quarta-feira, 26 de julho de 2017

Goodbye, New York!


Sentindo-me praticamente uma Nova Yorkina, dispensei táxi ou über e peguei o metrô para ir até o Aeroporto Internacional JFK. Lá no Aeroporto, é necessário pegar outro trem, o Airtrain, para ir até o embarque. Entre fila para check in e atendimento, perdi cerca de uma hora até descobrir que estava no aeroporto errado. Sairia de Nova York por uma porta diferente da que entrei. O atendente gentilmente tentou me tranquilizar: “A senhora tem tempo; se correr, consegue chegar no Aeroporto La Guardia em cerca de 40-50 minutos”.

Corri. Com uma mala imensa e pesada, mais mochila, bolsa e sacola penduradas e um aperto no coração, que já não aguentava mais a saudade da família. Quando cheguei na fila enorme para pegar o táxi, comecei a chorar, na certeza de que não chegaria a tempo. Duas adolescentes solidárias me deixaram passar na frente, poupando preciosos longos minutos de espera, para pegar o táxi. Uma senhora até se ofereceu para me acompanhar no táxi até lá. E ainda falam que os estadunidenses são frios e insensíveis...

No veículo, continuei chorando: medo de perder o voo, de levar mais um dia até chegar em casa, de ter que pagar nova passagem aérea, frustração comigo mesma por não ter prestado atenção no detalhe do aeroporto. O taxista, um senhor de barba longa e branca, por volta de seus 70 anos, perguntou se eu estava bem. Eu expliquei a situação. Ele disse: “Calma, vamos pegar um atalho para fugir do trânsito. Em meia hora, você estará no aeroporto”.

Depois de um silêncio e as lágrimas secando, ele falou mais. Disse: “Sabe, essas coisas acontecem. Se você perder o voo aqui, perdeu! Vai ter que lidar com isso, comprar outra passagem, perder dinheiro. Mas chorar não vai lhe ajudar. Você precisa ser forte e resolver. Chore quando chegar em casa, entre os seus. Aqui, longe de tudo, você precisa ser forte. Você só pode ser frágil diante de quem lhe ama – e obterá conforto”.

E continuou: “Vou lhe contar que quarenta e cinco anos atrás, eu estava indo visitar minha família, no Afeganistão, com minha esposa, e passaríamos por Londres. Só que, chegando em solo Britânico, eles não me deixaram entrar. Não pude continuar minha viagem, nem rever minha família. Mandaram-me retornar. Entrei em contato com dois amigos, que se juntaram para comprar outra passagem aérea de volta para mim. Voltei para Nova York, perdi 4000 dólares em passagem. Não adiantava eu chorar lá. Assim como você, eu choro. Mas não havia o que fazer.

“Quarenta e três anos depois, precisei ir a Londres por outra razão e solicitei meu visto de entrada. Eles negaram porque eu já tinha histórico de não ter sido aceito. Precisei apelar legalmente. Bem, 43 anos depois, o governo Britânico se desculpou, me deu razão e me deu livre acesso. Levou 43 anos e não foram minhas lágrimas que resolveram. Aconteceu comigo, pode acontecer com você e a gente precisa ser forte”.


Aquele sábio senhor me deixou a tempo no aeroporto La Guardia. Foi minha despedida de uma New York tão multicultural, tão imensa e lotada, tão cheia de histórias. A minha confusão de aeroportos foi só uma delas. E embora minhas lágrimas tenham sensibilizado aquelas mulheres na fila do táxi, o que resolveu foi a rota alternativa do taxista, minha sorte de ter chegado com muita antecedência no primeiro aeroporto, a tempo de correr para o segundo. E o que fica em mim desse breve episódio são as palavras do taxista: “Seja forte aqui, longe de tudo e entre estranhos. Quando chegar em casa, passado tudo, entre os seus, você chora”. 

Talvez eu assim o faça. Mas, entre os meus, minhas lágrimas serão apenas de alegria. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Bênçãos



Quase três anos atrás, no Natal de 2013, minha mãe deu a cada um dos filhos uma caixinha de madeira pintada por ela mesma e com a palavra "Bênçãos" escrita na tampa. Junto da caixa vinha um cartão, explicando que o maior desejo de uma mãe para seus filhos é que eles tivessem muitas bênçãos e alegrias, a cada dia do novo ano, e esperava que nós soubéssemos reconhecer todas essas alegrias. Então a ideia era escrever as coisas boas que o ano de 2014 nos traria e ir colocando os papéis naquela caixinha. Desse modo, teríamos uma boa ideia do quanto éramos privilegiados com pequenas e significativas alegrias da vida.

