terça-feira, 30 de setembro de 2008

Com mãe não se discute


Passou uns dias com a mãe. Mesmo as mães precisam passar alguns dias com suas próprias mães. Agora se entendem muito melhor. Falam a mesma língua: a língua da maternidade. Sabem receitar remédios como o melhor dos médicos, sabem curar uma dor com um beijo, sabem repreender com um olhar. Sabem, sem nunca terem dito nada, que existe algo maior na vida que ter sucesso, ter dinheiro, ter marido, ter o melhor corpo. Existe o filho. A vida que só elas poderiam ter colocado no mundo.

Fez as malas, organizou as roupas, as fraldas, os brinquedos de borracha. Pegou a maquiagem, a chupeta e a pasta do trabalho. Mala, bolsa de viagem, bolsa de bebê. Agasalhou bem a criança, despediu-se da casa que abriga seu passado. Levava seu futuro nos braços.

Filas, esperas, embarque. Apresentou todos os documentos. Carteira de identidade, cópia da certidão de nascimento da filha, passagem das duas. Seu embarque foi barrado. Não aceitam cópias. Só documentos originais. Àquela hora da noite, todas as outras pessoas embarcando e ela ali, com a filha agarrando sua perna. Não aceitam cópias... Como se mãe fosse coisa que se copiasse.

Ela insistiu, ela implorou, ela tremia. Não cederam. Ela tocava no braço do responsável, apelou para a sensibilidade, telefonou para quem não pôde ajudá-la. Nada adiantou. A criança começou a chorar. Pedia colo. Ela pegava a filha, alisava seus cabelos, olhava em seus olhos e dizia: “Vai ficar tudo bem”. Continuava argumentando. “É minha filha, moço”.

Com a menina no colo, balançava a cabeça, desolada, e falava “Alguém precisa me ajudar”. Só as palavras de uma mãe para surtirem efeito com tamanha eficiência. A partir dali, quem continuou a conversa foi um advogado que passava e se solidarizou com aquela jovem mãe, que tinha a cópia da certidão e a original da angústia materna.

Ele conversou, explicou, deu seu nome em garantia. Assinou um termo de responsabilidade. Responsabilidade por acreditar no que aquela mulher dizia. De acreditar que a menina não se entregaria daquela forma aos braços de mais ninguém, exceto os da mãe. Essa era a prova de que precisava.

Foi a última a embarcar. Andava por entre os outros passageiros, abraçada na filha, e dizendo baixinho: “Está tudo bem agora”. Ela teve medo. Ela achou que não conseguiria. Ela sentiu o que qualquer pessoa sentiria. A diferença é que ela estava no papel de mãe. E mãe não desiste. Mãe dá um jeito. Mesmo que seja atrair um advogado com a força do pensamento.

Mãe é o único ser em que se pode acreditar quando diz que tudo vai ficar bem. Mãe é o motivo pelo qual a gente passa a crer que tudo é possível. Mãe é o que inspira magia no mundo.

3 comentários:

Ruth disse...

Seu texto deveria ser publicado da capa das cartilhas de toda criança em idade escolar, digo, do primeiro ao último ano de nossas vidas.

Abençoada é a Mãe que gerou está obra de escrita benéfica e clara, Bianca.

Aguinaldo Medici Severino disse...

olá Bianca, como vais?
Li tua mensagem no meu blog, ia comentar e agredecer aqui, mas li teu último post e fiquei matutando: belo texto, muito interessante mesmo. As vezes eu penso que sei onde você está ficcionalizando e onde está se expondo, mas aí leio uma frase mais e os sinais se invertem. Gostei mesmo.
Até logo
Aguinaldo

Bianca De Vit Begrow disse...

Acho que quando o assunto é a escrita, ficção e exposição são sempre sinais que se invertem e se confundem...