sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Em respeito ao povo catarinense




Pense em tudo o que você possui. Pense no tempo que levou para adquirir sua casa ou apartamento. Pense em quanto você separou do seu salário, mês a mês, para conseguir pagar a cozinha sob medida dos seus sonhos. Pense no quanto você desejou o jogo de sofá no qual senta confortavelmente todas as noites. Pense no último eletrodoméstico que você comprou, aquele cheio de funções. Visualize seu guarda-roupa cheio de opções, mesmo que você já tenha cansado da maioria delas. Lembre daquela caixa com medicamentos, para o caso de ter dor de cabeça ou azia. Repasse em sua memória tudo o que tem na sua geladeira. Pense nas fotos que retratam toda a sua vida. Nos presentes que você ganhou no último aniversário. Nos livros e CDs que você coleciona. No cobertor aos pés da cama para as noites mais frias. No computador diante do qual você passa tanto tempo. Nos seus pares de sapato, seus perfumes, seus quadros. Pense em tudo que te cerca quando você está em casa. Pense...

E agora tente imaginar como seria perder tudo isso. Perder para a água, para a terra, para a natureza. Ver a lama invadindo sua casa, tomando conta de cada peça, levando embora tudo o que você construiu. Não há tempo para despedidas. Não há resgate. Apenas tudo sendo arrancado de você. Suas roupas e suas histórias lavadas em lama e tristeza. Não há como pensar em um futuro bom, apenas no que se foi e não mais voltará. São olhos afundados na água tanto quanto as pernas. Frio que gela o corpo e o coração. Não há compensação. Só desolamento. A falta de tudo o que é seu. A procura pela referência do que você foi, do que você era. O caminho por um chão seco, por proteção. A esperança de secar as ruas e as lágrimas. A expectativa de um sol que não se sabe mais que cor tem.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Mania de explicação


Fico me perguntando por que as pessoas gostam tanto de saber os porquês. As crianças, se soubessem o mal que lhes faria entender os motivos das coisas ou do que elas são feitas, escolheriam não passar pela fase dos porquês. Mas a gente insiste em querer respostas. E depois de obtê-las, costumamos bolar mais e mais perguntas. Carência de entendimento. Carência incurável, aliás. Às vezes é melhor não entender. Entender significa perder a magia do efeito. O encantamento desaparece quando sabemos como são feitas as coisas. É como desvendar o segredo da mágica e abrir mão do brilho nos olhos cheios de novidades. Melhor mesmo é não entender. Melhor um ponto de interrogação que um ponto final. Não quero o encerramento do ponto final. Quero a espera do que pode vir depois das reticências...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

As coisas quebram


A gente passa a vida toda juntando, adquirindo, querendo coisas. Coisas que facilitam a vida. Coisas das quais a gente precisa todos os dias. Coisas que a gente empacota cuidadosamente quando faz uma mudança. Coisas que a gente considera indispensáveis. Coisas que a gente passa meses desejando até conseguir comprar. Coisas que a gente ganha. Coisas que a gente nem sabe de onde surgiram, mas estão ali, entre as suas coisas. Apenas coisas.

A gente guarda porque acha que, uma hora ou outra, vai precisar. A gente chega até a sentir ciúmes das nossas coisas. Por vezes deixamos de usá-las para preservá-las, para que durem mais. A gente se ressente quando empresta uma dessas coisas e nunca mais a recebe de volta. São coisas que adquirem história. Coisas que podem já estar ultrapassadas, mas às quais a gente se apega. Ainda assim, são apenas coisas.

Eu sempre gostei muito de coisas para a casa. Para a cozinha, mais especificamente. Ganhei e comprei muita coisa para equipar esse ambiente tão acolhedor do lar. Pratos, copos, taças, xícaras, fôrmas, potes. Tudo o que se pode imaginar. Pratos de sopa de um lado, pratos rasos de outro. Canecas à frente, xícaras pequenas de cafezinho mais atrás. Travessas redondas à esquerda, travessas retangulares à direita. Maiores embaixo, menores em cima. Organização conforme o uso e o gosto.

Jogo de pratos dado por um grupo de amigas, xícaras que foram presente da tia, travessa de herança materna. Sopeira do chá de panela, jogo de taças pago em prestações, a caneca favorita do chá. Tudo em seu devido lugar, cumprindo sua função sempre que necessário. Coisas que participaram de jantares românticos, brindes de aniversário, canja no dia em que a saúde deixou a desejar. Apenas coisas.

Então, de repente, como se cansadas do uso, as coisas cederam. O armário aéreo em que elas estavam cuidadosamente armazenadas cansou de sustentá-las e colocou tudo ao chão. Ele não poupou nem uma única pequena xícara de café. Desistiu de tudo. Todas as coisas de que tanto gostava, agora, não passavam de cacos no chão da minha cozinha. Cacos de todas as cores e de todos os tamanhos. Cacos que me feriram. Pedaços de coisas que perderam o significado no momento em que se partiram.