Eu segui a proposta e, a cada acontecimento bacana dos meus dias, escrevia em um papelzinho e colocava na caixa de bênçãos. Era também um exercício de enxergar o que era bom e que, por tantas vezes, passa despercebido, quase sem o devido valor. Um café com as amigas, um dia na praia, pequenas conquistas da filha. Confesso que não consegui fazer por muito tempo. Por alguma razão, só pratiquei esse exercício de bênçãos até março de 2014.

A questão é que encontrei essa caixinha há dois dias, exatamente na véspera do meu aniversário. Dediquei um tempo para ler cada um dos papéis, relembrando, com um sorriso no rosto, de cada um deles. Compartilhei essa leitura e as lembranças com meu marido e tivemos um momento de nostalgia com essas recordações tão boas.

Percebi que todas aquelas vivências, quando relembradas agora, dois anos depois, passam a impressão de que foram ainda melhores. Ficou quase aquela sensação de que éramos mais felizes em 2014 do que agora. Mas essa é uma impressão falsa. A verdade é que tudo depende de como se olha para os eventos - atuais e passados. O que vivemos em 2014 não foi melhor. Foi apenas o que aconteceu lá e o que eu escolhi registrar: o bom, o feliz, a bênção. Naquela época também tivemos problemas, mas nenhum deles, obviamente, entrou na caixa. E os desafios foram resolvidos e ficaram para trás, quase como se não tivessem existido.

Percebi que temos uma tendência errada de focar no que não está bom no presente, no que precisa ser feito, resolvido, nas contas que precisam ser pagas, no cansaço, no que não está dando certo. Tudo isso precisa de atenção, sim, mas não precisa ser o centro de nossa atenção. Tem tantas outras questões mais importantes na vida e que, inclusive, nos fazem bem. Aquele sorriso no meu rosto ao ler as bênçãos de 2014 não deve surgir no futuro, ao lembrar de hoje. Ele deve aparecer hoje mesmo, na vivência, no presente, no tempo real da bênção.

Percebi que preciso voltar a listar as bênçãos de meus dias e que o melhor momento seria a data do meu aniversário, início de um novo ano na minha vida, um ano que será cheio de bênçãos, de momentos felizes para curtir e registrar. Um ano em que eu valorize mais os presentes do dia e lembre deles com carinho depois, recordando, também, que soube valorizar cada um desses momentos.

Percebi que o que estou fazendo hoje é o simples ato de criar recordações. Consciente disso, quero criar recordações felizes, quero a serenidade do sorriso no rosto hoje e no futuro. Essa é a bênção.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Não tenha um cachorro


Está pensando em comprar um cachorrinho? Em pedir um de presente? Em adotar algum daquela feira da praça?
Não faça isso.
Você não precisa disso.
Dá muito trabalho. Muito mesmo.
Você vai perder um tempão educando-o a fazer xixi e cocô nos lugares certos.
Vai limpar um monte de sujeira mal cheirosa.
Vai ter que passear umas duas vezes por dia, no mínimo, para diminuir significativamente a quantidade dessa sujeira.
Vai gastar um dinheirão com vacinas e, se precisar, vários exames e remédios especiais para cães.
Vai fazer malabarismo para conseguir dar os remédios que ele não quer tomar.
Vai gastar para dar banho. Para comprar ração.
Vai encontrar pelos na casa, no sofá, na sua cama.
Vai ter que lutar pela sua própria comida, porque o cãozinho fofo vai tentar comê-la em seu lugar.
Vai acordar com latidos no meio da noite por causa de qualquer besteira que você não entenderá.
Vai viajar e pagar hotel para cães, ou sobrecarregar algum amigo que cuidará dele para você.
Você irá perder algum sapato ou mobília na casa, em algum momento dessa convivência.
Vai passar vergonha com o período de cio, por exemplo, em que a cadelinha vai querer transar com qualquer perna que enxergar pela frente.
Vai continuar gastando dinheiro, vendo os problemas de saúde aparecerem com o tempo.
E vai chegar o inevitável dia em que ele (ou ela) vai te deixar.
É fato: você leva o cãozinho para casa sabendo que ele morrerá em alguns anos.
E aí, meu amigo... É aí que me refiro... Aí o bicho pega mesmo.
Aí você vai sofrer.
Vai chorar e continuar sofrendo.
Vai sentir falta o tempo todo.
Vai preferir todos aqueles problemas de novo: os latidos, os banhos, os gastos, a sujeira, os pelos.
Você vai olhar para os outros cãezinhos e ficar com o coração pequeno porque não tem mais o seu.
Vai sentir falta da cabecinha dele encostada no seu pé enquanto você assistia à TV.
Vai querer acariciar uma barriguinha que não está mais ali.
Não vai saber o que fazer com aqueles brinquedinhos sujos e velhos, com os potinhos agora aposentados de ração e água.
Vai ouvir o latido dele no silêncio.
Vai sentir falta daquela lambeção toda e euforia quando você retornava para casa.
Vai ter a impressão de tê-lo visto correndo de novo por aí.
Vai ficar se perguntando o que mais você poderia ter feito.
Vai pensar: será que ele sentia que eu o amava tanto assim?
E vai continuar sofrendo um sofrimento que nem é reconhecido socialmente. Um sofrimento tachado quase como bobagem por quem não sabe como é.

