1595).

Eu já desconfiava e o Eça veio apenas para confirmar. Homem algum está interessado na perfeição feminina. Eles não querem a sempre linda, a sempre certa, a sempre sábia. A mulher não precisa ser a melhor na cama, na cozinha, no lar e no trabalho. Eles anseiam pelas imperfeições, pelas falhas. É um modo de sentirem-se melhores, de afirmarem-se homens. De ser, de alguma maneira, a sombra de Ulisses. Porque, pensando bem, todo homem desejaria estar com uma deusa. Mas deseja, de todo o coração, que sua mulher seja uma Penélope.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

De instante

Beijos demorados
Mãos entrelaçadas
Um cafuné.
Pés misturados
Barba roçando
Abraço quente
Massagem.
Descanso de pernas
Cabeça no ombro
Coberta de corpo.

Hoje,
não precisa encostar.
Nada de toques.
Distancie-se
Deixe apenas sentir
Sua respiração
No meu pescoço.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Whatever!

É impressionante como ela não desiste de mim. Não me larga! Se fosse qualquer outra, já teria me transformado em passado. Mas ela não. Ela embestou em mim e pronto. Já me viu chorando por outra pessoa. Já me viu inclusive com outras pessoas. E ainda assim ela me quer por perto. Já briguei com ela. Várias vezes. Xinguei. Perdi a paciência. Ela não se afasta. Não abandona a ideia de conseguir dormir comigo. Insiste em querer estar ao meu lado, mesmo que em silêncio. Nunca tive isso... alguém que não se importa com meus desleixos, que aceita o pouco que posso lhe dar e que ainda beija os meus pés. Ela gosta de sentir meu cheiro em minhas roupas. Gosta das mesmas comidas que eu. Gosta de deitar a cabeça na minha barriga e deixar a minha respiração embalá-la. Às vezes eu a deixo por horas, dias. Penso que ela então partirá e esquecerá. Ela não parte. Ela não desiste. E ao invés de me agredir quando retorno, recebe-me na maior alegria. Alguns podem achar que isso é masoquismo da parte dela. Não acho. Acho que ela é a única que gosta do que eu realmente sou. A única que me enxerga com clareza. E que se propôs a ser minha. Não interessa o que os outros pensam. Sim... É apenas um bichinho. Whatever! Agora sou eu que não consigo largá-la.

sábado, 4 de abril de 2009

Um show (!)


Quis tanto e ontem eu consegui: fui ao show do Marcelo Camelo. Gravação do DVD. Não teve aquela história de “errou, faz de novo” pra aparecer bonitinho no vídeo. Foi do jeito que foi, com alguns erros, com semibeijo da Mallu Magalhães, com a invasão de um fã, com tudo o que é um show de verdade. E foi lindo!

Mas como é interessante ir a um show e prestar um pouco de atenção ao que se passa em volta, e não apenas no palco. Todos que são fãs de carteirinha do astro da noite se fazem presente. Uma vez lá, e esperando ansiosamente o início do show, todos os comentários rolam em torno do trabalho do artista, da melhor música, de quem tem a gravação mais rara, de quem sabe mais da vida do cara. Apostas de qual será a ordem de apresentação das músicas. Sugestões do que deve ser incluído ou deixado de fora. Qualquer um vira produtor nessa hora.

Aí o show começa. É quando a gente se dá conta de que aquela ideia de curtir o som, de escutar a voz que você só conhece por meio de um CD, não vai ser bem assim. O público se entusiasma de um jeito, se deixa levar por tamanha emoção, que canta junto, palavra por palavra, letra por letra, todas as músicas. Até o instrumental é imitado por uns e outros, que gritam na tentativa de se aproximar do som do violão, da bateria, de qualquer instrumento que esteja tocando no momento.

Com Marcelo Camelo não consegui me deter apenas nele e em sua timidez cantante. Os fãs disputaram minha atenção e meus olhares. Quando uma nova música começava, a vibração vinha pelo chão, pelo ar, pelo embalo. Cada um dos presentes sentia-se em dueto com Camelo. Não existe ridículo nessa hora. Existe cumplicidade com a letra, com os acordes, com o sentimento despertado pela música. Mesmo que cada um evoque seus próprios sentimentos.

Ouvindo atentamente a letra de uma das canções dele, cantada por um fanático entusiasmado ao meu lado, fiz toda uma nova interpretação do que a música poderia dizer. Ele se apropriou da canção e eu fiquei mais tocada com a versão daquele cara desconhecido no meio da multidão que com as várias vezes que escutara a mesma melodia no meu CD.