Tudo no chão, espalhado por todos os cantos e sob todos os móveis. Não consegui recolher os cacos naquele dia. Evitei o retorno à cozinha. Não queria lembrar de tudo o que tinha guardado naquele armário que preferiu o chão à parede em que estava suspenso. Só no dia seguinte comecei a juntar os pedaços. Alças de xícaras que se libertaram. A flor desenhada no prato desprendia suas pétalas. O fundo do copo sedento da água que acolhera. A melhor porcelana na mesma situação do pirex. Nada restou. Apenas o passado das coisas tão despedaçado quanto elas. Apenas coisas.


Disseram-me para comprar coisas novas. Afinal, coisas são substituíveis. Depois de ver tudo transformado em lixo reciclável, percebi que eu não precisava tanto assim das coisas. Deparei-me com todas as outras coisas ao meu redor e entendi, com toda a clareza, que eram apenas coisas. E que, no final das contas, todas elas não passam de cacos que ainda não se partiram. Cacos dispensáveis. Tudo se quebra. O importante e o fútil. Apenas coisas. E as coisas quebram.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O amante latino


Era, definitivamente, um homem sedutor. Apaixonara-se algumas vezes, desiludira-se outras poucas. Preferia aproveitar os momentos ao lado das mulheres. De várias mulheres. Gostava de todas elas. Conversava e ouvia a todas. Não prometia nada a nenhuma. Elas selecionavam palavras perdidas de contexto e as uniam, de modo que coubessem exatamente em seus sonhos com ele.

Ele desenvolvera o dom de seduzir. Convivera muito tempo com mulheres e sabia o que elas precisavam ouvir. E ele dizia, com seu sotaque espanhol, com a voz de quem sabe o que quer e quando quer. Despia as mulheres com seus olhos verdes e famintos. Tocava no lugar certo: de leve na nuca, com gentileza nas mãos, com volúpia na cintura.

Era fácil de as mulheres se apaixonarem por ele. Depois de passarem um tempo juntos, muito juntos, ele prosseguia com suas conquistas e julgava ter ganhado mais uma amiga. Mas, para ela, não havia amizade, havia desejo. Desejo de mais. Desejo de ser ainda o foco do olhar dele. Só que isso não acontecia. Se ele permanecesse com uma mulher por um período mais longo, certamente mantinha outras novas conquistas paralelamente. Sua fidelidade durava apenas o tempo de sua presença.

Era incorrigível e gostava de sê-lo. Não tinha a mínima intenção de mudar. Algumas mulheres, antes de serem apresentadas a ele, eram avisadas: não se apaixone, ele nunca será seu. Ele admirava todas elas: loiras, ruivas, morenas, altas, crespas, baixas... Todas tinham algo que lhe agradava.

Da última vez que foi visto, estava com uma morena de longos cabelos crespos e sem curvas salientes. Sem muita graça, em um primeiro olhar. Contavam-se os dias até que ele fosse visto com outra. Ao ser alertada, a morena disse que sabia o que estava fazendo. Ela insistiu nele, e ele, sem entender direito, deixou a situação se estender. Quando a deixava em casa, seguia o rumo para mais festas e não poupava seu talento. Quando ele marcava com outras, alegava uma terrível enxaqueca para ela.

Sem que ele desse muita importância, se viu trocando presentes de Dia dos Namorados com ela. Conhecera sua família e ela, a dele. Começaram a passar mais tempo juntos. Ele alertava aos amigos: vou dar mais um tempo e terminar com essa história. Não terminava. Começou a gostar. E, de vez em quando, ainda criava uns casos paralelos para não perder o hábito.

Numa das tantas noites calientes de amor, ela vestiu-se e avisou que estava de partida. Sairia da vida dele. Concluíra que estava perdendo seu tempo ao lado dele. Ele sentiu um certo alívio. Mas o alívio veio seguido de susto, de insegurança, de medo. Viu sua menina saindo, virando as costas para ele. Percebeu que nunca havia feito nada para merecê-la. Lembrou de todos os casos, de todas as mentiras mal contadas, de todas as vezes que a deixou esperando.

Percebeu-se carente dela. De uma hora para a outra, se deu conta de que não era mais um garoto e que acabara de perder a única mulher que o fazia sentir-se homem. Foi até ela. Contou-lhe tudo o que ela já sabia e mais. Explicou que nunca vira as coisas de forma tão clara: era ela. Mais ninguém. Nunca mais. Desculpou-se. Implorou. Ela cedeu. Estão completando 10 anos de vida em comum e ela está esperando o segundo filho. “Não se pode perder a fé nos homens”. É o que ela costuma dizer.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Quando os olhos se entendem


Jantaram entre silêncios e olhares que não conheciam. Palavras de gente grande que escondem as crianças carentes de afago. Um toque tímido de mãos que alcança o coração. Frases ensaiadas que perderam o sentido na hora de serem ditas. O convencional em que se acreditava perdido no que a emoção designa.

É fácil punir de longe. Por telefone, as palavras cruéis fluem como se o alvo delas fosse realmente o aparelho. No espaço da ligação não cabem desculpas, apenas mágoas. O sofrimento é solitário, não tem cúmplices. Muito do que se quer dizer fica calado no peito. As lágrimas são sentidas apenas pelo travesseiro, que não consola. Perdem-se as forças e os sonhos. Perde-se o contato.