Não... Não faça isso.
Em meio a essa dor da perda, você vai até listar todo o ônus de ter um cão para tentar se convencer de que ele não te faz falta.
Mas faz.
E vai doer pra cachorro!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Abacaxi


Tenho inúmeras recordações da infância que remetem a essa fruta esquisita, o abacaxi. Todas envolvem minha mãe. Não pense que minha mãe é "um abacaxi", pois essa expressão idiomática não tem nada a ver com ela. A questão é que minha mãe adora abacaxi. Sempre adorou. Pelo menos, desde que eu me entendo por gente.
Desde pequena, eu amava o verão... Família toda viajando para a praia, sem os habituais compromissos de trabalho e escola, apenas curtindo o mar - que sempre morou longe da gente, esse teimoso! - curtindo jogos de cartas noturnos, horários nada rígidos para sono e refeições e, claro, curtindo muito essa fruta típica da estação quente, o abacaxi. Quer dizer, eu não curtia. Não gostava mesmo... Preferia mil vezes a melancia. Mas, fosse na minha própria casa ou no lugar alugado de férias, sempre você encontraria abundância de abacaxi. Por quê? Não porque fosse mais barato ou uma boa decoração de centro de mesa... Não! Tinha muito abacaxi porque é a fruta predileta de minha mãe.
Podia ser no café da manhã, após o almoço, de noite ou no lanche da tarde... Ela se deliciava com o abacaxi e exclamava: "É, sem dúvida, a fruta de que eu mais gosto!".
Eu não entendia. Pensava: "Mãe tem cada gosto estranho..." Eu até tentei "pegar gosto" pelo tal abacaxi. Quando minha mãe dizia: "Este está bem docinho, parece feito de açúcar!", eu tentava experimentar mais uma vez... Mas não tinha jeito: na minha boca, abacaxi era um negócio amargo, ácido, que chegava a dar agonia de comer. Eu tentei. Muitas vezes. Consegui gostar só do suco. E eu ficava até feliz de não gostar, porque aí sobrava mais para ela.
Minha mãe amava e continua amando o abacaxi. "Deve fazer bem pra saúde dela", pensei, e deixei o assunto para lá.
Quando fui morar sozinha e fazia minhas primeiras compras de supermercado, toda orgulhosa, enchia meu pequeno apê das mais variadas frutas: banana, laranja, pêssego, mamão. Outras vezes comprava ameixa, caqui, kiwi, tangerina. Mas abacaxi... Nunca fazia parte da minha lista de compras. E não me fazia falta.
Até que chegou um determinado dia que, no buffet do lugar onde sempre almoço, lá estava ele, o abacaxi: todo cortado em pedacinhos, pronto para servir de sobremesa (light) para quem quisesse. Olhei para aquele abacaxi, ele olhou para mim, rolou um clima e uma vontade danada de ter aquele gostinho na boca de novo. Comi tudo e, acredite, poderia até ter repetido se tivesse mais.
No dia seguinte, lá estava eu, procurando pelo abacaxi... O de ontem estava tão bom! Quero mais!
Dia após dia, eu queria comer abacaxi. Melhor do que querer comer brigadeiro todos os dias, claro! Então, mesmo achando aquela mudança de paladar estranha, dei vazão àquela vontade e passei até a comprar abacaxi para a casa. Já casada, meu marido aprovou o ingresso da fruta à nossa dieta.
Pouco depois de o abacaxi entrar de vez em meu prato e estômago, descobri: estava grávida. Estava explicado! Só podia ser desejo alheio aquela vontade toda por abacaxi. Tive certeza de que minha filha seria a criança mais adepta a comer abacaxi dentre todas as outras!
Fiquei intrigada e contente com o desejo diário por abacaxi. Se deixassem, eu comeria um inteiro todinho e sozinha. Achava delicioso, suculento, saboroso! Por vezes, era a única coisa que eu tinha vontade de comer. Imaginei, porém, que tão logo o bebê saísse de meu ventre, sairia com ele o gosto pela fruta tropical e eu voltaria aos hábitos "frutíferos" de antes da gestação.
Não foi o que aconteceu. Minha filha nasceu, foi crescendo e crescendo... E agora me vejo em uma segunda gestação, e aquele estranho desejo não regrediu, não me abandonou: sempre que possível, opto pelo abacaxi. Não é um desejo de todo dia, mas é bem frequente.
Estava pensando que o abacaxi chegou, quatro anos atrás, em minha vida, e ficou. Ele se apresentou para mim junto com a maternidade: desde então e para sempre.
De repente, entendi o deleite de minha mãe. Compreendi o quanto o amarguinho da fruta pode ser gostoso. Percebi que dentro daquela casca dura, coroada por folhas rígidas com espinhos, tem um apetitoso prazer que vale a pena. Por fim, dei-me conta de outros significados do abacaxi para mim... Não foi por acaso que essa vontade só apareceu quando engravidei. O abacaxi foi minha primeira representação da maternidade: experiência que tem acidez associada a sabores insubstituíveis. Casca grossa e conteúdo inegavelmente prazeroso e único. Um amargo deleite. Doce aroma tropical, mesmo que você esteja "debaixo de mau tempo". Uma experiência para ser compartilhada (um abacaxi, assim como a responsabilidade da maternidade, é muito grande para uma pessoa só, mas é do tamanho ideal para um casal).
Hoje, vejo-me como via minha mãe, aquela de gosto peculiar. Vejo-me cúmplice dela, degustando juntas um abacaxi docinho do verão. Ela não tinha necessidade de que eu me servisse e gostasse da fruta dela. Talvez fosse uma coisa de mãe e ela já soubesse: o abacaxi e a maternidade viriam no tempo certo. Posso, agora, afirmar - sobre a fruta e a metáfora que ela representa para mim: "É, sem dúvida, do que eu mais gosto!"