Assim, esse show me valeu para voltar a pensar no poder que uma boa música pode ter. Na quantidade de gente que se sensibiliza com o belo. Que canta e se encanta e não está nem aí em ser desafinado. A magia não está tanto na voz e em todo o conjunto de fatores que fazem uma música de qualidade. Está no modo como nos alcança e em como ficamos depois dela.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O amor é fodido


“Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Prejudica o amor que muitas vezes o antecede. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Cada um tem o amor que tem, fora dele. É esse afastamento que nos magoa, que nos põe doidos, sempre à procura do eco que não vem. Os que vêm são bem-vindos, às vezes, mas não são os que queremos. Quando somos honestos, ou estamos apaixonados, é apenas um que se pretende.

Tenho a certeza que não se pode ter o que se ama. Ser amado não corresponde jamais ao amor que temos, porque não nos pertence. Por isso escrevemos romances - porque ninguém acredita neles, excepto quem os escreve.

Viver é outra coisa. Amar e ser amado distrai-nos irremediavelmente. O amor apouca-se e perde-se quando se dá aos dias e às pessoas. Traduz-se e deixa ser o que é. Só na solidão permanece...

Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem que haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo".


Não tenho mais nada para escrever hoje. O Miguel Esteves Cardoso, em seu livro “O amor é fodido”, já disse tudo. Ou mais. É isso... Resolvi não me ocupar em dizer algo que esse escritor português já falou tão bem. O amor é fodido mesmo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DÚVIDAS

Havia dúvidas. Dúvidas sobre as escolhas, dúvidas sobre as pessoas, dúvidas sobre as próprias dúvidas.

Queria estar com ela, mas tinha dúvidas. Seria a mulher ideal? Seria para sempre? Seria um início ou seria o início do fim? Seria tudo o que ele havia sonhado?

Tantas dúvidas... Seria uma boa mãe para seus filhos? Seria o que ele imaginava que seria?

E mais... Seria mesmo amor?

Ele achava que já havia conhecido o tal amor. Havia passado por ele. Agora era outra coisa. Era diferente. Ou será que antes não era bem o que ele pensava que fosse?

Dúvidas. Dúvidas sobre os motivos. Os motivos dele. Os motivos dos dois. Por quê? Desde quando? Até quando? Encheu-se de dúvidas. Muitas dúvidas. Todas as dúvidas. Entendeu que as dúvidas seriam sempre duuuuuuuuuvidas. E que podem ser dádivas. E que podem ser súbitas. E que há

vidas

nas

vidas

(?)

segunda-feira, 23 de março de 2009

De mala e cuia


Há mais de dois anos saí do Rio Grande do Sul. A princípio, não fui para muito longe. Estava logo ali, em Santa Catarina. Conheci um pouco da cultura de Oktoberfests e dos pescadores da Ilha da Magia. Achei o sotaque simpático (“Visse a novela ontem??” É assim mesmo: “visse” ao invés de “viste”) e o povo foi muito acolhedor. Comi ostras e marreco recheado. Admirei as belezas do litoral catarinense. E nessas novas vivências, nunca abri mão de levar comigo o meu chimarrão.

Coincidentemente, a maioria das pessoas com quem convivi por lá era gaúcha. Os colegas de trabalho, as amigas de praia, os confidentes. Com raras exceções, estava cercada de outros gaúchos. Todos dividiam a cuia comigo. Na roda de mate, mal se percebia a distância do solo gaúcho.

Depois, fui de mala e cuia, literalmente, para terras ainda mais quentes. Acho fantástica a cultura baiana, com acarajés, capoeira e esse sotaque que embala. As praias são perfeitas e o sol nordestino consegue quebrar a brancura de minha descendência ítalo-germânica. Mas sempre chega aquela horinha, aquele final de tarde... e o corpo pede pelas origens, pelo que me habituei desde a infância. Não há água de coco que mate a sede de um chimarrão.

E mesmo tendo alguns poucos gaúchos por perto, ou mesmo que alguns raros baianos tentem me acompanhar nesse costume, na maior parte das vezes acabo mateando sozinha. É o meu momento RS. Meus goles de nostalgia. Mas antes que falem, já explico. O nome disso não é bairrismo. É cultura.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Cheque sem fundos


Tive a péssima experiência de ter meu talão de cheques furtado. Não sei quem foi. Não sei onde foi. Só sei que alguém o levou. E seja-lá-quem-for está passando cheques meus em diversos estabelecimentos. Cheques sem fundos. Depois de ver o rombo na minha conta, de perceber que não via o meu talão há dias e de tomar as atitudes necessárias, os cheques foram todos sustados. A partir disso, eu não terei mais prejuízo, mas muita gente por aí ainda está tendo.