Mas agora estavam ali, frente a frente novamente. Tentavam lembrar o que os havia afastado, já que o último encontro terminara em um beijo. A palpitação e a lembrança do dia em que se conheceram. Mexem no suco, no guardanapo ou no enfeite da mesa para disfarçar a ansiedade. Mastigam e não sentem o gosto. A vontade de comer se encerrara no telefonema. Ela esconde o olhar em todas as outras cores do ambiente enquanto ele beija o perfil dela com os olhos. Ele levanta e o olhar dela o abraça silencioso. Ele repara no novo corte de cabelo dela. Ela cortou o cabelo para ele... “Será que ele notou?”

Demoram. Não conseguem falar tudo o que precisavam. Esquecem o que foi dito. Saem lado a lado e voltam para o caos imperceptível da rua. Ela não vê as pessoas correndo apressadas porque sentiu a mão dele em seu ombro. Ele esquece de seus horários porque finalmente a alcançou. Olham-se sem entender o que passara. Olham-se sem nada dizer. Quem se ama se entende pelo olhar. Ele beija os olhos dela. Agradece por eles lhe comunicarem que ela o ama. Seguem de mãos dadas para o resto de suas vidas. E sabem que lá não há lugar para telefones.

sábado, 8 de novembro de 2008

Os primeiros raios de sol...


Sempre sofri com um grave problema. É de nascença, eu sei. Para alguns, nem é problema. Por mais que eu tente, não será diferente. Sofro de uma brancura que me cobre, de ter quase a cor do leite, uma palidez lunar, como já me disseram. Não sou a única e sei que há casos piores que o meu. Mas é isso, uma herança genética da qual nunca conseguirei fugir.

É o tipo de brancura que se torna ainda mais branca quando resolve pegar os primeiros raios solares do verão. E quando isso acontece em uma cidade como Salvador, na Bahia, a minha palidez quase chega a cegar, perto de todas aquelas pessoas uniformemente bronzeadas, douradas, com cor de verão o ano todo.

E eu sempre me iludo achando que poderei ficar tão bronzeada quanto elas. Escolho uma cor na praia e a meta está traçada: quero ficar assim até o final do verão. Como é de se imaginar, isso nunca acontece. O que acontece são desastres típicos da estação para alguém tão clarinha quanto eu.

Preparo o kit-praia: protetor de todos os fatores, partindo do 15 (que minha dermatologista não leia isso!!), óculos, protetor labial, boné, canga, saída de banho, chinelo, biquíni e mais várias outras coisas que acabo não usando. Resolvo seguir o exemplo daquelas mulheres douradas estendidas ao sol e faço exatamente a mesma coisa: horas e horas em parceria com o astro dourado, num pacto secreto em que ele só me queimará sem machucar, devagar, mas com efeito; que, pelo menos em uma estação do ano, terei o privilégio de usar uma roupa branca sem parecer um fantasma.

Só que parece que o sol não concordou com as regras do pacto e resolveu ser cruel. Na hora, tudo parece estar sob controle. É a maior alegria afastar a alça do biquíni e ver que há uma discreta diferença entre a parte coberta e a exposta. Começo a me sentir íntima do sol e de suas manhas e deixo o resto das horas do dia surtir efeito.

Até chegar em casa e encontrar a primeira pessoa que não esteve na praia comigo: a cara de espanto, a exclamação “Meu Deus...” em tom de lamentação. Todo o orgulho adquirido por ter começado a mudar de tom começa a virar desconfiança de que algo saiu errado. E, como se fosse novidade, deparo-me diante do espelho. O estrago está feito. O que era para ser dourado virou a pior tonalidade de vermelho. Aquele vermelho que dói, que arde.

Banho frio e muito hidratante... Em que momento o sol me pegou desprevenida e fez isso comigo? “Deve ter sido durante as 5 horas que você ficou esparramada no sol”, alerta a sincera e irônica companhia de praia. Eu me boicotei. Fingi passar protetor, o que significa passar em algumas partes do corpo e deixar as outras a Deus dará... O resultado fica infinitamente pior. É um mapa-múndi mal desenhado em meu corpo como se o sol tivesse usado lápis-de-cor vermelho.

Mas não é apenas essas manchas amorfas espalhadas pelo corpo. É a dor que elas trazem. É tomar banho com medo de onde a água vai bater. É ter que escolher as roupas mais leves, quando a vontade é que a pele fique nua, sem contato com nada. É achar a posição para dormir sobre as escassas áreas do corpo que conseguiram a proteção do protetor solar. É limitar o abraço porque a ardência não diferencia o que é carinho. E o pior: é abdicar dos dias seguintes de praia e de sol por ter tentado desafiar a natureza logo no primeiro dia. E ficar com a voz do Pedro Bial repetindo a frase final de sua famosa mensagem: “Mas no protetor solar acredite”...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Com o coração na mão


Você se recupera. Se você se queima, se você se corta, se você se machuca... você se recupera. O corpo está preparado para tapar feridas, para curá-las. Na maior parte das vezes, não fica nem cicatriz. Você logo se recupera de acidentes, queimaduras, quedas.


