segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A temperatura ideal


Você é movido pela lembrança do aroma, por lembrar da sensação boa, prazerosa. Então você dá um jeito. Levanta de onde está, pega a quantidade de água que vai usar, coloca no recipiente. Abre a tampa atrás da qual está um dos melhores cheiros que você conhece. Conta as colheradas, liga a máquina e a deixa fazer seu trabalho: preparar o café que seus sentidos desejam.

Você escolhe a xícara preferida, coloca a medida exata de açúcar para que não fique nem doce nem amargo demais. Transfere o líquido preto para a xícara e o vê dissolvendo os grãos do doce, enquanto você mexe para preparar o primeiro gole. Toma a xícara com as duas mãos, para que não lhe escape e, mais que isso, para que o calor da bebida chegue à sua pele antes de chegar à boca.

O primeiro gole, a sensação de conforto, de aconchego, o aroma que embriaga. Que excelente decisão essa de preparar um café. Você senta no canto favorito da sala e abre o livro que tem agradado suas idéias por alguns dias. E continua degustando... o café e o livro. Momento perfeito. Não há nada faltando. Nada mais que você deseje naquele momento.

Até que, sem que você perceba, o próximo gole começa a fazer toda a diferença. Você larga o livro e olha para a xícara. Suas mãos não sentem mais o calor. O líquido encosta em seus lábios, em sua língua, e não restam mais dúvidas: esfriou.

De um gole para outro, o café esfriou. Passou do ponto em que estava na temperatura ideal e entrou para o seu setor particular de problemas a resolver. Café frio não tem graça. Aquecer piora. Você não vê outra alternativa a não ser se desfazer do que, por um tempo, lhe fez tanto bem. Você o deixa de lado. Quando tiver tempo e vontade, leva o resto para a cozinha, para o ralo da pia. Lamenta... Se tivesse tomado mais rápido, se não tivesse servido tanto. Mas, agora, já era. O timing passou.

Às vezes o amor é como o café. Você se empenha para prepará-lo, seu corpo consegue até sentir o gosto com antecedência. Tudo vale a pena. Você se doa para ter todo o prazer que o amor pode lhe dar. Você cuida para não colocar nem água demais, nem açúcar de menos. Você quer que tudo seja perfeito. E você consegue. Você chega naquele ponto em que nada mais importa, só aquele instante. Em que a sensação de conforto e o bem-estar tomam conta de você. O amor é a bebida que sacia todas as suas sedes.

Mas aí chega um ponto – você não sabe como, você não viu chegar – chega o ponto em que o amor passou do tempo. Esfriou. Você pode até tentar aquecê-lo, mas o gosto não será mais o mesmo. Você olha, toca, mas não sente mais o calor, o bem-estar. E desvia sua atenção para qualquer outra coisa que esteja fazendo. Até ter o tempo – e a coragem – de se desfazer daquele amor que também lhe fez tanto bem.

Você seguiu a receita, você deu o que tinha de melhor, você teve os bons momentos pelos quais esperara. Você pensa... Se não tivesse esperado tanto... Se tivesse tentado mais... Mas o timing, realmente, já era.

Falta decidir o que fazer com o que ficou, com aquilo que você já não quer mais. Você olha, pensa, pondera. Mas sabe o que deve fazer. Nada que o ralo da sua pia já não conheça.

2 comentários:

Ana Lúcia disse...

Bom dia!!!

Espetacular...

Saudade.

Beijos;

Ana Lúcia (Gringa)

Z, disse...

Risos, o amor é um sentimento ralo...