Hoje vi que o último cheque que o ladrão passou foi no valor de dois mil reais. Fiquei pensando em quem recebeu esse meu cheque. Em quem confiou numa suposta Bianca, que assinou o meu nome, assumindo a minha conta bancária. Fez-se passar por mim. Ganhou a confiança do vendedor e saiu com a mercadoria, deixando um outro alguém muito pior que eu. A pessoa que recebeu o cheque acreditou que descontaria aquele valor. Estava contando com aquilo. E acaba se vendo de mãos vazias. Enganada. Roubada por um indivíduo que olhou em seus olhos, apertou sua mão, despediu-se satisfeito com o atendimento.

Nunca recebi um cheque sem fundos, mas imagino que a experiência deva ser muito frustrante. Assim, me ocorre que, na vida, não há apenas cheques sem fundos. Há pessoas que são exatamente assim: um cheque sem fundos. Aqueles que olham com ternura, que ganham a confiança, que ganham nosso crédito, que recebem o melhor da gente... E que, cedo ou tarde, se mostram uma farsa.

A gente acredita, deposita esperanças, se entrega. E não há retorno. Não há recíproca. Não há verdade. Quem recebe um cheque deve saber que está correndo o risco de ser vítima de um golpe. E quem recebe pessoas? Há de se pensar sempre em quem pode estar nos enganando ou não? É sempre um risco? É. É sempre um risco. E não há como saber exatamente o que virá. Não há garantias. Não há como saber o quão feliz ou quão machucado se ficará depois.

O coração não é como um banco, que dá ressarcimento. Ele poderá, inclusive, cobrar: “Como é que você foi acreditar nessa pessoa?”. Não há seguradora que ampare. Não há reparação. O único consolo é lembrar que, na maioria das vezes, os cheques que recebemos ainda têm fundos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Escovas de dentes


Há certas coisas que a gente, simplesmente, não empresta. Cresci com esses princípios e os segui à risca. Namorado, lógico, está fora de cogitação! Agora, os itens mais práticos da vida que aprendi a não emprestar em hipótese alguma: calcinhas e escova de dentes. Obviamente, também nunca pedi essas coisas emprestadas. Esqueci de levar calcinha na mala? Ou compro outra ou fico sem mesmo! (Afinal, nossa intimidade também merece respirar mais livremente... E é recomendação de ginecologistas!) E se esquecer a escova de dentes (coisa que só se vai lembrar na hora que se precisa usar), o jeito sempre foi dos menos eficazes: “escovar” com o dedo, fazer bochecho com a pasta de dentes... pelo menos disfarça o mau-hálito matinal!


Existe lógica nessas restrições. Os dois objetos entram em contato com partes muito particulares dos nossos corpos. Os micróbios que estão em minha escova de dentes são meus! Não que eu fique pensando neles... Mas são unicamente meus. Se eu usar a escova de dentes de outra pessoa, é como pegar mais uns micróbios emprestados de outra boca que não a minha. Ok... Num beijo essas trocas acontecem, mas é bem mais gostoso e é a dois!

Além do mais, escova de dentes é algo significativo. Não é à toa que se usa a expressão “juntar as escovas de dentes”. Tão romântico as duas escovinhas sobre o mesmo armário do mesmo banheiro!

E aí, pensei que estava preparada para levar a minha escova de dentes para essa nova fase. Achei que ela estaria preparada para deixar de ser a única no banheiro. E fui de coração feliz: eu, uma muda de roupas e minha escova de dentes. O clima de amor, de saudade, de ser a primeira de muitas noites juntos. Jantar, beijos, o caminho do novo lar. E a revelação: “Esqueci minha escova de dentes. Vou usar a sua, tá?”.

Como assim? Como vai usar a minha? Assim? Sem problema algum para a boca dele? E os meus micróbios?