Você só não tem como prever quanto tempo levará para se recompor quando o corte é mais fundo. Quando é feito diretamente no seu coração. Você não sangra, não aparecem hematomas, não há marcas. Mas todo o sangue que circula em suas veias é o seu coração sangrando, chorando em vermelho.


Primeiro ele acelera. Recebe o golpe e quase não acredita que o acertaram. Acelera, ruboriza, treme. Só então você percebe que ele foi atingido. Depois vem a dor, a dor que é física, a falta de ar, o enjôo no estômago. Não há anticorpos para isso e nada mais funciona direito quando o coração é ferido. E aquela dor vai tomando conta... enche seus olhos, esvazia o olhar, emudece a boca, paralisa os gestos.


Não tem remédio. Não passa. Fica alojada e se faz lembrar a cada batida do triste coração. E tudo falta. Falta a fome, o sono, o sorriso. Falta o ar, o ânimo, a paz. Sem previsões. Sem lampejos de esperança. Talvez algumas promessas em que seu coração já não consegue acreditar.


Apenas a dor, o vazio e o tempo.


Não há medicina que cure.


A única chance de melhorar está naquilo pelo qual o seu coração ainda bate.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

My birthday


Ao contrário de muitas pessoas que não gostam de comemorar seus aniversários, eu sempre adorei quando chegava a data do meu. Talvez a época em que aniversario também ajude... quase verão, quase final de ano, quase ritmo de festa. Na verdade, já era um motivo para entrar de vez no ritmo de festas. Depois do meu aniversário, vinha o da minha irmã, o do meu irmão e logo já nos deparávamos com dezembro cheio de comemorações.

Além do mais, minha mãe sempre fez questão de mostrar o quanto a data era importante. Ela criava a expectativa. Por pior que fosse a situação financeira, sempre se fazia alguma coisa. Quando chegava a meia-noite da data do aniversário, ela e todo o resto da família iam dar os parabéns, mesmo que precisasse acordar o aniversariante para isso. Aquilo marcava o início do MEU dia. No dia 31 de outubro, eu me sentia a pessoa mais importante do mundo. Sempre adorei receber os telefonemas, as visitas, os presentes.

Existia uma outra convenção familiar na data do aniversário que era o privilégio de o aniversariante poder escolher o que gostaria de comer no almoço do seu dia. A gente passava os dias de véspera escolhendo o cardápio, pensando em pratos diferentes ou nos mais comuns, de acordo com o apetite. O desejo sempre era realizado, bem do jeito que a gente pedia.

A minha vida toda foi assim. Todos os anos. Hoje percebo que o que sempre tornou essa data tão especial para mim eram as pequenas tradições criadas pela minha mãe para a nossa família. Como qualquer outra tradição de que se goste, nós estamos passando adiante. Eu não, pois ainda não tenho a quem passar, mas meus irmãos fazem os mesmos rituais nos aniversários de seus filhos. Os vínculos familiares se ampliam nas tradições. E elas permanecem até hoje, não importa quantos anos estejamos completando.

É por isso que hoje, dia 31 de outubro, meu aniversário de 29 anos, minha escolha foi retornar à casa de minha mãe, às nossas singelas tradições, ao que me traz conforto. Afinal de contas, por mais longe que estejamos, por mais que viajemos e conheçamos gente, “there’s no place like home”...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Para uma amiga nessa situação...


Início de relacionamento é sempre conflitante. É uma delícia, mas é conflitante. Vocês batem o olho um no outro, se gostam e aí vem toda aquela função de conquistas, de olhares, de respostas bem pensadas. O lado feminino da história acaba passando por dúvidas verdadeiramente cruéis. É ela quem limita até onde vai o primeiro encontro, não ele. Então tem que pensar se está a fim só de uns beijos ou se resolve deixar a mão dele – e a dela – ficar boba de vez. Se pára por aí ou se vai rolar sexo com esse stranger.

Passada essa fase e subentendendo que números de telefone foram trocados, a mulher entra na preocupação seguinte: será que ele vai ligar? Mesmo que ela tenha o telefone dele, não liga. É preciso ver o quão interessado ele está. E isso ela só saberá a partir do momento que ele ligar, o que pode ser na manhã seguinte, na tarde seguinte, na noite seguinte, na semana seguinte ou no ano seguinte (aí não preciso dizer mais nada, né? Não rolou.).

Se ele ligar, ela ainda tem que analisar se o tom dele é de quem realmente está interessado nela ou se o negócio para ele é só matar a fome – de sexo, claro! (há de se considerar todas as hipóteses). Aí resolvem sair juntos e a novela de escolher a roupa ideal começa. Casual ou elegantérrima? Sexy ou romântica? Moderna ou tradicional? Às vezes é necessário ter uma equipe de amigas para ajudar nessas decisões. Sem falar na questão prática sobre o pagamento da conta.

Se tudo isso correr bem, com resultados favoráveis aos dois, outros questionamentos tomam lugar nesse início de relação (que nem se definiu exatamente como relação ainda). Analisa-se cada palavra que é dita por telefone, e-mail, torpedo, MSN ou pessoalmente. Ela está descobrindo quem é o cara, então, fica ligada a tudo. Se acontece um imprevisto na vida desse homem que o impede de encontrá-la, ela provavelmente pensará que ele se desinteressou. Ela faz buscas no orkut, no google e em outras fontes mais seguras para ter referências do candidato a dono do seu coração.

