sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O lugar (provisório) das coisas


Criei uma gaveta para as coisas que não sei onde guardar. Elas não têm lugar definido, não pertencem nem à cozinha, nem ao banheiro, nem ao quarto. São livres de lugares estabelecidos. Estão em um tipo de limbo. A gaveta não é para sempre. Preciso dela para guardar outras coisas. Mas, nesse momento, ela está ocupada em tomar conta do que não tem lugar. Carregadores de celular que não são mais usados, algodão, peças de cortina que foram dispensadas, pilhas, chaveiros, amostras grátis de produtos, estojo extra para escova de dentes, bilhetes antigos, cartões de visita de gente de quem não lembro...

Creio que todo mundo tem um lugarzinho assim. Uma gaveta, uma prateleira, uma mochila. Um canto onde se coloca tudo o que não se usa, mas que não se quer jogar fora. Pode ser que você precise disso um dia. Pode ser que isso simplesmente faça você lembrar de um momento bom de sua vida. A gente não se desfaz dos momentos bons da vida. Também não se desfaz do que ainda pode nos ser útil em algum momento.

Lembro, com isso, de uma tia fantástica que tenho. Ela é fã de jornais, dos artigos dos jornais, dos anúncios bonitos, de citações significativas. O problema é que ela não tem tempo de ler o jornal inteiro todos os dias. E os guarda. Pilhas e pilhas de jornais no limbo. Aguardando pela leitura, pela avaliação, pela decisão de serem recortados e guardados ou transformados em sucata. Ela não sabe se todos aqueles jornais têm conteúdo aproveitável, mas não consegue se desfazer da perspectiva de ser agradada por um deles. Seria como colocar no lixo a chance de um sorriso.

E assim a gente faz com roupas antigas, revistas velhas, brincos desparceirados, souvenirs de viagens, cartas de quem não mantém mais contato. A gente guarda porque acredita ter controle sobre as coisas materiais. A gente guarda para lembrar do que já teve e do que já viveu.

A embalagem de um bombom que ganhou do amor. O livrinho preferido da infância. A entrada do cinema. O comprovante de depósito de dois anos atrás. A flor seca e perdida no meio de um livro. A foto em que mal se reconhece. A caneta que não funciona.

A gente guarda enquanto ainda precisa lembrar. Até o dia em que não vê mais sentido em guardar. Ou quando percebe que não tem mais lugar para aquilo em nossa vida. Aí a gente se desprende. Se desfaz do que nunca realmente foi nosso. E abre espaço para que novos apegos tomem lugar em nossas gavetas.

2 comentários:

Ana Lúcia disse...

Oi Bibi!!!!!!

Descobri seu blog por acaso...seus textos são demais...me identifiquei mto com alguns deles...
Parabéns e td de bom para vc...
Mta saudades..
Super beijo.

Ana Lúcia ( Gringa )

Schirlei disse...

Oi Bianca, td bem?!?!?!
Qto tempo né?!?!

Achei bem legal seu blog, estou adorando os textos e, "O lugar (provisório) das coisas" que não tem utilidade, acaba não permitindo que deixemos vazio um espaço necessário para que a prosperidade chegue.

Porque eu acredito que guardar a inutilidade já passada, é não ter segurança de encontrar a utilidade no futuro (prosperidade).

E depois dessa reflexão é que percebo como é grande o meu "lugar (provisório) das coisas".

Bjs, Schirlei!!