segunda-feira, 28 de março de 2016

Seu papel


Agora entendo um pouco melhor como os papéis que assumimos vão mudando drasticamente no decorrer da vida.
Já é clichê o roteiro do filme que trata da atriz, sempre acostumada a ser chamada para fazer papéis de mocinha, de repente começar a receber convites para encenar a mãe da mocinha. A gente assiste a isso e fica achando meio deprimente...
Mas o papel que assumimos na vida também muda de categoria.
Hoje eu olho para minha filha, linda, cheia de energia, de um futuro radiante à sua frente e compreendo: no momento em que se decide ser mãe, também se decide dar um passo ao lado. Você escolhe deixar de ser a protagonista e passa a ser coadjuvante - quase figurinista às vezes.
E mais: você enxerga a beleza dessa mudança de papel, a importância que cada um deles tem nesse "filme" e sente um orgulho enorme de sua própria filmografia.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Com você, meus medos



Aprendi o que é sentir medo com você.
Medo da responsabilidade
Medo de não saber o que fazer
Medo de fazer tudo errado.
E eu continuo sentindo medos.
Eles só mudam de nome, mas todos continuam sendo medo.
Medo de estar sendo dura demais ou mole demais.
Medo de você ficar doente.
Medo de você precisar de mim e eu não estar por perto.
Medo de você se machucar.
Medo de alguém machucar você.
Medo do que a vida trará para você e o que você fará com isso.
Medo porque foge ao meu controle.
Medo de você não ser feliz.
Medo de você um dia me odiar.

Agora tenho medo medos com relação a mim mesma.
Acho estranho tê-los, mas tenho mesmo.
Medo de não conseguir te dar a vida que espero poder proporcionar
Medo de não atingir suas expectativas
Medo de velocidade... porque acidentes acontecem.
Medo de avião.
Medo de morrer
Porque eu não quero te deixar desamparada, sem colo, sem o meu abraço.
Eu não quero que você seja educada por outros.
Eu quero ver tudo o que você vai ser
Eu quero assistir
Eu quero estar perto
Quero poder ajudar quando você precisar.

Você trouxe novo valor à minha vida...
A minha vida não é mais só minha.
Talvez ela seja até mais sua do que minha.
Eu tenho medo, sim
E toda a coragem por assumi-los.

Eu tenho medo e amor.
Eu tenho medo e planos.
Eu tenho medo e vida.
Eu tenho medo e tenho você.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Calo


É o engasgo
É todo o fluxo das palavras que digo com os olhos
E que você não escuta
É o que não se comunica
O que não sai de meu peito
Nem nunca alcançará o seu
O que minha alma grita
E tudo o que calo
Tudo o que absorvo
Tudo o que mora no obscuro de mim
O que você não desvenda
Que você não conecta
Que seu tato desconhece
E que cresce em mim
Como um bolo
Um rolo
Um rombo
um roubo.
Ora na foz da garganta
Ora no vazio do estômago
Ora no suor das mãos
Ou na pegada...
Que já não deixa marcas.