Mostra fotos para as amigas para ver se aprovam. Revisa mentalmente as conversas que tiveram. Pergunta a ele sobre a família (e a resposta será algo definitivo). Pensa dez vezes antes de falar sobre o passado – dela e dele. Bola estratégias mirabolantes para fugir de outros compromissos e ficar um pouco mais com ele. Conta em detalhes cada novo evento do novíssimo casal para umas cinco amigas diferentes, para fazer um balanço de todas as opiniões. Tem palpitação. Começa imediatamente uma nova dieta. Fica perturbada se ele não mandou um beijo antes de desligar o telefone. Pensa que ele deve ser a maior farsa da história na primeira TPM.

São intensos os primeiros dias de um novo relacionamento. Nenhum dos dois sabe exatamente em que território está pisando. O perigo de se machucar é grande. Mais fácil é continuar sem ninguém, não ter esse tipo de preocupação dentre as tantas outras que já se tem sem um relacionamento. Mas verdade seja dita... O que todo mundo quer é a oportunidade de passar por esse tipo de conflito.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Em mundos diferentes


Ela estava sempre muito bem acompanhada: Gucci, Louis Vuitton, Manolo Blahnik, Chanel. Ela não andava, desfilava nas ruas. Era como artista de novela e acordava já maquiada. Falava um pouco de francês, sabia um pouco de Milão, sonhava com muito de Nova York.

Ele estava sempre muito bem acompanhado: Dante, Borges, Machado, Shakespeare. Não andava pelas ruas, mas pelas páginas que lia. Sonhava com Beatriz, Capitu, Laura, Bovary. Estudou francês, italiano, inglês e espanhol.

Encontraram-se em uma livraria-café. Ele buscava por Sartre. Ela, por um presente para a mãe. Ele recomendou Drummond. Ela comprou dois e ficou para um café com ele. O dela, descafeinado. O dele, com leite. Ela pensou que um banho de loja faria bem a ele. Gostou do desafio. Ele pensou que umas boas dicas de leitura fariam bem a ela. E gostou do desafio.

Faziam trocas. Espiavam o universo um do outro. Ele mostrou sua coleção de LPs. Ela mostrou sua coleção de sapatos. Estavam aprendendo um com o outro. Até que, entre frases de Boccaccio e batons da Lancôme, os gostos se uniram. Ele deixou a timidez de lado e ela desfez o penteado.

O beijo apagou as diferenças. As mãos trêmulas dele percorrendo o corpo dela, despindo-a de todas as grifes. A língua dela alisando os dentes dele, deixando-o sem palavras. No amor, não há espaço para a moda. Tampouco para a literatura. No amor, só há espaço para as almas. E as almas dos dois se amaram.

Em meio aos abraços e sorrisos, era hora de partir. Ele ia para um sarau literário. Ela ia para o shopping. Ela fazia escova no cabelo enquanto ele se vestia. Ele saiu primeiro, deixou um recado de amor para ela. Ela viu o recado, ao lado do casaco que ele esquecera. Não conseguiu ler. Não tirava os olhos do casaco. De péssimo gosto.

Ela sabia que era o casaco preferido dele. Mas nada ajudava: a cor, o corte, o tecido. Tudo ruim. Que tipo de pessoa compraria um casaco assim? Nunca, em uma noite fria, ele poderia cobri-la com aquilo. Percebeu que nenhuma poesia tornaria o casaco melhor. Ou o dono do casaco.

Foi ao encontro dele. Precisava falar. Ela chegou em meio à leitura dele. Interpretava James Joyce. Ele a viu: loira, maquiada, com uma bolsa roxa pendurada no ombro e o casaco dele no outro braço. Lia um trecho de Ulisses e pensava que aquela mulher nunca se interessaria por Bloom, nem por Bentinho, tampouco por Pedro Missioneiro. E eles queriam olhos interessados. Queriam a leitura atenta e preliminares feitas de palavras.

Todos partiram e eles ficaram. Não precisaram explicar. Ele pegou o casaco. Ela olhou para o enorme livro que ele tinha em mãos. Ele soube que o conteúdo dela era outro. Ela seguiu seu caminho para o shopping. Ele foi assistir Lars von Trier. Não adiantava. Os opostos só se atraem de verdade no mundo Físico.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Movies


Já que eu falei de um filme no último post, resolvi permanecer no tema. Todo mundo tem suas preferências, suas cenas preferidas, trilhas sonoras que escuta sempre, cenas de amor, de drama... Todo mundo, inclusive eu. Já que hoje é sexta-feira, com o final de semana chegando, talvez alguém possa se servir dos títulos que listo aqui.