Ele não se preocupou com nada disso. Usou minha escova com a maior naturalidade. E eu, mudando mil paradigmas em minha cabeça, usei-a logo em seguida. Esqueci os micróbios deles, os meus, esqueci toda essa bobagem. Naquelas alturas, eles já estavam em lugares trocados pelos beijos. Naquela noite, aprendi que “juntar escovas de dentes” é pouco. São vidas que se juntam. Juntam-se bocas, olhos, peles, corações. Depois disso, as restrições perdem a lógica.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Durma bem


É durante o sono que a gente cresce. A gente aprende mais e de modo mais efetivo se tiver uma boa noite de sono. Dormir faz bem pra pele. É relaxante. Ajuda na recuperação de doenças. É descanso. Dormir bem torna o dia mais produtivo, menos estressante. São algumas horinhas de paz. São as férias do consciente. Durante o sono, os batimentos cardíacos ficam mais lentos, os vasos relaxam e o fluxo do sangue melhora. Em outras palavras, dormir também faz bem pro coração. E é o meu que vive me levando pra cama, me ninando e me fazendo dormir. Ele quer esse incrível benefício do meu sono. Quer o remédio natural do tempo aliado ao sono. Quer relaxar. Quer acordar pra continuar batendo só depois que a ferida curar.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Que diferença faz?


No fim das contas, não fez diferença.
Não fez diferença todas as vezes que se importou.
Nem todas as vezes que perdoou.
Todas as missas a que assistiu.
Todos os bons conselhos que ofertou.
O esforço pelo desprendimento não fez a menor diferença.
Tampouco as vezes em que abriu mão de suas vontades pela dos outros.
Todas as vezes em que ajudou quem precisava.
As orações. A fé. O otimismo.
Os favores. A boa vontade.
Não adiantou a fidelidade nas amizades e no amor.
Não fez a mínima diferença ter sido sempre o melhor na escola, no trabalho, na foto.
Ser politicamente correto não ajudou.
Fazer sua parte pelo mundo foi o mesmo que nada.
Hora extra por trabalho ou por solidariedade.
Não fez diferença ter zelado, ter cuidado, ter acreditado.
Nem ter dado a volta por cima.
Todas as vezes em que ponderou. Que deu outra chance.
A paciência. A espera. A confiança. O tempo.
O estudo. A entrega. O parco reconhecimento.
Ter sido pontual. Ter respeitado.
Não fez diferença toda a honestidade, o caráter.
Todas as vezes em que tentou acertar.
Todas as vezes que acertou.
E também as que errou.
No fim das contas, não fez diferença.
A vida não diferencia. Fode com todo mundo.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O passado tem medo de mim.

Eu o deixei para trás.

Mas o futuro... Ah!... Esse não!

Esse não vê a hora de me encontrar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Contando os dias


O ciclo de uma gripe.
O tempo que Deus levou para criar o mundo.
O que meu salário sobrevive.
Período em que acontece Natal e Ano Novo.
Uma fase da Lua.
O tempo entre um Domingo de Ramos e um Domingo de Páscoa.
A chegada de uma correspondência em Londres.
A gestação de uma Sardinha.
O fechamento da Isto É.
O prazo para se arrepender da compra.
O intervalo da pílula anticoncepcional.
Sete rotações da Terra.
Um pacote de viagem turística.
A germinação de um grão de feijão.
A recuperação de uma cirurgia de catarata.
O crescimento de 2,5 mm do fio de cabelo.
Sete pores do sol.
Sete dias.
Sete noites.
168 horas.
Uma semana.
Uma semana...
Só falta uma semana
Para a vida começar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Maybe...

Maybe the secret is not waiting for enything...

Maybe the secret is not waiting...

Maybe you don't know the secret.

Maybe there's no secret.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cordel do Zanomia

Já que no último post divulguei o poema "Retrato" do meu amigo Leonardo, dessa vez vai de presente a arte do meu amigo Zanomia, cujo blog está aí do ladinho, entre os meus preferido. Nesse vídeo, meu mais ilustre amigo de Itapuã apresenta sua versão da canção "Tenho sede" (do Gil). Parece que ele gravou esse vídeo por causa do concurso "Banda Larga Cordel", mas, independente dos motivos, é sempre bom ver o Zanomia tocando, cantando.........


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Retrato

Nosso rosto reflete a beleza de quem está ao nosso lado
Não especificamente aqueles que amamos, mas transpondo energias.
Nos retratos temos impressos a paz ou os momentos mais eternos
Gravados e ternos nas retinas de uma máquina eletrônica...em fotografias.