É disso que estou falando
Estou falando do que não é seu
Do que você repudia
Do que você foge
E do que também,
em mim,
ama.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Gentileza gera gentileza



A hora do jantar se aproxima e eu decido fazer uma sopa de legumes. O dia foi longo, o cansaço aparece, mas ainda tem tanto a fazer... Vou para a cozinha, escolho a panela, seleciono os legumes, lavo, corto. Enquanto organizo isso, aparece minha pequena ajudante de dois anos, puxa uma cadeira, fica em pé, em cima da cadeira, diante da pia, e diz "Eu ajudo". E ela ajuda mesmo, do jeitinho que sabe: lava os legumes, lava as panelinhas de brinquedo, lava as mãos, deixa tudo arrumadinho em cima da pia.

Enquanto a sopa ferve e penso que minha ajudante vai largar a pia e ir direto para os brinquedos, ela aparece na sala de jantar com seu prato, talher e copo, que ela mesma pegou da gaveta da cozinha. Posiciona na mesa do jeito que eu ensinei e pergunta: "O que mais?". Antes de mim, ela se adiantou para arrumar a mesa do jantar. Continuou levando tudo que não é perigo: colher, guardanapo, descanso de mesa. Continua sendo útil do jeitinho dela.

Meu coração já está em êxtase de alegria!

Quando tudo está pronto e sentamos para brincar de construir castelos, ela esbarra na nossa cachorrinha e, na mesma hora, fala: "Desculpa, She-ra!" (sim, nossa Shih-tzu tem nome de super-heroína).

Uma vez à mesa, depois de servir seu prato de sopa, espontaneamente, ela me diz: "Obrigada!".

Honestamente, não sei como foi que ensinamos todas essas pequenas delicadezas em dois anos e nove meses de vida. Mas, de alguma maneira, ela aprendeu. E, enquanto me emociono ao testemunhar essa pessoinha crescendo e mostrando quem é, peço a Deus, do fundo do meu coração, para que ela cresça assim, para que a vida não lhe "desensine" nesses pequenos gestos.

Eles farão com que a vida de minha filha gere um pouco mais de gentileza no mundo!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Para quem nasceu primeiro



Hoje é aniversário da minha irmã que gosta de dizer que não é a mais velha... Ela nasceu primeiro!

E hoje, depois de tantas experiências vividas com ela, sem ela, depois dela, entendo por que ela afirma isso. Não é para parecer mais jovem - ela não precisa disso.

É porque, quando ela diz que nasceu primeiro, afirma o óbvio: que ela abriu os caminhos para os irmãos, para mim.

Dos quatro, ela é a exploradora, a desbravadora, a primeira de nós...

A primeira a sair de casa, a primeira a se formar, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado...

A primeira a enfrentar o mundo, a começar pelo nosso pai (!).

A primeira a se separar, a casar de novo, e se permitir sempre se apaixonar, inclusive por ela mesma.

Ela foi na frente na estrada que nos levou à Bahia. Abriu passagem, demarcou território, preparou os lugares, arrumou, plantou boas sementes, deu seu toque acolhedor e, depois, me trouxe pela mão, pelo coração, para eu continuar colhendo o que de bom ela já havia semeado.

Então, ela tomou outro rumo e começou tudo de novo: estrada, territórios, sementes.

Ela chega primeiro. Ela prepara tudo. Ela organiza.

Hoje eu tenho certeza: ela nasceu primeiro para tornar o mundo melhor para mim!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Homesick

Pode ser apenas uma certa fase de nostalgia, de saudade apertada de tudo que faz parte de mim e que ficou lá no Sul do país, mas hoje me peguei pensando em todas as questões culturais que nunca farão parte do repertório da minha filha do modo como fazem parte do meu...

Percebi que, por mais que ela tenha sua pequena cuia de chimarrão e tome eventualmente comigo, ela mal saberá como realmente funciona uma roda de chimarrão, dificilmente terá a ambição de saber preparar um sozinha e não terá o mesmo vício que eu tenho. Em contrapartida, ela vai se deliciar com água de coco e suco de cajá, vai implorar para eu levá-la para tomar um açaí.

Tampouco ela terá água na boca por um suculento churrasco, preparado pelo avô ou pelo tio, com o chimarrão passando de mão em mão enquanto a carne assa e todos se divertem em volta da churrasqueira. Sei que ela vai adorar - ela já adora - um acarajé bem preparado e o caruru de setembro.

A Festa da Uva vai passar desapercebida pela vida de minha filha. Ela não quererá ser Rainha ou Princesa da Festa (nem poderá), não vai assistir aos desfiles de rua e às olimpíadas do evento, sempre tão engraçadas. Mas vai curtir muito carnaval, como pipoca, camarote, bloco ou em cima do trio!