Pra começo de conversa, tem alguns atores que sempre fazem filmes bons. Se vou na locadora e vejo que a criatura está no elenco, pego sem nem olhar o título do filme direito. Um desses casos é o da Nicole Kidman, que fez filmes como “Moulin Rouge” (o que valeria comentários pela trilha sonora... Especialmente a versão da música “Roxanne”, que adoro!), “Dogville” (esse rende toda uma crônica à parte), “Os outros”. Mas citei a loira-linda-maravilhosa porque é com ela que se passam duas cenas que acho brilhantes. A interpretação dela é, simplesmente, perfeita. Uma delas está no clássico “As horas” (no qual ela interpreta Virginia Woolf, personagem que, inclusive, lhe rendeu o Oscar em 2002, merecidamente). Enfim, a cena que não me canso de olhar é quando ela e o marido estão na estação de trem, pois ela decidiu ir embora. Há, aí, uma conversa sobre direitos humanos, sobre liberdade, sobre vida, e, no fim das contas, acaba sendo uma das melhores demonstrações de amor de um homem para uma mulher. Vale a pena ver para entender melhor do que estou falando.

Para falar de um filme mais leve – lindo – o melhor exemplo que me ocorre é “O fabuloso destino de Amelie Poulain”, filme francês, e de uma magia de cores, de falas, de conclusões, de simultaneidade... É um dos meus favoritos, com certeza. E nada melhor para me inspirar que a trilha sonora, que é de responsabilidade de Yann Tiersen. Eu, com meu olhar romantizado sobre as coisas e as pessoas, acho que todo mundo tem um pouco de Amelie Poulain, pois todo mundo pode sempre transformar a vida de alguém.

E já que o assunto migrou para a França, lembrei de outro filme que assisti recentemente, “Angel-A”, de Luc Besson. O ator principal, aliás, também atua em “Amelie”, Jamel Debbouze, e a interpretação dele está muito boa. O que começa como algo mais para policial, termina mais para Conto de Fadas. No mínimo, diferente.

Ah! E eu não poderia deixar de falar em “Ensaio sobre a cegueira”, do Fernando Meirelles. Estava ansiosa para ver o resultado na telona, já que foi baseado no livro (do José Saramago) que marcou muito a minha vida. A sensação que tive ao final do filme foi a mesma que tive ao final do livro. Um soco no estômago. É perceber o quanto somos apegados a coisas que não são importantes e o ponto em que a humanidade chega – não apenas em situação de cegueira. Apesar de todas as críticas que têm feito por aí, eu adorei! Já tinha gostado do trabalho dele em “O jardineiro fiel” e, agora, o admiro um pouco mais.

Falando em diretores brasileiros, outro que muito me agrada é o Walter Salles. Além de ser um charme, o cara mandou muito bem em “Diários de motocicleta”, em “Abril despedaçado” e “Central do Brasil”, claro. O primeiro dos três está entre os que assisto e re-assisto, não apenas pelo bom moço Gael, mas por todo esse outro olhar sobre a história de Che (antes de ser o Che revolucionário de que sempre se teve notícia), embalado pelo trilha sonora maravilhosa do Jorge Drexler.

Se o idioma é espanhol, impossível não lembrar de “Mar adentro” e do simpático “Valentín”. O primeiro foi vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e traz Javier Bardem como o tetraplégico que luta pelo direito de morrer. O segundo é uma gracinha! Vontade de levar o Valentín (Rodrigo Noya) pra casa! O gurizinho mora com a avó e o pai o visita de vez em quando. Nessa falta de família, ele tem essa busca por uma figura de mãe que ele nunca conheceu. As idéias infantis dele são lindas e o pequeno argentino realmente soube interpretar muito bem o personagem principal.

Tô lembrando de mais um monte de filmes para comentar: “A pele”, “A vida dos outros”, “O escafandro e a borboleta”, “Lavoura Arcaica”... Ih! Muita coisa! Mas fico por aqui. Ou pela locadora, escolhendo o que vou ver no final de semana...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Love and the city


Tenho que confessar: sou uma cinéfila incorrigível. Adoro cinema, gostaria inclusive de ter tempo de estudar mais sobre a sétima arte. Gosto da telona e da telinha na minha casa. Gosto de ver os trailers, presto atenção nas trilhas sonoras, decoro as falas de alguns de meus filmes favoritos. Acho até que posso considerar a hipótese de dizer que choro mais em filmes do que na vida real. Todas as dicas de novos – ou velhos – títulos são bem-vindas.

Assisti, nessa semana, a um filme que muita gente pode não gostar. Minhas amigas já tinham visto e algumas indicaram. Meus amigos refugaram. Eu, como espectadora da série de televisão, não poderia deixar de ver “Sex and the city – O filme”. Não sou do tipo ligada à moda, mas sou do tipo ligada ao pensamento feminino, coisa que a personagem Carrie sabe expressar muito bem, na minha opinião.

No filme, as quatro personagens que figuraram por tantos anos na série de TV, como todo e qualquer mortal, envelheceram. Na TV, elas são as mulheres nova-iorquinas de 30 anos. No filme, as de 40. A mim, pareceu muito legítimo, uma vez que a mudança de idade também ocorreu – e como evitar? – com as telespectadoras. E é aos 41 anos que Carrie se vê enredada nos preparativos para o casamento. Não qualquer casamento, mas um suntuoso, gigantesco casamento, com tudo aquilo com que a gente pensa que qualquer mulher sonha: vestido de grife, ornamentos originais, a melhor decoração, o melhor organizador de festas e as amigas acompanhando tudo.