Suaves nuances, matizes, ocasionadas da reunião de luzes.
Pontos luminosos que vertem imagens traduzidas em pixels
Termo inglês que expressa mais que um único ponto isolado
E lado a lado traz aos olhos o instante de vida captado.

Milhões de pontos traduzem um único momento.
Que faz sentir, rir, chorar, amar, ressentir, dependendo das ocasiões.
Milhares de almas em comunhão sobrevivendo ao tempo
Graças a esse invento, que atravessou os tempos gerando emoções.

Oito fotos fazem uma cena, quadros gerando o cinema.
A vida em movimento, retratando gerações em verdadeiros poemas.
Temas do cotidiano, os mais corriqueiros, alheios aos demais
Nem sempre merecidos ou entendidos pelos que fitam as cenas.

Quem dera ser um pixel
Para traduzir uma cena ou um relato
Mesmo pouco crível, único e isolado
Sendo gigante, em união, compondo um retrato.


(Esse poema é de autoria do meu grande amigo Leonardo Almeida - leonardo18299@hotmail.com - com quem tenho muitos retratos de momentos que sempre me trarão saudade)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"O primeiro amor passou, o segundo amor passou... Mas o coração continua"


Sentei ao lado de um jovem rapaz, lá pelos seus 15 ou 16 anos. Simpático, bonito, olhar otimista. Tinha nos braços o material da escola e, na mão esquerda, uma enorme aliança de prata. Essas alianças são o que chamamos de aliança de compromisso. São mais comuns, hoje em dia, que aliança de noivado. São usadas antes dela. Representam um estágio entre o "se conhecer, se apaixonar" e o "vamos casar". A aliança de compromisso não cobra datas nem enxoval. Ela significa, simplesmente, que se está no auge da paixão.

A aliança dele não estava na mão direita, como seria de praxe. Estava na esquerda, aquela destinada ao casamento. Penso que ele tenha tentado demonstrar mais intensidade ao compromisso. "Não duvide do amor que há em mim. Ele tem a melhor das intenções". Deve ser esse o recado. E quem duvidaria? Eu acredito verdadeiramente nas nobres intenções daquele menino. Mas isso não o torna mais do que um menino. Eu olhava para aquela mão orgulhosa da aliança e pensava: como é que se diz para esse ingênuo garoto que esse amor, essa aliança e tudo o que ela representa, que tudo isso não é para sempre? Que nos educaram para pensar que amor é para sempre, mas que a realidade não é bem assim.

Pensei em dizer a ele: moço, essa fase é linda, mas vai passar. Vocês pensam que foram feitos um para o outro, que nada mais importa no mundo além do amor entre vocês, que você encontrou o amor para toda a vida... Só que tudo isso irá se desfazer aos poucos. Vocês crescem juntos, descobrem o sexo juntos, amam e odeiam juntos, sofrem com as ausências, anseiam os encontros, lutam contra as inúmeras tentações, fazem planos, sonham com o futuro juntos... Até que olham um para o outro e percebem que algo ficou pelo caminho.

Não foi por mal, não foi por querer, mas já não se consegue resgatar o que se perdeu. Vocês vão se olhar, talvez ainda sentirão que se amam, mas não saberão mais exatamente por que estão juntos. E vai doer. Vai ser um vazio arrasador tomando conta de vocês. Vocês vão conversar, na tentativa de entender o que está se passando. Vocês vão tentar de novo e de novo. Vocês vão chorar. Vão sentir a dor física do fim. A árdua decisão de tirar a aliança do dedo e de tirar, junto com ela, todos os planos que agora já não terão lugar no seu futuro. Ninguém pode amenizar essa dor. Ninguém pode ajudar quando se trata do fim do primeiro amor. De fato, ele um dia nos abandona.

Como dizer algo assim para o coração tão puro e apaixonado daquele garoto? Para um coração que acredita no pra sempre? A resposta é simples. A gente não diz nada. A gente olha para aqueles olhos entusiasmados e tenta acreditar que o nosso próximo amor - esse sim - será para sempre.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Do outro lado das dunas


Caminhar em dunas é uma excelente atividade física. Num exercício como esse, a pessoa sente o coração batendo a mil, a boca secar, o suor escorrer no meio das costas. Colocar um pé na frente (e em direção ao alto) do outro chega a ser custoso, doloroso, dependendo do preparo físico. Mas a gente se esforça, dá tudo de si, pois sabe que do outro lado daquelas dunas estará o mar. Sabe que a vista vale a pena. Sabe que o vento no rosto, lá no topo da duna, é o afago que recompensa.