Ela não vai experienciar a sensação de perceber o inverno chegando, trocar todas as roupas de lugar no guarda-roupas, ir correndo para debaixo das cobertas nos dias mais frios ou querer se jogar para dentro de uma lareira... Ela terá, isso sim, a malandragem da praia, do bronzeado, do mar e de só sentir frio em viagens ocasionais (e achar o máximo!).

Ela não vai se preocupar e se ocupar com a moda do inverno, que deixa as mulheres tão mais elegantes: as botas, os casacos, as mantas e as luvas, mas terá coleções de biquínis, cangas e bonés.

Ela vai entender e respeitar o candomblé, os orixás, mas nunca será devota de Nossa Senhora do Caravaggio, nunca percorrerá, a pé, numa manhã fria de maio, os 22 quilômetros até Farroupilha.

Para ela, 20 de setembro será apenas mais um dia comum no calendário, mas respeitará muito o dia 2 de julho.

Ela desconhecerá a letra e achará engraçada a canção "Quando se pianta la bella polenta...", mas vai cantar aos brados "que o baiano é um povo a mais de mil..."

Dodô, Osmar ou Elomar serão exemplos de músicos e compositores, não Renato Borghetti ou Yamandu Costa.

Macarronada? Tortéi? Pinhão? Não! Peixe, por favor.

Ela nunca vai exclamar "Bah!". Ela vai dizer "Ôxi"! Não chamará a "profe", chamará a "pró".

Não comerá cuca de lanche, mas um pedaço de bolo de aipim.

Vai conhecer as melhores festas juninas, mas mal saberá o que é um "almoço de colônia".

Tantas diferenças, tantos variados costumes. Não é o meu sotaque que ela herdará, não é no solo em que nasci que ela viverá. É no solo que escolhi, com o sotaque cantado dos baianos, o sotaque do pai, que é o meu amor.

No fim das contas, é tudo apenas uma questão de amor, mais uma vez. O amor que me trouxe, que me mantém, que a gerou. O amor por um lugar, por dois lugares, por esse caminho. O amor que encontra espaço para uma, duas culturas... O amor que crescerá nela e lhe dará a chance de ser como bem quiser, com a cultura que quiser ou, na melhor das hipóteses, com a junção das duas.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Para uma mulher sem filhos



Antes de mais nada, saiba que tudo o que você vai ler não fará muita diferença ou sentido nesse momento de sua vida. Você só realmente entenderá quando e se, porventura, tiver filho(s).
Apesar disso, como mãe de uma menina maravilhosa de dois anos de idade, sinto-me na obrigação de compartilhar algumas vivências, que - lógico - não são exclusividades minhas:

1) O mito do "nunca mais você dormirá do mesmo jeito": totalmente verdade! E nunca significa NUNCA mesmo. Esqueça domingos, feriados, férias, longos sonos da tarde, noites ininterruptas de sono. Esqueça! E não é porque a criança não dorme (a minha dorme a noite todinha desde bebê) - é porque você fica em estado de alerta constante - qualquer barulho, qualquer movimento, qualquer vento, qualquer luz, qualquer sonho, qualquer ausência de barulho ou movimento ou luz... TUDO é motivo para você despertar!

2) Vá ao shopping e ao supermercado e passe longas horas por lá AGORA! Essa é a hora. Depois de ser mãe, seu shopping e seu supermercado nunca mais serão os mesmos. Se você resolve ir com a criança, você também deverá se sujeitar ao tempo da criança, óbvio! Não adianta querer que ela tenha a mesma disposição e paciência que você, do mesmo modo que você não tem a mesma disposição que ela para assistir à Peppa uma tarde toda ou pular na cama-elástica a tarde toda. E se você deixa seu filho com alguém para ir ao shopping/supermercado, seu coração ficará ansioso para retornar passados os primeiros 30 minutos longe. Nunca mais a tranquilidade de outrora...

3) Faça todas as horas-extras no seu trabalho agora! Crie um enorme banco de horas. Depois que você retornar da licença-maternidade, você será rigorosa com seu horário de saída (nem sempre com o de chegada, já vou avisando: imprevistos acontecem muito com crianças!).

4) Por mais que você acredite que sim, você ainda não valoriza o suficiente tudo que sua mãe é para você - mas isso vai mudar a partir do momento em que você se tornar mãe.

5) Faça amor com seu marido em horários inusitados e lugares mais inusitados ainda! Você sentirá falta disso quando vocês só tiverem disponibilidade para o amor quando a criança está dormindo ou quando tem alguém para ficar com ela. Ah! E aproveite bastante antes da gravidez! Com barrigão não é a mesma coisa para nenhum dos dois, viu?