Tudo perfeito, exceto pelo fato de o casamento não se efetivar. O cara desiste na hora agá. Trava. Mostra-se totalmente inseguro diante de toda aquela estrutura, ou, nas palavras dele, “circo”. Ele fica, nos últimos instantes, esperando por um “sinal”... que não vem. Todos os convidados esperando, ela totalmente produzida, e ele parte. Parte o coração dela em mil pedaços, claro.

Entendo a apreensão dele. Entendo a desilusão dela. E o melhor estava por vir, mas, aí, você tem que ver o final do filme para saber. Porque esses eventos (que podem acontecer na vida da gente também) acabam desvelando algo em nossas vidas. Em princípio, tudo parece péssimo. Mas a situação vai se mostrando diferente com o tempo, especialmente para as mulheres.

As mulheres crescem ouvindo e acreditando em Contos de Fadas. Elas querem ser a Cinderela. Elas começam a esperar pelo Príncipe Encantado. E demora para perceberem que é uma espera vã. Elas sentem-se como saídas dos livros infantis, mas eles continuam lá, presos nas páginas do “E viveram felizes para sempre”.

No fundo, todas as mulheres gostariam de viver felizes para sempre. E os homens também – e por que não? Mas as coisas não funcionam dessa maneira. Os Príncipes e as Princesas são adaptados. Ele não virá em um cavalo branco. Pode ser em uma bicicleta. Ela não usa sapatinho de cristal, mas uma rasteirinha fica bem com aquele jeans.

E mais... Para ser feliz – ou tentar – a gente não é obrigado a seguir o padrão de um lindo casamento, cheio de testemunhas, de votos, de flores e da pureza ultrapassada do branco. Convenhamos... Nem sempre dão certo. A quantos desses casamentos maravilhosos você já foi, cujo casal, hoje em dia, já está bem separado e até vivendo suas vidas com outras pessoas?

Não estou dizendo que não podem dar certo. Podem. Mas a cerimônia pomposa não é sinônimo de sucesso matrimonial. Na real, o que pode fazer funcionar é a boa vontade dos dois, não a roupa que eles usam no momento em que decidem passar o resto da vida juntos. E tomar essa decisão é muito importante, mas independe do lugar em que acontece. Pode ser no meio de uma festa, no aconchego da cama, na igreja ou até num cartório, desde que seja feita de todo o coração.

Eu, como exemplar vítima – em recuperação – do Complexo de Cinderela, bem que gostaria de acreditar em casamento. Mas, desculpa, eu não acredito. Acredito em pessoas. Acredito no amor entre as pessoas. Mas, a meu ver, nem padre nem papel algum podem garantir a continuidade desse amor. Não adianta fugir: it’s up to you.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Memorial


De repente, por motivos meramente burocráticos, fui obrigada a escrever sobre minha própria vida. O nome que deram a isso foi “Memorial”. Essa palavra é relativa à memória, ao que faz lembrar... E o que a gente lembra é o que é importante para a gente. Assim, me vi obrigada a fazer uma seleção de memórias. Já escrevi uma biografia, sei que é tarefa difícil. Mas o fator facilitador é o fato de eu não ter uma vida que renda uma biografia – não ainda.

Na medida em que fui escrevendo, as recordações foram fluindo. Um fato interligado a outro. Causa-conseqüência. A maneira como as coisas foram acontecendo em minha vida. O que foi escolha minha e o que não dependia de mim. A seleção de pessoas que precisei fazer. Não cabiam todas.

Enquadrei o que vivi até aqui em cinco páginas. Em cinco breves páginas pude falar do meu nascimento, da minha família, das minhas mudanças, dos meus estudos, dos meus amores e meus trabalhos. Tudo em cinco páginas. Fatos concomitantes. Tristezas isoladas. Conquistas. Perdas. Tudo o que tem na vida de todo mundo. E, no final, ainda tinha que colocar uma certa perspectiva de futuro.

Estabelecer planos, metas, objetivos. Explicar os porquês. Justificar a vida toda por um objetivo. Enquanto escrevia, pensei no que os possíveis leitores daquele memorial poderiam pensar. Depois achei melhor parar de pensar nisso para não influenciar a escrita sincera de quem eu sou, do que já fiz.

Dias atrás, um amigo perguntou “Quem é você, na verdade?”. Não consegui responder. O tal memorial também não responderia. Isso só pode ser porque provavelmente ainda estou tentando descobrir. Andei pensando, também, que há dez anos saí da cidade em que voto. Nunca transferi meu título de eleitor. Ainda não tenho vontade de fazê-lo. Transferir o título é fixar um lugar. E eu ainda não defini qual é o meu lugar. Talvez não defina tão cedo, tampouco responda com certeza absoluta a pergunta do meu amigo. Definir quem eu sou seria deixar de mudar. E uma escorpiana como eu precisa de mudanças. Nem que seja para colocar num memorial depois.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Não se acostume


– Quando é que você vai se acostumar comigo? – gritava ela para o namorado.