É exaustivo passar uma noite em claro, finalizando um grande trabalho. Horas e horas diante do computador, cuja tela representa mais uma cobrança que um aliado. São necessários pequenos – e insuficientes – intervalos para esticar o corpo e lembrar que ainda existe uma coluna vertebral em algum lugar. Litros de café ou de coca-cola para se manter acordado – ou da mistura dos dois, a partir de um certo ponto. Mas você já pensa no sentimento de alívio que virá quando entregar o fruto de tanto esforço intelectual. Aguarda pelo reconhecimento. Sabe que o próximo sono virá acompanhado da sensação de dever cumprido. E por algum tempo você se dará o luxo de não ter compromissos. De curtir a fase – ainda que pequena – de ócio entre um projeto e outro.

Embarcar em uma nova viagem é principiar a ânsia da chegada. Foram dias planejando, escolhendo as roupas mais adequadas, controlando o peso da mala. As economias se veem finalmente sendo utilizadas. O caminho é longo. Os meios de transporte variam. Incluem avião, ônibus, táxi, trem, barco, o que for preciso. Horas de espera pelo próximo embarque. Sono interrompido pelas paradas. Fome enganada com lanches rápidos. Mas no destino final o reencontro te aguarda. O abraço esperado. As conversas guardadas. A inestimável companhia de quem há tempos não se via. Isso faz com que todo o percurso tenha valido a pena.

A gente passa por qualquer sufoco quando sabe que o retorno será bom. A gente aguenta, persiste, enfrenta. O depois vale o esforço. É nele que você pensa. A única possibilidade de desistência é quando se perde de vista o ponto de chegada. Não há recompensa. A luta torna-se vã. A gente precisa da perspectiva. Da fé no que virá amanhã. Porque no fundo todo mundo sabe cantar o famoso refrão: “Só quero saber do que pode dar certo... Não tenho tempo a perder.”

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

À noite


O melhor horário é quando a noite chega. E quanto mais tarde, melhor. À noite, as pessoas se desfazem de uniformes, compromissos, cerimônias. Todos ficam mais à vontade. Em casa, os momentos mais prazerosos acontecem. Os sapatos dormem e os mais confortáveis chinelos são os companheiros ideais. O relógio pesaria demais nos pulsos descompromissados. Que mal pode haver em não combinar a cor da camiseta e da calça? Em deixar o sutiã rosa pink aparecer sob a blusinha gasta? À noite, as pessoas são o que são.

É de noite que ela apaga as luzes do seu pequeno apartamento, abre as janelas e começa a assistir ao mundo ao seu redor. Por mais que digam que os grandes centros afastam as pessoas umas das outras, para ela é o contrário. A proximidade dos prédios permite que ela pouse demoradamente seu olhar sobre outras vidas. Ninguém se protege quando pensa estar sozinho. Ninguém finge quando não sabe estar sendo observado.

Ela se despe em comunhão a quem admira. Está tão exposta quanto todos os outros. Coloca-se à mostra como um pedido de permissão para olhar. E olha... Olha a mãe obesa e o filho surfista que dividem apartamento, mas mal se falam. Ela toma conta de todas as coisas do filho, desde a roupa de borracha até a vitamina que ele toma. Ele mal olha para ela. E consegue preparar sua própria comida quando ela se ausenta, mas disso ela não sabe.

O casal do primeiro andar tem um gato e duas bicicletas. As bicicletas nunca saem do lugar. Nem o homem. É ela quem trabalha o dia todo, quem cuida do gato, quem faz a limpeza e a comida. Ele fica por ali, existindo. Não... Não apenas. Ele sempre quer sexo. Em todas as peças do apartamento.

O bebê do apartamento da frente está maior a cada dia. E a mãe do bebê, cada dia mais abatida. O pai ainda não aprendeu a trocar as fraldas do filho, mas é com ele que a criança dá suas melhores risadas. Como as gargalhadas dos dois estudantes do apartamento ao lado, que se soltam só de madrugada. Dormem durante o dia. Chamam os amigos da faculdade durante a noite. Fumam, bebem, falam e riem.

Ela observa noite após noite. Imagina-se vivendo aquelas histórias. Compara os outros. Duvida das escolhas. Pensa nas tantas possibilidades de destino. Nunca interfere. Apenas olha. Por horas. Adormece sob a luz que vem dos apartamentos vizinhos. Não sobrou tempo de olhar para sua própria vida.