6) Por enquanto, está fácil olhar para os filhos dos outros e julgar vários absurdos - crises de birra, alimentação, amamentar/não amamentar, crianças mimadas... Por mais que você tente evitar, não tem jeito: seu filho ou sua filha, se você escolher ter, vai te colocar em saias-justas e, em alguns momentos, você nem saberá como sair delas. Relaxe quando isso acontecer! As outras mães te compreenderão... Ou não! E tudo bem! Quem sabe de você e de sua cria é você!

7) Leitura: aproveite agora para ler, sério! Depois, seu tempo será escasso e, quando o tempo surgir, a probabilidade de você estar extremamente cansada e cair no sono na segunda página é muito grande!

8) Cansaço e sono: esses são dois conceitos que, até o momento, você desconhece completamente. Todas as vezes que você fala que está muito cansada ou que está com muito sono, as mães ao seu redor pensam: "Bobinha! Não viu nada!".

9) Seu corpo pode voltar a ser o que era antes de uma gravidez, sim - mas dá muito trabalho (durante e depois da gestação). Deixa eu repetir para não restarem dúvidas: DÁ MUITO TRABALHO!

10) A sua habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo vai se desenvolver EXPONENCIALMENTE! Ao ponto de você conseguir, por exemplo, estar preparando o café da manhã da família, com um bebê grudado em seu peito e você ainda conseguir usar o banheiro sem parar nenhuma das atividades anteriores (com o celular na mão, claro! Vai que alguma coisa dá errada e você precisa chamar alguém... ).

11) Se antes você achava um saco controlar sua dieta/alimentação, some a isso a preocupação que você terá, diariamente, com cada uma das refeições que uma criança deve fazer, de forma equilibrada e saudável, claro! Isso inclui o famoso supermercado para o qual você não dedicará mais o mesmo tempo, fazer feira toda semana, criar cardápios, adaptar as refeições da família e, como não poderia deixar de faltar, controlar o funcionamento intestinal da criança (Não esqueça do seu!).

12) Falando em funcionamento intestinal: dificilmente essa será uma tarefa individual depois que se tem filho(s). Os filhos podem estar muito bem sem a gente, mas, no momento em que a mãe resolve ir ao banheiro, a criança vai atrás e não se contenta com uma porta fechada! É engraçado, temos que admitir...

Eu poderia continuar a lista por bastante tempo, mas agora é melhor eu ir dormir, pois, como já falei, todos os minutos de sono tornam-se mais valiosos depois da chegada de um bebê.
Eu sei que você, mulher sem filhos, deve ter pensado que exagerei em alguns aspectos, ou que tudo é besteira ou que você conseguirá lidar melhor com tudo isso. Espero que sim, embora ache que não. Mas antes de eu ir para a cama, devo avisá-la de um último e inquestinável aspecto da sua vida sobre o qual você não terá mais nenhum controle e que é, na verdade, o mais insano: o seu coração. Esse nunca mais conseguirá voltar ao tamanho que era - ele ficará maior que você, ficará melhor para o mundo, ficará mais sensível, ficará derretido... Você não saberá o que é sentimento constante de encantamento e de amor até que você se torne mãe.

Boa noite!
 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Deu saudade



É esse o horário da minha saudade de você: acordo, preparo o meu café, arrumo a mesa e dou início à refeição que você mais gosta.
Fico pensando se você está tomando café na mesma hora que eu. Se estamos tomando café juntas, apesar da distância.
Imagino seu rosto, chegando, todo amassado ainda e com cheirinho de manhã. Os cabelos penteados, na tentativa de que fiquem assim por várias horas do dia. Os óculos, o chambre, os chinelos de ficar em casa.
Horário bom de conversar, de falar um pouco sobre como vai ser o dia, mas, o mais importante: como foi a noite. Com o que você sonhou?
Você tem uns sonhos criativos, cheios de gente famosa, que nunca iremos encontrar. Você conta como quem conta uma história e eu fico curiosa para saber o desfecho. Você sabe bem como contar uma história... Entre um gole de café e uma mordidinha no pão, você fala e ri e traz um pouco mais de água quente para mim.
Eu sinto a sua falta todos os dias, faço contagem regressiva para nos vermos de novo - aí ou aqui.
Mas no café da manhã... O café que você me ensinou a tomar, a refeição que você me ensinou a valorizar... Esse é o momento em que a vida poderia abrir um parênteses e deixar que nós o vivêssemos juntas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O impacto da chegada de um bebê na vida de um casal


Deixa eu explicar o impacto da chegada de um bebê na vida de um casal...

Sabe aquela cena de filme de ação em que as pessoas estão andando tranquilamente e, de repente, lá atrás, explode uma bomba que joga aquelas mesmas pessoas para longe e cada um cai para um lado, de um jeito diferente?