Taí algo que eu não quero: que se acostumem comigo. Quem se acostuma com você já perdeu o encantamento, já não te olha com olhos de novidade. Já te desvendou. Conhece todas as tuas histórias. Todas as manias e todos os sonhos. E isso não tem graça.

Por que ele deveria se acostumar com ela? Para não se surpreender mais com seus sorrisos ou com suas lágrimas? Para não vibrar quando vê o número dela chamando em seu celular? Para não ficar horas tentando imaginar com que roupa ela estará quando se encontrarem mais tarde? Para não ter mais o que perguntar a não ser “como foi o dia”?

Não deixe que as pessoas se acostumem com você, especialmente se a outra pessoa for seu par – da dança, da vida, do amor. Não deixe que seu par saiba sempre qual será seu próximo passo, sua próxima palavra, seu próximo beijo. Ele perderá a vontade de conduzir, de tentar adivinhar o que você quer falar, de ficar com os lábios entreabertos na esperança de que você o beije.

Acostumar-se com alguém é deixar de ver as coisas novas que todo mundo sempre tem, por menores que sejam. É não reparar nas mudanças de tom de voz, na roupa nova, no corte no dedo, no suspiro que transmite mensagens. Acostumar-se com o outro é não prestar mais atenção.

Coisa boa alguém que tenha curiosidade sobre você! Alguém que, mesmo te conhecendo em detalhes, ainda encontre novas minúcias suas para se encantar, para se apaixonar, ou melhor, se reapaixonar. Não ver mais nada de diferente no outro é ficar cego para o que outrora iluminou o olhar.

Enquanto ainda se percebe um modo de sorrir diferente, um novo jeito de arrumar o cabelo, uma mudança de idéia sobre um assunto... ainda não virou hábito, não é costume. Mesmo com rotina, mesmo com problemas, mesmo com mil coisas para resolver, ainda assim é possível se surpreender com algo inusitado no outro, que você não conhecia. Pode ser até algo ruim, mas, de qualquer forma, é novidade.

A gente sempre precisa de novidade. Todo mundo precisa. E o melhor de tudo é quando a gente é novidade para alguém. Por muito tempo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A velha guerra entre os sexos...


Há horas estou para escrever sobre isso. Prometi a uma leitora que está do outro lado do Oceano Atlântico e hoje, com forte inspiração na conversa que tive com um querido amigo, resolvi, finalmente, expor minha opinião sobre o assunto.

Lamento para quem defende o contrário, mas eu acredito na diferença entre os sexos. Homens e mulheres não são iguais. Não pensam da mesma forma. Não agem do mesmo jeito. Às vezes, o melhor é um não se intrometer no universo do outro.

Admiro as mulheres que encaram profissões reconhecidamente masculinas. São muito corajosas por isso. Têm todos os méritos, todos os meus louvores. Mas não posso dizer que, na minha opinião, elas não saem perdendo por isso.

Já li Simone de Beauvoir. Leila Diniz é tudo de bom. E insisto na idéia de que as mulheres são melhores como mulheres que como tentativas frustradas de homens. Esclareço: há homens que são, igualmente, tentativas muito frustradas de mulheres. O que penso é que as mulheres não deveriam perder o que as diferencia: a feminilidade. Elas não precisam ser feministas para serem femininas. Nem precisam deixar de ser femininas para serem feministas. O equilíbrio possivelmente ainda seja a dose ideal.

Não quero dizer que todas precisem usar cabelos longos, unhas compridas, salto alto e maquiagem. O fato de não usar nada disso não tornará a mulher menos feminina. As atitudes dela é que podem surtir esse efeito. Atitudes de quem pode tudo sem precisar de ninguém. Todo mundo precisa de alguém, seja homem ou mulher. Acontece que algumas mulheres tentam tão arduamente mostrar que são iguais aos homens ou superiores a eles, que acabam esquecendo de que são, antes de tudo, seres-humanos. E o ser - humano é frágil.

Lembro sempre de uma amiga minha que gosta de mulheres. Nesse caso, quando digo “gosta”, é gostar mesmo, ter atração por mulheres. Ela disse que, depois de ter resolvido a questão da homossexualidade em sua cabeça, tinha se tornado muito mais vaidosa, muito mais feminina. “Afinal de contas, eu gosto de mulher. Se eu gostasse de mulher com jeito de homem, seria mais fácil pegar um homem, ora!”. Faz muito sentido.

Então, não acho que as mulheres, por expressarem traços de sua feminilidade, tornem-se submissas a uma sociedade patriarcal. Tolice! É exercendo sua feminilidade que se impõem como mulheres, diferentes de seus homens. Nossa cultura pode ainda ser machista, mas ela não tem como esconder os inúmeros atributos de suas mulheres. A capacidade de gerar vida, a sensibilidade, o formato do corpo, a valorização dele, a inteligência diferenciada. Não acho que homens e mulheres tenham os mesmos papéis nessa grande novela mexicana em que vivemos. Eu só não vejo mal algum em assumir o papel de mulher, como se ele não fosse, também, um dos protagonistas. Afinal de contas, o que seria do grande herói se não existisse uma mocinha que faça tudo valer a pena?