sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

À noite


O melhor horário é quando a noite chega. E quanto mais tarde, melhor. À noite, as pessoas se desfazem de uniformes, compromissos, cerimônias. Todos ficam mais à vontade. Em casa, os momentos mais prazerosos acontecem. Os sapatos dormem e os mais confortáveis chinelos são os companheiros ideais. O relógio pesaria demais nos pulsos descompromissados. Que mal pode haver em não combinar a cor da camiseta e da calça? Em deixar o sutiã rosa pink aparecer sob a blusinha gasta? À noite, as pessoas são o que são.

É de noite que ela apaga as luzes do seu pequeno apartamento, abre as janelas e começa a assistir ao mundo ao seu redor. Por mais que digam que os grandes centros afastam as pessoas umas das outras, para ela é o contrário. A proximidade dos prédios permite que ela pouse demoradamente seu olhar sobre outras vidas. Ninguém se protege quando pensa estar sozinho. Ninguém finge quando não sabe estar sendo observado.

Ela se despe em comunhão a quem admira. Está tão exposta quanto todos os outros. Coloca-se à mostra como um pedido de permissão para olhar. E olha... Olha a mãe obesa e o filho surfista que dividem apartamento, mas mal se falam. Ela toma conta de todas as coisas do filho, desde a roupa de borracha até a vitamina que ele toma. Ele mal olha para ela. E consegue preparar sua própria comida quando ela se ausenta, mas disso ela não sabe.

O casal do primeiro andar tem um gato e duas bicicletas. As bicicletas nunca saem do lugar. Nem o homem. É ela quem trabalha o dia todo, quem cuida do gato, quem faz a limpeza e a comida. Ele fica por ali, existindo. Não... Não apenas. Ele sempre quer sexo. Em todas as peças do apartamento.

O bebê do apartamento da frente está maior a cada dia. E a mãe do bebê, cada dia mais abatida. O pai ainda não aprendeu a trocar as fraldas do filho, mas é com ele que a criança dá suas melhores risadas. Como as gargalhadas dos dois estudantes do apartamento ao lado, que se soltam só de madrugada. Dormem durante o dia. Chamam os amigos da faculdade durante a noite. Fumam, bebem, falam e riem.

Ela observa noite após noite. Imagina-se vivendo aquelas histórias. Compara os outros. Duvida das escolhas. Pensa nas tantas possibilidades de destino. Nunca interfere. Apenas olha. Por horas. Adormece sob a luz que vem dos apartamentos vizinhos. Não sobrou tempo de olhar para sua própria vida.

Um comentário:

Karen Ambrozi disse...

Que blog perfeitoo :D Amei, achei por acaso quando procurava a foto da Avril ;P