A chegada de um bebê na vida do casal é assim: o bebê, inocente e inevitavelmente, é a bomba (!). Mesmo que você esteja esperando por ela, saiba que vai haver a explosão, é impossível mensurar a força do impacto antes de acontecer. É, com o perdão da repetição, bombástico.

Os pais são as pessoas que estão caminhando tranquilamente, habituados àquele caminho já conhecido, aí sentem o impacto pelas costas e são arremeçados para longe. Após o bombardeio, o choque é tão grande que cada um precisa começar a abrir os olhos, em primeiro lugar, lembrar de quem é, onde está, para depois tentar entender o que aconteceu.

Estão lá: pai jogado de um lado, sentindo-se desamparado no mundo, a mãe em frangalhos, descabelada, do outro lado. Ambos apoiando-se no chão, erguendo a cabeça e atentos ao forte zumbido no ouvido. (Adendo: o zumbido é o choro do bebê)

Aí se levantam, olham para os lados, equilibram-se. Percebem o caos ao seu redor e procuram diretamente por um lugar seguro, de olho no ponto em que a bomba explodiu - precisam saber o que fazer a partir dali.

Só depois de a fumaça diminuir, os bombeiros já chegando (entenda-se: familiares que ajudam), junto com a imprensa (leia-se: visitas curiosas), eles começam a se lembrar de que estavam juntos antes do impacto. Sentem a falta um do outro. Procuram-se, entre cacos e feridas. Precisam reestruturar o caminho que vinham seguindo, pensando que agora tem a bomba, bem ali no meio. E ela ainda está quente - e queima: afinal, ninguém nasceu sabendo como lidar com uma bomba.

E no pensar e repensar a bomba e o impacto, no reescrever trajetórias e planejar os próximos passos juntos, o casal volta ao eixo. Dessa vez, mais seguros do que são capazes, mais determinados, mais unidos. Sobreviventes.

E o interessante é que o filme continua... Agora, com três protagonistas. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

My perfect meal




Quantas receitas de bolo dão errado - se o fermento venceu, se a temperatura ambiente não está boa, se você erra a medida... A qualquer momento, pode dar errado.

Você era a receita prestes a dar errado.

Apareceu sem propósito e tudo que eu queria era diversão, sol e apenas uma pitada de amor, sem exageros. Minha última receita tinha sido muito salgada e passado do ponto. Eu não estava apenas começando uma nova receita, eu estava começando a escrever todo um novo livro delas.

Então você chegou com a simplicidade de quem prepara um drinque - não é necessário muita técnica nem habilidades. As doses são geralmente controláveis e não representam risco, a não ser que se beba demais.

Eu te bebi demais. Precisava sorver cada gota sua, bebericar seus lábios, me embebedar com suas palavras, seus olhos, seu corpo. Queria a ressaca de você no dia seguinte. Queria curá-la com mais taças de você.

E foi assim que você passou de drinque para entrada: para abrir meu apetite. Goles já não me bastavam. Precisava de mais conteúdo. Precisava da curiosidade que uma entrada atiça. Queria saber mais, ter mais, ver mais, experimentar mais, garfada por garfada.

Tornou-se pouco. Uma entrada não mata a fome. Para isso, só o prato principal. Passei a querer a refeição completa. Cada detalhe dela. Em quantidade. Senti, pela primeira vez, que estava sendo servida no melhor restaurante, pelo melhor chef. Alta gastronomia.

Seu perfume, seu sabor, sua textura, seu gosto, seu apelo, seu calor, seu tempero - minha satisfação.

Combinação perfeita, como queijo e vinho. Romeu e Julieta. De repente, uma receita de amor. O lado doce do amor - nossa sobremesa. O gosto bom que fica na boca... A vontade de uma colheradinha a mais... Compartilhar a vida e o pedaço do bolo de casamento.

E assim, perceber: nossas refeições acontecem todos os dias. Dia após dia, almoço e jantar. Refeições que às vezes estão salgadas, às vezes sem sal. Às vezes são light e às vezes engordam. Às vezes mal, às vezes bem passadas. Às vezes fora, às vezes comida caseira. Às vezes, doce, outras, fruta. Mas a gente sempre se alimenta... porque você me nutre.

Embora saciada, preciso dizer: minha fome de você é para a vida inteira.

domingo, 8 de setembro de 2013

Para você, o meu melhor



Olho para você e tenho essa vontade
TAMANHA
de poder te dar tudo de melhor:
festinhas de aniversário
escola
viagens
brincadeiras
conforto
livrinhos
roupinhas
refeições
arte
tudo que eu puder
Mas especialmente
quero que você tenha de mim
as melhores lembranças.